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Um Olhar Sobre O País em 3 Dimensões.

Márcio Ferreira

É pianista, amante de futebol, livros, cinema, doces e um bom café. Nas horas vagas, é economista formado na FACAMP e mestrando em História Econômica pela UNICAMP. Fissurado pelo país em que vive e por todas as suas jabuticabas.

O “Menino de engenho” e a particularidade da formação nacional

Em nosso texto, buscamos mostrar que o primeiro romance de José Lins do Rego ajuda na compreensão teórica e cotidiana da nossa particularidade, afastando o leitor dos lugares comuns, dos preconceitos, da importação de uma interpretação sobre o nosso processo de modernização econômica, social, política e cultural. Ao conferir concretude e materialidade ao Brasil arcaico, à vida no engenho, a obra de Zé Lins ampliou o escopo de compreensão da formação nacional, seja de uma perspectiva teórica, escolástica ou de uma perspectiva cotidiana, fundamental para criarmos nossos mitos, nossas lendas e nossa identidade como povo e nação.


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Em meio a um projeto pessoal – e intermitente – de conhecer os clássicos da década de 1930, a leitura de Menino de engenho, do rubro-negro José Lins do Rego, colocou fim às interrupções a que submeto esse projeto. Senti-me capturado e, se procurava, até então, realizar a empreitada alternando os autores, esse livro obrigou-me a ler os demais, respeitando a sequência, tamanha a inserção do leitor nas memórias do autor. Para a minha surpresa, em pesquisa rápida nas redes, notei que, em geral, a obra de Zé Lins apareceu restrita ao regionalismo e à simples reprodução de memórias. Não raros os comentários que criticavam o “memorialismo” do autor, como um gênero de menor de menor qualidade e densidade. Ao contrário, encontrei no primeiro romance do autor a encarnação da imagem do Brasil rural a que tanto a literatura, a história, a política, a economia fazem referência, de modo a contribuir para compreendermos – e, em boa medida, valorizarmos – a nossa história, a nossa passagem da colônia para o Brasil moderno. Em algum sentido, depuramos o “saudosismo” que parte do pensamento conservador brasileiro sente em relação a período de nossa história.

Diferentemente do que aconteceu com outros autores, não cheguei a Zé Lins pelas listas dos vestibulares, mas, pela importância que Graciliano Ramos, em suas Memórias do cárcere, conferiu ao autor. Ao sair da prisão doente e com uma mão na frente e outra atrás, o velho Graça foi acolhido por Zé Lins em sua residência, que o ajudou em sua recuperação mental, espiritual e material. Além disso, já há muito namorava as novas edições nas estantes das livrarias. Tomei coragem, deixei os novos livros de Chico Buarque, Essa gente, e Milton Hatoum, Pontos de Fuga, de lado e deixei-me conduzir pelo nordeste do começo do século XX.

A viagem no tempo nos levava a olhar para a janela do quarto, da sala, do escritório e procurar pelos partidos, pelo açúcar, pela seca, pelas famílias que trabalhavam e viviam no engenho; sentir o cheiro doce da fervura da cana, do mel de furo; entender o funcionamento de um engenho, muito mais complexo que os retratos comumente pintados. Zé Lins, para usar uma expressão que consta no livro, assumiu o papel de bedéquer, pegou a nossa mão e nos conduziu pela vida do engenho Santa Rosa, situado à margem do rio Paraíba. O passeio ganhou mais realidade e facilitou as nossas sensações porque consta, ao final do livro (ao menos na 109ª edição da José Olympio), um glossário com o vocabulário regional. Nessa visita pelo resquício de Brasil arcaico, conseguimos preencher algumas lacunas que muitas vezes faltam aos livros “científicos”, cada vez mais desumanizados, avessos às expressões que fogem do escopo dos recortes teóricos e metodológicos, do “rigor”.

