brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Ode ao diálogo

Um bom papo é imprescindível. Um bom papo é prazeroso. Um bom papo é uma das formas mais gostosas de compartilhar a vida com outrem. E o que aconteceu para que os diálogos tenham se tornado tão vazios e superficiais? Será que ainda é possível se aprofundar em tempos de relacionamentos rasos?


DSC_8774.jpgFoto: da própria autora

Diálogos vazios. Conversas mais breves que a velocidade da luz. Tudo muito raso. Aprofundar-se virou pecado mortal. Talvez seja medo de sabe-se lá o que, parece que hoje só é possível deleitar-se na presença do outro quando se quer algo mais. Ou nem assim. Há quem faça planos de um futuro juntos sem construir um presente, com conversas que não passam de “bom dia, tudo bem, manda nudes, quanto te vejo?” e fim. Não há porque saber das dores e alegrias da vida do outro, se interessar em dividir o dia ou uma história curiosa vivida. Abrir a vida para outrem tornou-se antinatural, mesmo quando esse ser lhe causa interesse. Não fazemos mais amigos? Não ouvimos mais? Não é mais interessante encantar e ser encantado, nem por um dia?

Perguntas sem respostas. Parece que nós perdemos o traquejo. Relacionar-se está fora da nossa alçada. Vê-se até casais com essa distância inadequada. Não sabemos abrir a porta da nossa história, não sabemos ouvir, evitamos dialogar. É mais fácil manter um hiato, é muito arriscado adentrar a vida de quem está ali trocando beijos com você, afinal pode parecer que gostaríamos de ficar por ali não é? Ok, onde está o problema nisso? Em lugar algum. Um bom papo é essencial. Um bom papo não é um pedido de casamento, mas também não há casamento que sobreviva sem aquela troca prazerosa de palavras faladas e ouvidas.

Conhecer alguém é tão bom que essa frieza ao relacionar-se é pavorosa! Essa mania de estar só mesmo acompanhado me parece loucura. Pra mim não existe encanto sem papo, sem troca, sem ter certeza que aquela pessoa está ali querendo saber tanto de mim quanto eu dela. Caminhadas, telefonemas, qualquer desculpa pra papear e descobrir um novo universo estão fora de moda. Uma pena, já que ser ouvido é como abrir a porta de casa para que se sintam a vontade. É troca. É leveza. É mergulhar no desconhecido. É poder tirar a máscara do superficial e deixar-se ser. Conversas leves devem estar próximas da extinção. São tantas barreiras criadas, afastando o outro e transformando a vida naquela má solidão, aquela que nos isola. Não trocamos. Não mergulhamos. Não caminhamos por estradas desconhecidas. Nos apegamos e esquecemos de amar, afinal não há de brotar amor no que é raso. E amor não precisa ser romântico. Amor é muito mais. É admiração, partilha, confiança, companheirismo e por aí vai. Somos amor em essência e nossas relações rasas negam essa linda natureza.

A vida é muito curta pra ser vivida mascarada, para perder oportunidade de ser uma alma livre ao lado de outra alma livre. Sejamos leves, falemos até a garganta secar. Que os ouvidos sejam verdadeiramente atentos. Que fique claro que a fuga é muito mais dolorosa do que a entrega. De nada adianta pensar que na entrega possamos nos machucar. O isolamento fere muito mais. A dor vivida passa. A dor do não vivido persiste, incomoda, vocifera em nós. Negar nossas vontades é sempre a pior escolha. A gente gosta de diálogo, de rir até a barriga doer, de encontrar pelo caminho quem divida as lágrimas e se despir de julgamentos.

A gente gosta de quem se entrega. A gente gosta de se entregar. Só que no meio do caminho criamos o medo, essa resistência à dor que nos gera mais sofrimento do que nos poupa. O medo cresce e nos esvazia, para nossas pernas, fecha nossas bocas, distancia nossos corpos. É tudo casualidade e o casual tem data marcada para sumir, um prazo de duração de uma bomba que deve explodir rapidamente. Será que ainda há tempo de vencer os medos, de encarar um a um? Precisamos nos mover antes que nossa comunicação fique mais escassa, nossos relacionamentos mais efêmeros e nossa isolamento se torne um monstro forte e indestrutível. Juntos somos muitos mais do que sozinhos.

Que possamos trocar o medo por um frio na barriga, daqueles que faz a vontade de continuar crescer. Que tudo seja aventura e não problema. Antinatural é nos fecharmos em um casulo onde nem a luz do sol consegue nos aquecer, não estamos aqui para apenas existir. Que o medo não nos pare. Que a gente saiba aproveitar cada oportunidade de dar e receber amor. E que seguir seja sempre a melhor opção e que o caminho seja cheio de boas conversas, entregas e vida de fato vivida.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório(e a Arquivologia) para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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