brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

A porta entreaberta

Abrimos a porta de nossa morada sem atentar para quem entra. Uns ficam, outros vão, outros aparecem apenas para nos roubar o que lhes for interessante. Não estaríamos sendo negligentes? É preciso estar atento há quem nos bate a porta.


P1020090.jpg Foto: da autora

Somos uma morada e lidamos a todo tempo com diversas pessoas querendo morar ou passar temporada em nós. Algumas abrem a casa para que possamos também morar, outros só querem nadar em nossa piscina quando for conveniente. Tem hora que abrimos nossa porta e não reparamos em quem recebemos de braços abertos, apenas deixamos que entrem e façam morada em nós. Alguns são aqueles que tanto compartilham conosco e outros só querem para si a melhor parte de nós. E como que a gente convida a voltar para o lado de fora da porta essa gente?

É importante a gente perceber que não estamos nessa existência apenas para agradar os outros. A gente pode (e deve) cuidar daqueles que queremos bem, mas esse cuidado não pode exigir da gente mais do que possamos dar. Sim, quando exageramos nessa doação o esgotamento emocional é inevitável e por mais óbvio que pareça, não podemos dar mais do que temos. É desumano quando não há delicadeza do outro perante toda expectativa que ele coloca em nós. Podemos estender a mão, mas não somos super-heróis para salvar o outro. Podemos caminhar lado a lado sem invadir o espaço que não é nosso. O tempo traz a sabedoria para saber os limites que devemos dar.

Só conhecemos o limite quando sabemos o que precisamos. Só sabemos o que precisamos quando nos conhecemos. Só nos conhecemos quando dedicamos um tempinho do dia para nós mesmos e então percebemos que precisamos apenas de nossa inteireza. Com ela e a maturidade fica um pouco mais fácil reconhecer quem podemos receber sem receio em nossa morada. Tem quem mergulhe conosco, quem identifique os seus limites e os nossos, quem saiba o espaço necessário para cada passo. Essas são as pessoas que entram e ficam do lado de dentro da porta por toda a vida. É preciso ter discernimento em tempos onde todos são nossos “amigos”. Saber quem nos quer perto por amor e quem gosta de se apossar do que temos para dar. Precisamos ter por perto quem compartilha, compadece e não quem nos exige como agir. Algumas pessoas são de passagem, são grandes aprendizados, assim como somos para elas. Relacionamentos devem durar enquanto somam. Relacionamentos são vias de mão dupla. Relacionamentos não podem abusar ou ultrapassar os limites do outro. Sabemos que amigos são aqueles que nos respeitam e nos enxergam. São aqueles que estão do nosso lado tanto nos bons como nos maus momentos. Aqueles que respeitam nossos silêncios e nossos caminhos. Aqueles que sabemos que podemos chamar e sempre irão nos ouvir. Em tempos de muitos amigos virtuais e pouco virtuosos, vemos quem nos quer de apoio e quem está disposto a nos apoiar.

A vida nos ensina a dar um passo para trás sempre que necessário. São muitos os momentos onde recolher-se é essencial para enxergar a vida de forma mais clara. Essa é a grande chave para saber de fato quem tem os braços abertos da mesma forma que nós. Quem olha no olho com carinho e quem olha para nos conhecer e entrar onde não deve não foi convidado. Em tempos de relacionamentos plásticos, que saibamos abraçar os de carne e osso. A vida é muito curta para passar tempo demais arrumando a casa, escolha bem quem pode ficar porta dentro sem bagunçar o seu lar.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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