brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Entre partidas, inícios e fins

Vivemos em ciclos. Todo dia é um início, um fim, um recomeço, talvez. Mas mudanças não são fáceis e nossa forma de ver o novo é por vezes ingrata. Não respeitamos que a vida tem suas diversas estações e queremos só os dias floridos. Não seria melhor viver um dia de cada vez, com suas devidas alegrias e tristezas?


Thumbnail image for DSC_0297_.jpgfoto: da autora

Vivemos em ciclos, cada dia é um dia. Todos acabam as 23:59. Todos os dias nós lidamos com fins e não concebemos o quanto os inícios e fins oscilam em nosso cotidiano. Inícios, fins, recomeços, tropeços, histórias que acabam, histórias que se iniciam. A todo momento nascemos e morremos. E ainda sabemos tão pouco lidar com os fins, tanto lutamos logo pelo prazer do recomeço sem saber que este mesmo já está ali nascendo. Lutamos para não sofrer os fins, sem saber que adiar dores as prolonga. O fim é natural, por que demoramos tanto a aceitá-lo?

Passamos anos sofrendo por fins de relacionamentos, mesmo quando está claro que vivíamos em um capítulo não tão feliz de nossa história. Tornamos as dores das partidas por muitas vezes mais torturantes do que realmente são. Queremos o novo e muitas vezes não abrimos mão do que já não nos pertence mais. Amamos inícios, mas não queremos os fins. Sempre gostei muito de uma música do Semisonic com a fatídica frase “Every new beginning comes from some other beginning’s end”(todo novo começo vem do fim de outro começo). E é isso! Seguem assim nossos dias, entre novos começos e fins.

Somos lembrados constantemente do caráter duplo do tempo: esse oscilar entre ser eterno e e efêmero. Quantos momentos de plenitude nos fazem viver a eternidade daquele instante e se faz morada em nós. Em contrapartida, outras situações nos fazem sentir apequenados perante sua avassaladora efemeridade. Acidentes, doenças, partidas. Nunca estamos prontos para lidar com a finitude: de um corpo, de um bom momento, de uma história.

O finito nos assombra. Lidar com a ideia de que nosso corpo além de limites tem um fim. Não aprendemos a nos despedir. Não aprendemos a ter mais gratidão pelas vidas compartilhadas do que sofrimento pelos que vão. Todo fim dói, mas a dor não pode tirar a beleza de tudo que foi vivido. Nos punimos a não visitar a memória, por medo de sofrer. Deixamos de passear pelas praias e montanhas mais belas por nos levarem a algum lugar dentro de nós. Nos negamos conviver com o que deixaram em nós aqueles que partiram pela equivocada visão que temos do fim: ele é um vilão.

Perdemos tanta beleza quando somos pequenos. Os fins não são fáceis e também na deixam de ser contornos da nossa história. Merecemos lembrar tudo que vivemos sem dor. Devemos acessar qualquer fase do nosso livro da vida com coração transbordando amor. Os fins que vivemos são parte do que somos. Os fins são tão importantes quanto os inícios.

De tudo o que o vento traz Quase nada permanece Permanente vem e vai Coisas sempre morrem, nascem (Vem e Vai – 5 a seco)

E assim a vida segue, permanente mudança, crescimento, inícios e fins. Cada instante, cada ciclo, com sua devida beleza. Cada momento deixando de ser presente pra ser memória, daquelas que vamos lembrar daqui há 20, 30, 40 anos. Memórias que transbordam muitas vezes do coração pros olhos, porém com uma alegria sem tamanho. Memórias que são nossa história, nossa caminhada, tudo que tivemos o prazer de partilhar com quem passou pela vida. Todas as idas e vindas, todos os caminhos tortos e os certos. Tudo que foi efêmero para o tempo e eternos em nós. Ciclos, partidas, inícios e fins.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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