brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Os ciclos indomáveis da vida

E sim sobre cada momento
Sorriso a se compartilhar
Também não é sobre correr
Contra o tempo pra ter sempre mais
Porque quando menos se espera
A vida já ficou pra trás

Trem-Bala - Ana Viela


DSC_4190.JPGFoto: da própria autora

Efêmera. Assim é ela: a vida. Um dia nascemos e temos toda a vida pela frente e em um piscar de olhos, ela passa. O tempo é um mistério que nos acompanha em cada dia. O tempo é esse mistério que fingimos conhecer. O tempo é esse tal TIC TAC que resolvemos contabilizar a fim de dominá-lo. São 365 dias. São 24 horas. São 60 segundos por minuto. São contas, são números, o tempo foi cronometrado para que não pudesse nos escapar. Mais um erro do ser humano, não há como controlar o que mal entendemos.

O tempo corre. O tempo é senhor de si. A vida é esse fascinante espaço entre nosso primeiro suspiro e o último. É indomável! É um presente tão forte quanto frágil. Tão tranquilo e tão insone. A vida é essa surpresa com data de chegada e data de partida. Ambas datas que tentamos definir, mas não podemos. Queremos planejar o início de uma vida. Queremos adiar o findar de uma vida. Ainda não aprendemos a amar o tempo. Ainda não lidamos com as peças que ele nos prega. Ainda nos perdemos no barulho da caminhada que tanto precisa de silêncio.

E o tempo é também aquele que nos ensina com cada bruma. Nos vemos a todo tempo presos em teias, de mãos atadas perante ao inesperado. Sem perceber que na verdade, nada é como esperamos. Nos vemos perdidos quando catástrofes ou desastres nos acometem. Queremos entender. Queremos justificar. Queremos saber o porquê. Queremos pensar como poderia ter sido. Não nos atentamos à compaixão, a empatia, que ascende do nosso coração. Fazemos desses sentimentos tão humanos também efêmeros, duram dois ou três dias. Perdemos tempo tentando controlá-lo e esquecemos de SENTIR.

Sentir o hoje, tanto no regozijo quanto no descontentamento. Sentir-se solidário. Sentir-se parte de um todo. Sentir a brevidade da existência. Sentir os encontros e desencontros. Sentir-se pequeno perante as rupturas. Sentir amor àquele próximo não tão próximo. Sentir-se inteiro no solilóquio. Sentir-se inteiro a prosa. Sentir gratidão, aquela verdadeira que vem lá do peito. Perdoar qualquer mágoa que se possa ter carregado por curvas da vida. Sentir amor, dor, medo, apenas sentir. Desaprendemos um tanto nossa humanidade e parecemos apenas encontrá-la quando o susto é forte. Quando a vida se revele COMPLETAMENTE fora do nosso domínio.

Nesse tempo incontestável que nos é dado, só nos resta vivê-lo em plenitude. Cada instante é suntuoso. Cada instante é um milagre. O presente é o que temos. Seja de gozo ou de dor. Seja de sonhos ou pesadelos. É onde devemos estar por inteiro. É onde devemos saber quando viver o silêncio da coxia e quando é hora de enfrentar as luzes do palco. É sentir. É dedicar-se a dar o melhor de você hoje. É compromisso inadiável. O tempo nos é escasso pelos limites que demos a ele, esquecendo assim seu caráter perene. Reduzimos o infinito à horas. Reduzimos à dias. Reduzir à meses e anos.

E quando a vida nos sacode encontramos o que jogamos no esquecimento. Encontramos a vontade de ser, se sentir. Nos resignamos com a dor. Repensamos aquilo que fugimos pensar: a nossa finitude. Fim dos dias, fim de ciclos, fim de uma jornada. Fins que nos são inevitáveis. Fins que lembram que só temos o hoje para amar, cuidar e ter empatia. Porém fins que lembram que tudo está muito além de nossa alçada. Todo dia é uma nascer e morrer em nós. Enquanto respiramos envolvidos nesse ar que tanto nos comove, o tempo segue. E será que vamos esquecer tudo de novo? É como diz o mestre Lenine: “Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma Até quando o corpo pede um pouco mais de alma Eu sei, a vida é tão rara (a vida não para não...a vida não para)”


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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