brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Nietzsche e nossas lágrimas

“Amamos mais o desejo do que o ser desejado!” diz Nietzsche à Breuer.
Um livro com tantas questões. Dilemas cheios de sensibilidade pura. Problemas meus, seus, nossos. Desta forma a leitura de “Quando Nietzsche chorou” se faz tão única: Nietzsche é tão humano quanto nós, suas lágrimas são nossas e isso faz desse romance um presente pra quem gosta de desafiar a si mesmo.


citação nietzsche.jpg Foto: instagram.com/ellenpedercane

“Quando Nietzsche chorou” é daqueles romances geniais, que amarra muito bem ficção e realidade e ainda traz o berço da psicanálise para mexer com qualquer ser humano, do mais ao menos disposto a conhecer a si mesmo. É uma aventura que nos leva a grandes viagens dentro de nós mesmo, afinal é de estremo fascínio ler uma ficção que criou uma vulnerabilidade belíssima em um dos maiores filósofos da história.

Um breve resumo: Josef Breuer recebe uma missão de Lou Salomé para tratar (com método de terapia pela conversa) seu amigo de impulsos suicidas Friedrich Nietzsche, por temer a morte do mesmo. Mas há um problema: ele não pode saber desse outro tratamento, apenas estaria tratando sua frágil saúde e ajudando Breuer com todo seu conhecimento. Enquanto isso Breuer lida com fantasmas em seu casamento devido a uma de suas pacientes, Anna O., e conta com Freud como parceiro para discutir a vida e sobre a medicina.

Irvin D. Yalom (escritor e psiquiatra) perpassa com maestria entre ficção e realidade, filosofia e a então borbulhante psicanálise. Trazendo a relação, real, de mestre e aprendiz de Breuer e Freud, como pano de fundo para o tratamento de Nietzsche (encontro esse que jamais existiu), discutindo a ética médico-paciente, as relações pessoais, a obsessão e a amizade criada pelas personagens centrais, Breuer e Nietzsche. livro.jpg O livro já começa com uma citação marcante do livro “Assim Falou Zaratustra” de Nietzsche: “Alguns não conseguem afrouxar suas próprias cadeias e, não obstante, conseguem libertar seus amigos. Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinzas?” É...nenhuma renovação é ilesa. Por vezes, conseguimos ajudar os próximos e jamais se libertar das próprias cadeias. Mas e quando o desafio lhe obriga a dar esse mergulho mais íntimo para lhe renovar? Desta forma, encontramos dentre os fantasmas de um Breuer solitário e de um Nietzsche suicida os mais comuns em nossas vidas. É um livro de fácil identificação e extremamente provocativo: trata das zonas mais obscuras de nosso ser. Trata de crença e ceticismo, amor e obsessão, desilusão, desejos, depressão e suicídio, doenças com fundo emocional, comportamento, casamentos por um fio e escolhas a fazer, tudo de uma forma muito envolvente.

Ler cada capítulo traz uma reflexão diferente, cada situação nos remete a algo nosso, a troca de tratamentos entre Nietzsche e Breuer nos faz encarar nossos próprios fantasmas juntos com eles. Tudo que um propunha ajudar ao outro era uma ajuda que estavam dando a si mesmos. Cada alfinetada, cada devaneio, cada pulga atrás da orelha ao final de seus encontros. Remete-nos ao que nós mesmos fazemos em muitos casos. O quanto ajudamos outros e a ajuda também é muito nossa? Quantos insights se têm nesse tipo de processo? Muitos! O mergulho é mútuo.

E talvez seja isso torne o livro tão atraente: essa humanidade, fragilidade, vulnerabilidade de cada personagem. Suas dores e dilemas são comuns, são nossos. Qualquer um de nós poderia cumprir o papel dessas personagens, os devaneios são corriqueiros, os medos, a dificuldade em escolher um caminho, de tomar simples (não fáceis) decisões. É incrível se ler numa aventura, se identificar numa obra. Afinal, é isso que torna a arte tão especial, não é mesmo? E na arte de escrever não há como ser diferente! É nisso que o livro nos ganha: ajuda a enfrentar os monstros nossos de cada dia.

O valor da amizade e do compromisso durante períodos turvos é algo imprescindível para a cura de diversos males. Confiança. Guardar segredos que carregam dores. Saber falar, calar e ouvir. Novamente digo, essa humanidade despindo as máscaras de cada personagem trazem em si um convite inegável de uma boa leitura. Não é todo dia que paramos para fazer uma leitura que nos ajude a mergulhar em nós mesmos. Fica o convite pra quem gosta de imergir em si mesmo e nas linhas de um bom livro.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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