A vida no engenho foi retratada da perspectiva de Carlinhos e de seu avô, José Paulino, proprietário do Santa Rosa. E, apesar de nos inserirmos nesse mundo pela perspectiva da classe dominante, a violência contra aqueles que desrespeitam as leis, as convenções não deixa de ser menos atroz; o trabalho duro no engenho e a exploração se colocaram como tal, sem os elogios e as fantasias presentes nas visões romantizadas sobre a pobreza alheia. A suavidade e a naturalidade de que se valeu Carlinhos para nos contar sobre as relações dos que trabalham com os que são proprietários encerram-se na sua idade, à época, de uma criança. Se não podermos esperar, seja por preconceito ou o que quer que fosse, uma visão crítica do mundo do engenho na perspectiva da família proprietária, não devemos cobrar um tratado das atrocidades da visão de um menino. Este recurso, inclusive, permitiu estabelecer uma conexão entre a formação de um espírito, de um “viver”, espontâneo, afetuoso e, por que não, cordial e o Brasil rural, do interior, ainda não impactado (e desmantelado) efetivamente pela modernização. Noutras palavras, foi possível estabelecer um vínculo entre o amadurecimento de Carlinhos e a superação da vida de engenho impostas pela urbanização, a industrialização, enfim, pelo progresso.

Daí o livro não interessar apenas aos que estudam as formas arcaicas de produção, de convivência, de organização social. Escrito num período de transição (1932) econômica, social, cultural e política, o texto também ajuda a compreendermos tanto a exaltação com que muitos celebraram o desmantelamento da Primeira República (1889 – 1930) e da economia de exportação quanto a reação dos que seriam ameaçados com a modernização do país. A contribuição para a interpretação do processo de formação nacional consistiu em não estabelecer uma polarização, um dualismo, entre o Brasil colonial de ontem e o Brasil moderno de amanhã: antes, observamos como um se fundiu no outro durante o processo de desenvolvimento capitalista. Sem entrar no mérito das razões desse processo particular de modernização, isto é, sobre os determinantes da transformação que se ensaia, ao menos, desde as últimas décadas do século XIX, o romance, ao final, estabeleceu uma encruzilhada entre a nova vida de Carlinhos no colégio e a nova dinâmica do engenho. A espontaneidade, o afeto e a sensibilidade do menino dariam lugar à racionalidade, à impessoalidade e à frieza da vida moderna, ao mesmo tempo em que o processo de modernização nacional concorria para a superação do modo de vida, da ordem do engenho. A espontaneidade dos afetos daria lugar para a vida regida pela razão e pelo tempo. Se nos voltarmos para o processo histórico brasileiro, sua particularidade consistiu na percepção pelo arcaico do caráter irreversível dessa mudança. Acomodou-se, para não sucumbir, junto à vida moderna. A passagem final, em que o avô, José Paulino, senhor de engenho, conversava com o neto Carlinhos antes da sua partida para o colégio sintetizou essas considerações:

E eu com o lenço, sacudindo. Os olhos se encheram de lágrimas. Cortava-me a alma a saudade do meu engenho. E o trem corria para o Entroncamento. Vinha Santana, Maraú no alto. Maçangana com o coronel Trombone na porta. A máquina tomava água. O trem de guarabira chegava, mais curto que o nosso. Apareciam passageiros de guardá-pó para conversas com os outros do nosso carro. Todo esse movimento me vencia a saudade dos meus campos, dos meus pastos. Queriam me endireitar, fazer de mim um homem instruído. Quando saí de casa, o velho José Paulino me disse: “Não vá perder o seu tempo. Estude, que não se arrepende”. Eu não sabia nada. Levava para o colégio um corpo sacudido pelas paixões de homem feito e uma alma mais velha que meu corpo. [...] Menino perdido, menino de engenho (REGO, 2017: 140/1).

O Menino de engenho mostrou-se uma leitura obrigatória para os estudiosos e o público geral, seja para oxigenar a mente ou para melhor compreender um contexto histórico da modernização do país em sua complexidade e particularidade. Poucos os processos de formação nacional em que o arcaico se justapõe no moderno. A análise teórica e a reflexão cotidiana só têm a ganhar se o cidadão, o intérprete, o cientista social incorporarem, num sentido pleno, a literatura. O trabalho de reflexão tornar-se-ia mais humano, contribuindo para desobstruir a visão dos nossos preconceitos, e criarmos, em nosso imaginário, os nossos mitos, as nossas histórias, a nossa identidade como povo e nação.

Texto publicado em https://osboemioscivicos.wordpress.com/


Márcio Ferreira

É pianista, amante de futebol, livros, cinema, doces e um bom café. Nas horas vagas, é economista formado na FACAMP e mestrando em História Econômica pela UNICAMP. Fissurado pelo país em que vive e por todas as suas jabuticabas. .
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