brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Notas de uma saudade

Algumas saudades são sem tamanho. Essas são aquelas que vivem fervorosamente dentro de nós. Essa é uma carta contando uma vida que acontece enquanto essa saudade pulsa. Um pai que se foi e é presente por ser amor. E notícias daqui damos para esse mundo de lá.


DSC_0018pb.jpg Foto: da autora

É, meu pai, tanta coisa aconteceu desde que você se foi. Tanta coisa eu queria te contar. Algumas talvez eu até tenha um pouco de vergonha, mas sei seu coração grande me ouviria com todo o cuidado e sem censuras. Fico imaginando o quanto você ficaria chateado com algumas pedras que surgiram pelo caminho e se surpreenderia ao ver como saí delas. Pai, eu cresci. Sua caçulinha é do time das balzaquianas. E eu peguei caminhos diferentes daqueles que achava serem os caminhos certos, há quase 8 anos atrás. A vida tem disso, não é? O bom que cada escolha nos gera aprendizados sobre a vida e sobre nós mesmos. Sim, eu sei que você falaria “meu Deus, minha filha, de onde você tirou essa ideia?” e ao mesmo tempo curtiria cada mudança como mamãe aprendeu a curtir. Para início de história coloquei mochila nas costas e quis conhecer um pouco do mundo (ainda há muito o que conhecer) e estar longe da rotina para repensar minha vida e vivo a cada respirar a beleza das escolhas que fiz desde então.

Vamos começar do começo. Aquele cara que você comentou “pelo menos esse não tem cara de maluco?” foi mais uma história dessas com fim. Ele me ajudou muito quando você partiu, afinal perder meu amigão me deixou sem chão, mas a gente não tinha lá muitas afinidades. Aprendi com a vida que essa história de os opostos se atraem é uma grande balela. Não, ainda não encontrei ninguém que me fizesse ter aquela certeza que só os amantes (lê-se aqueles que amam) têm, mas hoje isso ocupa outro patamar em minha vida, sei que o único endereço e número de identidade que a felicidade possui são os meus e sigo amando a vida e sorrindo pra ela.

Me formei, gostei da faculdade, de tudo que ela me trouxe, mas viver confinada em escritórios não foi uma boa pedida para mim. Fui ficando infeliz e precisei buscar algo mais visceral, sabe? Sempre quis fazer algo que tivesse valor, em que pudesse tocar vidas com meu trabalho, nada grandioso, mas um feedback sincero. E nesse período acabei comprando uma câmera fotográfica mais bacana, pois a vontade de aprender a fotografar já me pertencia há tempos e parei de adiar essa vontade. Daí fiz um curso e a coisa foi ficando séria. Ah, antes de aprender a fotografar, me aventurei com a minha câmera nas ruínas de Machu Picchu. Ai, pai...incrível lá sabe? Pensei muito em você lá, parecia estar em um santuário, pertinho de Deus. E lá tudo começou, a vida não seria mais a mesma sem fotografia e sem viagens. Tem muito mundo pra conhecer, sabe? E depois de me planejar devidamente, no ano seguinte pedi demissão e fui pensar na vida, mas viajando, claro!

Enquanto planejava minha viagem por aí e pra dentro, conheci uma amiga em um curso de meditação que estava com a mesma ideia e acabou que o meu roteiro virou o dela e viajamos juntas. Ambas estávamos nessa mesma fase de “o que vim fazer nesse mundo, que não foi a passeio?” e nos ajudamos muito no começo dessa estrada. Em 3 meses e alguns países, vi que a fotografia era uma parte desse propósito de vida que eu buscava. Não havia mais como protelar isso. Pai, como eu cresci nesses dias! Eu aprendi tanto, conheci tanta gente boa, tantos corações lindos! Sem a televisão e menos ligada na mídia o mundo fica bem mais bonito. As pessoas são dispostas, ajudam, é muito bacana ver o mundo acontecendo além das notícias. Não é perfeito, mas é bem mais repleto de amor do que parece.

Lembrei muito de você na Itália. Imaginava suas gargalhadas, em cada cantinho de lá você reconheceria sua esposa. Pra lá levei sua primogênita também, a gente se identificava tanto! Me senti dentro de um livro de história em boa parte das cidades que passei. E fui fotografando e aprendendo, descobrindo e revelando o meu olhar. Quando voltei, mandei alguns currículos, mas rezava para não ser chamada. Viajei mais um pouco, cheguei pertinho da sua terra (em breve irei lá). Tomei a decisão de estudar mais fotografia e me “assumir” como fotógrafa.

Isso mesmo, agora sou fotógrafa. Não adianta fugir das artes, elas me chamam. Ainda tenho muito o que aprender e mas já gosto muito dos trabalhos que faço. Não canso de querer saber mais e mais. Só fico um pouco triste de não ter descoberto esse caminho antes. Eu sei que você não gostava muito de estar em fotos, mas eu sempre dei um jeito de te fotografar. E assim faria um ensaio você, mamãe e o fusca. Mas tudo tem sua hora e darei meu jeito de eternizar esse amor que me gerou, porque vocês sempre serão a maior inspiração da minha vida.

Lembra que eu sempre gostei de brincar com as letras como você? Então, comecei a dividir com as pessoas o que escrevo e tem sido tão legal, sabe? É bom saber quando um coração é tocado por aquilo que você escreveu com o seu. Afinal, vi que escrever também faz parte desse propósito que eu tanto venho buscando. Puxei você e vou tentar escrever um livro viu? Você plantou árvore e eu escreverei um livro.

E tem sido assim. Eu ainda quero conhecer o mundo todo, só pra deixar claro. Mamãe vive dizendo que não sabe a quem eu puxei, mas recentemente fomos visitar sua filha “gringa” e ela adorou a experiência e quer viajar mais. Agora é ela “que me puxou”, tá vendo? Quem diria não é? Ela tá cada dia mais maravilhosa do que já era. Toda independente, conectada, com um brilho nos olhos de dar gosto. Eu lhe prometi que cuidaríamos bem dela e não falhamos.

Ah, vendemos o fusquinha. Achamos melhor passar para alguém que fosse cuidar bem dele. Infelizmente, nunca consegui dirigi-lo, acredito que só com você do lado conseguiria tal proeza. Pra gente não ficar com tanta saudade, vendemos para um vizinho aqui do apê novo (como você amaria viver aqui!). Ah, deixei meus cachos voltarem e me perguntei por que raios passei dez anos negando parte da minha identidade. Nossa, é muita coisa pra te contar!

Esses anos sem você passaram rápido, pai. Ao mesmo tempo sinto você aqui como se fosse ontem sua partida. Eu fiz 30 anos. Isso mesmo 30 A-N O-S! Sua caçulinha! Melhor nem lembrar a idade das outras (brincadeirinha). E mesmo assim, o sentimento é que a vida tá só começando, com muito amor e lindeza vindo pela estrada afora. Você teria orgulho de mim. Riria das minhas sadias loucuras, são apenas vontade de viver e bem. Saudade, pai. Muita saudade! Você sempre será meu melhor amigo e contarei suas histórias até meu último dia de vida. Nunca esquecerei nem seu rosto nem sua voz. Talvez você saiba de tudo o que lhe contei e mesmo assim amei lhe contar. O mais engraçado? Sei que você está aí com aquele discurso de “pra mim você sempre será uma criança, minha filha.” E sou mesmo. Sempre serei aquela pequenina que vocês tanto encheram de amor. Obrigada por tudo. Te amo e até qualquer hora dessas, paizão.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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