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Um Olhar Sobre O País em 3 Dimensões.

Márcio Ferreira

É pianista, amante de futebol, livros, cinema, doces e um bom café. Nas horas vagas, é economista formado na FACAMP e mestrando em História Econômica pela UNICAMP. Fissurado pelo país em que vive e por todas as suas jabuticabas.

O que a Campanha de 1950 tem a nos ensinar?

A Campanha de 1950 e o seu retrato na imprensa do Rio de Janeiro foram temas da pesquisa de Luís Ricardo Araújo Costa, Bota o retrato do Velho outra vez”. Ao reconstituir os embates, foi possível compreendermos que o partidarismo da imprensa, que atualmente é tratado como uma contradição com o “fazer jornalismo”, concorreu para conscientizar as massas das disputas entre os projetos que norteariam o processo de desenvolvimento econômico nacional.


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Foi com certa surpresa que encontrei o livro Bota o retrato do velho outra vez. A campanha presidencial de 1950 na imprensa do Rio de Janeiro numa das minhas idas à livraria. Difícil encontrarmos, mesmo nos setores especializados das livrarias, teses contemporâneas em formato de livro. Normalmente, o conhecimento teórico fica restrito aos círculos - as torres de marfim, dirão alguns - intelectuais, com pouca tiragem, reservando o acesso à pesquisa científica para aqueles que já possuem amplo conhecimento e trânsito nesse meio. Participante do 59o Prêmio Jabuti, a dissertação de mestrado de Luís Ricardo Araújo da Costa ficou com o 2o lugar na categoria de Comunicação.

O livro foi dividido em três capítulos, além de uma introdução e um epílogo. Inspirado na biografia de Samuel Wainer, repórter dos Diários Associados de Chatô (o Rei do Brasil), a pesquisa buscou reconstituir como a imprensa carioca retratou a volta de Getúlio Vargas ao poder desde o exílio em São Borja. A análise da produção jornalística buscou apreendê-la como produção simbólica, isto é, "antes como possibilidade de questionamento do processo histórico do que como mero registro dos acontecimentos" (p. 13). Sua tese é a de que

No período pós-1945, na qual os nascentes partidos institucionalizavam famílias políticas diversas, os jornais reverberaram os conflitos ideológicos e os desacordos de um período de agudo acirramento político (p. 13).

Acreditamos que a maior contribuição seja resgatar e compreender, num país que buscava implementar a democracia liberal, o conturbado processo da sucessão presidencial a partir de um objeto que muitas vezes é retratado como uníssono e homogêneo em seu discurso. É evidente que a imprensa nunca foi devota do varguismo, mas a forma como tratou a questão da sucessão revelou um momento em que assumir uma posição no debate político não era motivo de vergonha e muito menos de crítica. Temerários os que vestiam o véu do apartidarismo, da "isenção" etc.. A existência e a importância de jornais que criticavam e apoiavam o retorno de Vargas, como o O Radical, mostrou como pensarmos a imprensa em uma unidade homogênea era um equívoco.

O diálogo com o momento presente se encontra exatamente em retratar o partidarismo dos jornais num momento histórico de tensão e de transição que, no caso, se definiu como a construção de uma via reformista para o desenvolvimento socioeconômico nacional. A isenção, a imparcialidade e todas as demais invenções que vieram com o desenvolvimento do jornalismo estadunidense e sua absorção no país - principalmente após o suicídio de Vargas - deturparam a discussão política nas massas, à medida que vendiam uma "verdade baseada em fatos" transvestida pelo interesse de classe. Do ponto de vista democrático, não é interessante termos em circulação e com acesso veículos que claramente defendem um partido, um projeto, uma classe? Ou é melhor, como hoje, que as linhas editorais se neguem a declarar em quem votam, apesar de votarem?

Além disso, a reconstrução de como a campanha e a imagem de Vargas (PTB) e de Gomes (UDN) foi trabalhada pelos jornais é um dos pontos altos do livro. Houve clara mobilização dos veículos opositores ao varguismo em construir uma imagem popular de Eduardo Gomes e diminuir o sucesso que a campanha eleitoral de Vargas fazia. O falso moralismo já estava presente, associando a figura de Vargas à corrupção da ordem democrática e implementação de uma ditadura - a despeito, como nos mostrou Costa, de que a questão democrática tivesse um preço, visto que muitos jornais, inclusive os de Chatô, se aproximaram do governo do Estado Novo com fins comerciais. No fundo, defendeu-se que a relação entre o governo e a imprensa delimitou-se pelo interesse mútuo de se promoverem: a GV interessava rondar a arena política, aparecendo nas bancas, e a Chatô, empresário líder do setor, esgotar a venda de jornais e revistas com o "sorriso do Velho" estampado na capa - e, em caso do retorno pelas urnas, não se indispor com um possível governo.

O trabalho de Costa tem o mérito de nos trazer uma contribuição sobre um período fundamental para o desenvolvimento ulterior da Nação. A forma como GV se utilizou de sua popularidade junto ao movimento queremista e de sua impopularidade junto à imprensa para retornar ao Catete - de onde tinha sido deposto em 29 de outubro de 1945 - não deixam dúvidas sobre sua habilidade política e, principalmente, sobre sua leitura da realidade brasileira. Soube retornar para dar continuidade ao projeto de desenvolvimento nacional. O resgate dessa trajetória de Vargas reverbera hoje, quando a existência de estadistas que saibam a hora de entrar, sair e retornar à cena nunca foi tão necessária; quando a omissão, a transgressão da ordem democrática e a "sombra política" impedem que o novo cresça e se desenvolva. A falta de honestidade política e intelectual da imprensa quendo pretende comunicar, informar as massas ou, como gostam, "fazer jornalismo", talvez seja um retrato da miséria política que vivemos.

Costa sublinhou um período de grande efervescência e expectativas da política nacional, retratando uma sociedade ciente de si e de seus problemas, em que as grandes lideranças e o partidarismo da imprensa impactaram e foram impactados pela realidade, colocando-a em movimento. Demais, mostrou que a oposição ferrenha às soluções reformistas para os problemas nacionais já se colocava antes de 1964. Este é o mérito de seu trabalho para (re)pensarmos as reformas e a revolução brasileira.

Texto publicado em https://osboemioscivicos.wordpress.com/

Referências

COSTA, L. R. A. da. Bota o retrato do velho outra vez: a campanha presidencial de 1950 na imprensa do Rio de Janeiro. Jundiaí, Paco Editorial: 2016.

Getúlio Vargas discursando


Márcio Ferreira

É pianista, amante de futebol, livros, cinema, doces e um bom café. Nas horas vagas, é economista formado na FACAMP e mestrando em História Econômica pela UNICAMP. Fissurado pelo país em que vive e por todas as suas jabuticabas. .
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