brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Devaneio sobre o que não foi

Não foi uma história triste
Nem foi tão feliz assim
Não foi sequer história
Se acabou sem ter um fim
Não foi um arder louco de paixão
Nem foi aquele amor que faz mal ao coração

(O que tinha de ser - Tó Brandileone)


DSC_6506.JPGFoto: Ellen Pederçane

E por um tempo pensei que não poderia me desvencilhar do sentimento que nutri por você devido a todo bem que me fizestes. Você chegou e como num passe de mágica entrou na minha vida, com um aperto de mão onde nossas energias se encontraram e aquilo me pareceu um aviso, do que não sei dizer. Talvez de que você viria para conquistar seu lugar na minha vida. Talvez para mostrar o quanto você iria me confundir. Talvez para me revelar que precisava de você para descobrir novos/velhos mundos. Talvez para dizer o quanto me encantariam os caminhos da vida que você me mostrara. Talvez para mostrar que você me traria de volta a mais genuína forma de amor. Talvez...talvez...e nada de sim..ou não.

E ficamos nesse universo, perdidos um no outro, seja no medo, na coragem, na beleza, nas buscas, nas revelações da alma. Só sabíamos olhar pra frente, sem olhar um para o outro. Tomamos muitas boas decisões juntos, a gente se entende, não é? Podíamos falar de coisas em que o mundo lá fora insistia em dizer que era loucura. No nosso mundo o que era loucura era o que os outros diziam que deveríamos fazer. E construímos nosso elo em nossas sedes. Sede de vida. Sede de aprendizagem. Sede do novo. Sede de ida. Sede de carinho. Sede, sede, sede...sede de nós que nunca assumimos, que nunca matamos. E assim prosseguimos, deixando olhares por aí onde os outros viam na gente tudo aquilo que escondíamos até de nós mesmos. Assim seguimos, até não poder mais. Negando e vivendo o amor de outra forma. Se deixando satisfazer com medo do transformá-lo em qualquer outra coisa onde tivéssemos menos domínio de nós mesmos. Esse tal de medo...ai ai...e assim seguimos sem sim ou não.

E a hora de partir se aproximou, a cada dia nosso tempo acabava. Eu ia pro meu canto e você para o seu. E o mais engraçado é como nos ajudamos a tomar, cada um, seu rumo. Como comemoramos cada passo do outro, sem lembrar que só faríamos isso de longe, por um tempo indeterminado. Chegaria o dia de um “até breve” sem data. E quando esse dia chegou, o até breve doeu um pouco mais que imaginávamos. Eu disse (quase) tudo que queria, mostrei (quase) todo meu amor e deixei claro o quanto estava feliz com seu voo. Assumo que ir primeiro parecia um pouco melhor, mas era só uma ideia superficial. Você me disse que quando a ficha caiu, eu já estava indo embora e soltou em uma conversa “como fico eu tanto tempo sem você?”. E assim te vi pela última vez. Fomos sem sim ou não.

E o tempo passou, fomos, voltamos, fomos de novo. O tempo se encarregou de doer o peito em muitos desses momentos. Uma música, uma palavra, um oi, um cuidado distante, um “não esquece que te amo”. Tudo exalava saudade. Distância serve como uma sacudida, daquelas que acorda qualquer um em período de hibernação. Eu vi que preferia o sim ou o não. Esse talvez me deixou tão diminuída, tão impotente. Sinto que não fui sincera comigo e, consequentemente, não o fui com você. E já não era coerente te dizer uma palavra. O tempo passou, a oportunidade foi perdida e as palavras perderam seu valor. Eu te perdi. Você me perdeu. Nós nos perdemos. E agora os quilômetros tiravam a valia de qualquer palavra que eu pudesse te dirigir. E assim veio o não e ele passou um tempo doendo em mim. Prefiro-o àquele talvez.

E o tempo passou mais. E você aos meus olhos mudou. Parece que hoje sei que seu papel na minha vida é ser esse amigo que tem um mundo de histórias para dividir comigo. Ou talvez, seu papel em minha vida seja daqueles que tem só passagem de ida, daquelas pessoas que vem, deixam boas marcas, mas não devem ficar. Talvez nossa história seja de impermanências, pois ambos temos almas inquietas. Talvez nosso aperto de mão tenha sido esse laço de almas livres que somam e um dia se vão. Hoje não valemos o mesmo que valíamos, não pesamos o que costumávamos pesar no dia a dia um do outro. E não somos menos importantes por isso, parece mais é que cumprimos nossas missões. Seguimos. É sempre hora de ir adiante e voar por aí.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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