brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Feridas de um mundo moderno

Tempos difíceis. Tempos de um amor liquido, como já diz Bauman. Tempos onde as mudanças precisam ser mais profundas. E precisamos encarar a dor que vemos nas notícias, nas decisões políticas, nas guerras e sangue derramado entre povos. E não sabemos como chegamos aqui e menos ainda como sair. Até onde aguentamos tais feridas?


DSC_7817PB.jpg Foto: da própria autora

O mundo está ferido. Cada um de nós está ferido. Nós somos o mundo, o universo. Cada pequena cura pode resolver problemas mundiais de grande escala. A ferida está aberta. A ferida está dolorida. Dói em mim, dói em você. São feridas distintas. São feridas iguais. São feridas. E parecem ficar mais profundas. Será aquela dor profunda que leva a cura? Será que estamos sendo amor? Será que a dor irá nos levar de volta para o caminho? Será que dói mais para acabar? Será?

São perguntas. Apenas perguntas que podem ecoar nos vales da vida. São perguntas tão respondidas quanto sem resposta. Já dizia o grande Guimarães Rosa: “se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?” Não sabemos. Parece que andamos vendo notícias demais e pouco pelas ruas. Parece que nos amedrontamos no mundo da informação e paramos de nos comunicar. Parece que vivemos mais nas notícias do que na própria vida. Brigamos por nada. Brigamos por pensar diferente. Brigamos por levantar bandeiras. Esquecemos de ser humanos. Esquecemos de errar. Esquecemos que perante certas circunstâncias não há razão.

E então seguimos feridos. Sem esperança. Sem olhar para o lado. Sem dar amor. Desaprendemos. Desaprendemos a amar, queremos ganhar a briga, dispor da maior tragédia. Nossa humanidade é tão reduzida que olhamos apenas nosso umbigo. Não olhamos as pedras destruídas de cada continente. Cada miséria. Cada guerra. Cada briga. Cada ego buscando ter razão. É, caro amigo, esse olhar amedrontado nos congela. Cria feridas. Não desviamos o olhar do centro para olhar o próximo. Não estendemos a mão. Aonde é que levaram nossa humanidade?

Outro dia, estava em um transporte público e uma senhora tão pequena entrou. Ela não conseguia segurar o saco de frutas (rasgado) que carregava, passar o cartão e liberar a roleta ao mesmo tempo. E de repente, todos que estavam próximos começaram a ajudá-la e até um saco novo para suas frutas conseguiram. Eu chorei e comecei a pensar “acho que esse mundo ainda tem jeito”. E esses pequenos gestos, ocorrem repetidamente ao longo do dia em todos os cantos do mundo. São esse gestos que ao serem repetidos, vão sarar ferida. São esses gestos que fazemos e não lembramos. São esses os gestos que passam direto por nós. Esses gestos são muito maiores do que as guerras, as mortes e os acidentes inventados por seres sem ternura.

Cegamos. Nos cegamos diante um mundo de notícias avassaladoras. De notícias que tiram nosso sono. E quem noticia o amor?É, meu caro amigo, nos diga quem? Amor não vende. Ou talvez só seja vendido em comédias românticas, dessas bem água com açúcar. Mas esse nosso amor que vem dos bons gestos, ah, ele não é de nada! E essa louca comunicação virou nosso olhar para a vida. Que pecado! Não mais enxergamos a singeleza do amor. A beleza da caridade. Não detectamos o amor em ação. Que triste realidade.

Nossa humanidade está refém do medo. E toda vez que brigamos para escolher as piores tragédias do mundo, perdemos minutos preciosos de troca de amor. E trocamos ofensas. Ai, que tristeza. Esse tempo perdido. Essas feridas sangrando. Talvez ainda haja muito que aprender. Talvez ainda levemos algumas rasteiras dessa vida. Talvez o aprendizado já esteja bem diante de nossos olhos, talvez o que precisamos é focá-lo. Foco nos bons gestos. Foco no amor. Foco na mudança que já está em percurso, talvez desde que o mundo é mundo.

Não há como negar, tem algo grande acontecendo, meu irmão e minha irmã. E não há lado. Não há quem tenha razão. Estamos presenciando algo imensurável. Pode ser mais dor. Pode ser plenitude do amor. A única escolha reside em decidir o que queremos olhar, enxergar e ver. Ou você se esconde no medo disseminado pela rede ou você enche o coração de amor a cada esquina. A escolha é sua. A escolha é nossa...


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
Saiba como escrever na obvious.
version 19/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Ellen Pederçane
Site Meter