brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Esconderijos modernos

Entre bolhas e muros altos, estamos nós. Talvez com medo, arredios, inseguros, se protegendo de tudo e todos. Será que a solução mora nesse isolamento ou estamos tomando a direção completamente errada?


DSC_8432.JPG Foto: da autora

Uma bolha. Ou melhor, várias bolhas. Desta forma a sociedade vai se tornando cada vez mais líquida, já dizia Bauman. Liquidez essa que nos separa em bolhas que nos levam para cada vez mais longe daquilo que parece ser uma forma difícil de relacionar-se. Nos afastamos de tudo que nos faria praticar a tolerância, tudo que faz nos faz celebrar as divergências e unidade de cada ser humano. Criamos muros que nos afastam daqueles que tem outros pontos de vista, outras formas de vida, outras culturas. Parece que o estigma deixado por Hitler e sua raça ariana vive forte em um mundo onde refugiados são rejeitados ao pedir asilo e marginalizados quando adentram novos Estados.

Estamos divididos, nosso convívio é limitado. Cada dia mais construímos locais “seguros” para viver longe do outro. Nos protegemos sem refletir na agressão dessa separação do outro. Protegemos-nos do todo e esquecemos que somos nosso pior inimigo. Do lado de lá, assim como cá, cresce o ódio, a intolerância, o julgamento àquilo que não se compreende. A doença cresce e ninguém está seguro nos altos muros criados. Não pode haver segurança quando a ferida violenta está de fato em nós e não há como construir um forte que nos proteja de nossas próprias dores.

Em “Amor Líquido”, Zygmunt Bauman cita a reflexão de Kant sobre como a forma esférica do planeta nos levaria a uma natural hospitalidade entre nós. O que evidencia que estamos cada vez mais na contramão. Estados cada vez mais fortes afugentando quem não nasceu em seu berço, preferindo deixar ao relento a acolher. Conflitos crescendo onde os Estados já chegaram ao extremo da intolerância. Nos separamos. Nos oprimimos. Nos limitamos ao medo e esquecemos nossa humanidade e como deveria ser natural o encontro, a troca e o convívio entre as mais diversas etnias.

Esse grande gesso que nos deixa estáticos está cada dia mais entranhado em nossa sociedade, vem se enraizando até nas tão globais redes sociais. Parece uma boa ideia algoritmos decidirem o que lhe é interessante ver ou deixar de ver? Será que se é para algo ser filtrado, não seríamos nós aquele com a escolha do filtro a ser usado? Bom, vivemos um Facebook e um Instagram que “pensam” por nós e nos mostram o que para eles nos convém. Uma pré seleção do que devemos ver. Um pré seleção que exclui claramente incontáveis páginas que mostramos interesse. Uma pré seleção que quase tira o sentido do instagram, pois já que “seguimos” pessoas/coisas, isso já seria o requisito básico pra estar interessado, correto? O importante é diminuir cada vez mais a bolha onde estamos inseridos.

Todo esse caminho de separação é antinatural, não condiz com o percurso natural de amor do ser humano. Quanto melhor estamos, melhor vivemos juntos. Quanto mais nos cuidamos, mais estendemos a mão. Quanto mais olhamos pra nós, melhor tornamos tudo a nossa volta. A convivência é fluida, é natural querer bem o outro. É natural saber o espaço que é nosso e o espaço que pertence ao outro. Não precisamos de bolhas para nos proteger, precisamos conhecer mais o que se passa dentro de nós para não atingir/ferir o outro, causando neles algum tipo de reação. Quando nos cuidamos, paramos de reagir. Quando a gente muda, a gente é exemplo por outro sim. E é disso que precisamos, uma olhar mais delicado com a gente. Menos distância. Menos separação. Que a gente fuja dessa bolha que tanto nos empurram. Que vejamos o mundo apenas como essa grande e linda vizinhança que ele é.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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