brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Carta de despedida

Alguns relacionamentos pesam. Alguns relacionamentos nos roubam de nós. Casamentos, namoros, amizades...ultrapassam limites. Relacionamentos abusivos são prisões que nos enganam. Essa é uma carta de alguém que se despede daquelas moradas sem amor, sempre chega o dia em que o cansaço nos leva pra longe daquilo que não é saudável.


caneta_de_pena-1280x800.jpgFoto: internet

Pensava de coração que não haveriam despedidas entre nós. Sabe aquela coisa “pra sempre”? Acreditava piamente que seria a assim com a gente. Eram tantas afinidades, ao menos assim parecia. Acreditei em cada história contada. E naquele vazio enorme que carregava dentro do peito fizeste morada. Era companhia, muita alegria, muitos sonhos, queríamos agarrar o mundo com braços e pernas. Tudo indicava que nosso encontro havia sido providenciado pelo cosmos e que daríamos vários frutos. A confiança que depositei em você era tão grande que eu nem poderia medir.

O tempo foi passando e o entusiasmo do encontro diminuindo. A parceria não era mais das mais fortes. A troca mais parecia uma via de mão única. Deveria estar lá, inteira, de braços abertos, com as palavras certas pra te dizer, disposta a ser quem você quisesse. Enquanto o vazio voltava a gritar no peito, não o escutava pela surdez da escolha. Me negava o direito de estar insatisfeita, já que parecia ser tão útil quando estava por perto.

Dias. Meses. Anos. Uma vez, duas ou três. A história se repetiu. A felicidade era um trem que eu nunca conseguia embarcar sozinha. Precisava de outras presenças para apenas existir. Quando me encontrava sozinha, o vazio reinava por onde passasse. Precisava ser útil. Queriam que eu o fosse. Eu aceitava estar lá por quem não estava aqui. A relação era de troca para quem? Para eles.

Não havia mais o que doar. Era inútil buscar em mim novas habilidades que atendessem à vontade alheia. O meu vazio já era tão grande que a dor era sozinha ou acompanhada. O desejo de ser amada foi substituído pela mesquinharia de ser útil. É muito fácil “amar” quem não perde utilidade para nós. E o vazio só pode ser preenchido por amor de fato, sem aspas. Quando não me encaixava nessa tal utilidade, o que parecia um grande amor, se transformou em raiva, lágrimas e dor.

Era difícil compreender o que leva alguém a se permitir viver nesse tipo de prisão a céu aberto. A busca era para preencher uma lacuna e acabou a aprofundando ainda mais. O motivo desconhecido se ausentava naquela atmosfera serviçal. E amor não invade assim, amor vai até o limite onde pode fazer bem. Servir extrapola qualquer limite. Pequei, sim, em deixar a porta aberta demais. Pequei em não me respeitar e deixar que também não me respeitassem. Cada um é dono de si e, quando deixamos de ser, há quem queira tomar as rédeas por nós. Enquanto a culpa pesava a alma, já era hora de abandonar essas histórias, sem mais repetições. Quando algo parecido bate a porta, sente-se o cheiro dessas relações nada saudáveis. É hora de ir embora pra onde o amor é razão para ficar.

Desculpem-me, mas chegou minha ansiada hora de partir. Aqui não volto, pois não me adéquo a caprichos alheios mais. Não sou o suficiente pra você, pra ele ou pra ela. Pego essa inutilidade e a coloco no bolso, pego o primeiro trem para onde o amor seja motivo de celebração e partilha. Vou para onde os olhares sejam trocados com intensidade e onde não se abaixa a cabeça. Despeço-me dessa rotina de abraços sem amor, pois não há mais vazio que seja motivo para ficar. Só encontro morada onde vejo a placa “é proibido não transbordar!”.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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