brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Além do Condado

As aventuras fantásticas que encontramos em livros e filmes também carregam conteúdo a ser visto com mais atenção. E na linda trilogia “O Senhor dos Anéis” não é diferente. Entre tantos símbolos, Frodo é uma personagem que nos instiga com sua história. Ele disse sim a uma situação completamente inusitada e esse sim muito o transformou. O quanto podemos mudar em uma aventura?


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Frodo é uma personagem muito interessante. Todo seu crescimento ao longo da trilogia de “O Senhor dos Anéis” nos chama a atenção. Do hobbit que jamais sonhara sair do condado, até aquele que suportou carregar “O” anel por anos (no filme é difícil ter essa ideia do tempo da jornada, fica mais claro nos livros) e quase sucumbiu no momento final. A jornada amadureceu tanto o Sr Bolseiro que o condado já não é mais seu lar. Quantas jornadas vivemos (ok, as nossas são levemente menos perigosas e não carregamos o destino do mundo) e como somos transformados por cada uma delas? Quantas vezes saímos da nossa zona de conforto e vivemos grandes aventuras?

Frodo disse sim. Para o que? Disse sim para o desconhecido, para algo que ele não poderia mensurar em seu pequeno e pacato condado, algo maior, algo inesperado. Ele disse sim sem ter ideia do que poderia viver e tantas vezes ao longo do caminho pareceu mais fácil desistir. Entre vida e morte ele caminhou pelo desconhecido sem se sentir capaz de cumprir a missão a ele destinada, nesse momento a amizade foi a chave para seguir. A amizade do fiel escudeiro Sam, dos outros hobbits, de elfos, de homens e anões, de uma sociedade de seres diferentes que decidiram se unir para uma missão. Estes que passaram a respeitar as qualidades e defeitos de cada um, tão diferentes, mas tão iguais em fraquezas, medos e também em virtudes. Iguais em humanidade, sensibilidade. Iguais no sim e a cada sim, ficava menos impossível chegar ao fim da missão.

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Aventuras mais leves nos ocorrem. E o quanto titubeamos até dizer o sim. Essa resposta tão valiosa que inúmeras vezes precisa de um empurrão. Sejam daqueles que estão mais próximos e até de pessoas queridas mais distantes. O sim vem de uma bagagem, vem da nossa história. É uma escolha nossa, mas incontestavelmente coletiva. Coletiva, por quê? Carrega experiência, carrega intrinsecamente aqueles que nos cercam, que nos motivam. E quando saímos para a vida é nas horas de anseio que percebemos que aquela força nos empurra sempre adiante. Assim como na aventura de Frodo e cia, viagens ou apenas momentos de decisões nos dão uma nova perspectiva de vida, geram mudanças de rumo, de casa, de vida. Nossa noção de pertencimento também é transformada, entendemos e acolhemos histórias iguais e também aquelas que tanto diferem de nós. Abraçamos novos rumos às vezes tão distantes do que antes pensávamos, porque nosso lugar passa a ser todo lugar. Assim ocorreu com Frodo, ele não mais pertencia apenas ao Condado. O pequeno hobbit virou uma pessoa do mundo, pertence a qualquer lugar na Terra Média. De repente, o lugar mais amado no mundo não é onde queremos estar, não deixa de ser lar, a diferença é que todo canto tornou-se um grande lar.

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E assim também nos vemos em alguns momentos. A volta para os condados de nossa vida é difícil. Seja um amor, um trabalho, uma profissão até uma cidade/estado/país. Parece que não encaixamos mais a uma determinada rotina, estamos além daquilo que antes poderia parecer tão definitivo. A vida se revela mais bonita a partir de outro olhar, pois não somos mais os mesmos que partimos. E mais uma vez, a força da amizade esteve ali: aceitando, confiando e deixando ir. E é realmente mais brando quando nossos “sim” estão cercados de apoio: isso afasta o medo do que pode ser, essa insegurança do futuro. Que tenhamos sempre um pouco de Frodo nas nossas escolhas, que nosso “sim” seja espontâneo, que ele seja verdadeiro e que nos leve onde devemos ir.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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