brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Fotografia Documental: A arte de um olhar atento

A fotografia documental é investigativa, de olhar atencioso e comprometido com a história que espera para ser contada através do registro fotográfico. É um trabalho geralmente repleto de uma poesia e delicadeza. O quanto de uma alma você pode saber em uma imagem? Este gênero fotográfico te entrega alma, histórias, vidas despidas perante as câmeras.


sebastião salgado serra pelada.jpgSebastião Salgado

A fotografia é a arte do olhar. É a arte do registro, onde o agora pode ser eternizado, pode ser revisto por anos e anos. Fotografia é a mágica de pegar nas mãos (mesmo em dispositivos eletrônicos) um momento que passou. Quantas histórias nos recordamos ao olhar uma foto, quantas memórias saudosas, engraçadas ou até menos convenientes. Fotografia treina o olhar e para muitos esse olhar se torna mais atento. Em tempo de efemeridades, um olhar demorado aquece o coração, aquece a alma. E uma fotografia para ser expressiva nos tempos de câmeras ao alcance das mãos e selfies constantes. Um bom olhar ainda é mais raro do que parece.

A fotografia documental é um gênero fotográfico que incorpora diversas propostas, propósitos e valores em sua prática. Do social à fotografia de viagens, muitos temas podem ser ditos como fotografia documental. Essa representação da estrutura social, de uma época, de um evento ou local abordados com uma linguagem estética dá contorno a esse olhar tão expressivo da fotografia nos últimos anos. Olhar que mapeou acontecimentos dos mais catastróficos, até o cotidiano de povos mais distantes. Através desses olhares, conhecemos e vivemos por esses registros realidades que pareciam tão distantes de nós.

Luiz braga.jpgLuiz Braga

Esse gênero fotográfico é por vezes confundido com o fotojornalismo, mas as atividades possuem fins diferentes. O fotojornalismo visa informar, contextualizar, esclarecer de maneira objetiva um determinado acontecimento. Já a fotografia documental visa um trabalho interpretativo, poético e mais elaborado acerca de determinado tema/local, previamente estudado antes da execução do projeto fotográfico. É um gênero que herdou muito do fotodocumentarismo consolidado nos anos 30, como o enfoque social e sua tríade: verdade, objetividade e credibilidade. Como testemunho de uma realidade, a verdade é fator inquestionável em seus retratos.

Esse pesquisa, esse compromisso com a verdade, esse retrato de uma sociedade ou situação é o que evidencia a delicadeza característica da fotografia documental. Um olhar atento, disposto a conhecer e retratar de maneira mais fiel uma realidade que não pertence ao fotógrafo. E aí entra a sensibilidade e poesia do olhar, a disposição em viver nem que seja por alguns cliques aquela verdade do outro. É uma fotografia que despe, que aceita aquela vivência em sua forma mais crua. É um olhar que compadece, tem empatia com tantas realidades diferentes. Não digamos que é um olhar imparcial, mas é um olhar que imerge no outro.

Guy Veloso.jpgGuy Veloso

O Brasil é um país de rica diversidade até nos fotógrafos documentais. Berço de um dos maiores fotógrafos do mundo, o nosso Sebastião Salgado e de muitos outros criadores de imagens que tocam a alma que revelam e a de quem vê. De norte a sul, temos grandes fotógrafos com trabalhos lindos de fotografia documental. Aqui cito alguns como: Luiz Braga, Guy Veloso, Walter Firmo, Araquém Alcântara, José Caldas, Marcelo Rosa, Alexandre Schneider, André Paiva, Luiz Mascarenhas e Silvestre Silva. E esses são apenas alguns nomes de peso.

Grandes mestres esses e tantos outros que nos ensinam através da fotografia documental a beleza de um olhar profundo. Olhar que pretende revelar uma alma, que não se prende aos limites do corpo. Olhar que quer saber de gente, saber de sua história, saber daquelas vidas tão únicas perante aquela lente. É um olhar que outorga importância àquele ser retratado. É uma imagem que fala, grita, que nos faz chorar juntos, nos faz sonhar junto. Olhar esse que deve ser levado para nosso corriqueiro dia-a-dia. Talvez um olhar atento que alguém que passa precisa, talvez um sorriso correspondido, talvez uma palavra qualquer que precisa ser dita, partilhada.

walterfirmo.jpg Walter Firmo

Quantos de nós estamos dispostos a olhar as almas com as quais cruzamos? Amigos, família ou até estranhos que em um dia dividem a vida conosco. Pessoas. Almas além dos corpos. Olhos que contam vidas. Esse olhar profundo é o qual a fotografia documental nos dá de presente. Cada um desses grandes fotógrafos estuda, planeja e passa por um período de enxergar aquela alma como ninguém. Descobrir em um primeiro olhar registrado, uma história que ouvirá posteriormente. Tornar eterno um sorriso que talvez seja tão raro de se ver. Promover culturas lindas que em um mundo tão grande podem passar tão despercebidas. É poesia em forma de registro fotográfico. É história com rimas visuais. Não faladas. Não cantadas. Apenas olhadas com sinceridade.

Fotografia documental é esse olhar atento, vagaroso, investigativo, comprometido com a verdade do momento, daquele breve clique, daquela imagem que se tornará eterna. Fotografia que busca em lugares distantes e também naqueles tão próximos revelar pelas lentes o que os olhos por si só não veem com nitidamente. É poema que conta história. É viagem que se faz apenas ao contemplar. É mais um motivo para amar essa arte do olhar atento.

Obs: Para conhecer mais alguns mestres, esse link te direciona para um mundo de belos olhares: http://fotografosbrasileiros.com.br/especialidade/fotografia-documental/


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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