brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Ensaio sobre ser

“Sem se preparar para a possibilidade de fazer escolhas erradas, é difícil haver uma forma de perseverar na busca da escolha certa.”
Zygmunt Bauman


DSC_6556.JPGFoto: acervo pessoal

Amanhã. Ontem. Amanhã. Ontem. Um relógio interno que não para. Tic tac. Em um milésimo de segundo já voltamos ao passado e já pulamos para o futuro, difícil não se perder nessa viagem no tempo. O presente passa batido enquanto pensamos no que fomos ou no que seremos. Um segundo já foi e o perdemos por estar nessa dança constante passado-futuro. Não aceitamos nossos erros e planejamos um futuro de perfeição. Será que conhecemos quem somos ou estamos adormecidos pelas máscaras as quais criamos?

A estrada é longa e poderia ser um tanto mais simples. Focamos naquele detalhe onde nos equivocamos e esquecemos-nos de conhecer e reconhecer tudo o que carregamos dentro do peito. Quantas vezes você já se perguntou “quem sou?” Quantas vezes escutamos essa pergunta e dizemos nosso nome, número de documento, profissão, menos quem realmente somos. E a pergunta fica ali pairando todos os cantos de vida enquanto não sabemos respondê-la. E ansiando o futuro e revivendo o passado, fica um pouco mais difícil encontrar a solução desse assombroso problema.

Sabe tudo o que nos é dito ao longo da vida sobre o que deve ou não ser realizado? Esqueça o máximo que puder. Sem se desconstruir as chances desse encontro interior são bem pequenas. A gente vive em um mundo de regras. Sim, mais parece um jogo, onde somos contemplados a cada regrinha cumprida. A união delas é praticamente o início da máscara que vamos criando ao longo da vida. Junte a isso alguns medos não resolvidos, algumas vontades sufocadas e voilà, máscara pronta. Começamos a viver uma vida para outrem e nada para nós. Não, não é caso de um ou outro. A maioria de nós está à mercê do sistema que nos rege e bem longe da vida que realmente apreciaria viver. Não questionamos. Não discutimos. Apenas seguimos o padrão sem nos perguntar: “onde estou em todo esse universo?”.

Enquanto a pergunta permanece oculta, nossa verdade também está bem distante de se apresentar. Nascemos com um manual a cumprir, com um sucesso específico para buscar e uma estabilidade totalmente fictícia para ter como prioridade. Conquistas pessoais acabam virando satisfação de nossa vida ao outro e não uma vontade própria realizada. É um plano desastroso de vida, todavia é a cartilha que adquirimos sem ao menos saber do que se trata. Por que será que o mundo parece cada vez mais de ponta a cabeça? Cria-se assim uma brecha, um grito de socorro de nosso próprio ser. Quanto mais longe estamos de quem somos, mais confusão se cria a nossa volta, essa que repercute e atinge tantos outros corações confusos. E adoecemos, pois não conhecemos e menos ainda entendemos tudo que se passa dentro de nós. Aceitar o que somos se transforma, neste quadro, numa realidade um tanto distante.

Chegou o tempo de escolher a si. Esse tempo é hoje, é agora. Precisamos cessar a viagem passado-futuro e olhar pra dentro, lá encontramos as respostas. Lá veremos tudo que precisamos aceitar, até o que queremos melhorar. Sem pressa, sem ânsias, sem loucuras. A gente só cresce de verdade com amor e quando nos conhecemos o amor é inevitável. Quando aceitamos cada ponto e vírgula de quem somos e de nossa história, a vida flui melhor. E não apenas pra nós e em todos que impactamos. É uma reação em cadeia que pode ajudar tanto esse mundo um pouco menos dessa loucura atual.

E esqueça essa mania de perfeição, ela atrapalha bastante que você enxergue todas as maravilhas e a potencializar esses defeitinhos que o tornam tão você! E esqueça a perfeição mais uma vez, pois esse encontro não vai livrar ninguém de problemas e das dores do mundo, ele apenas fará com que você saiba tanto de si a ponto de lidar melhor com cada pedaço da estrada: os de alegria e os de tristeza. Quando estamos no agora, tudo é mais brando, mais leve, aprendemos a flutuar entre nossos erros e acertos. Aprendemos a hora do sim e a hora do não. Conhecemos finalmente o limite entre se doar e se perder, marcamos saudavelmente nosso espaço e o do outro. Reconhecemos toda beleza que possuímos e valorizamos quem somos. Encaramos melhor essa existência e entendemos que dentro de nós “vai permanentemente haver, uma dança do medo com a esperança” (como canta Tó Brandileone). Ontem não se pode mudar, mas hoje podemos viver melhor. Escolha você. Esteja presente. E o novo tic tac será: hoje...hoje...hoje...e dançaremos sem mais pré-ocupações.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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