brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Solidão assistida

A tecnologia tem inúmeros benefícios. Porém, ela tem o mesmo poder de nos unir e nos separar. Assim como um aplicativo de conversas pode deixar próximas pessoas a quilômetros de distância, o mesmo também pode distanciar quem está logo ali ao nosso lado. A conexão full time desconectou muita gente tanto de si, quanto de quem importa. Até que ponto a tecnologia tem sido menos amiga nossa do que deveria?


DSC_7770.JPG Foto:Ellen Pederçane

O mundo anda conectado, somos da era da globalização e do excesso de informação. Temos na palma da mão um “encurtador” de distâncias, é tão fácil estar perto mesmo longe. Assim deveria ser e não é o que vemos na prática. Vemos pessoas rodeadas por conversas em aplicativos e uma solidão imensurável. Vemos pessoas querendo conhecer gente por aplicativos e num bar já não sabem flertar. Encontros de amigos em que o celular deveria ficar guardado na bolsa, mas ganha um bom espaço na mesa. Casais que estão juntos para não ficarem sozinhos. Parece que quanto mais formas de aproximação há, mais longe ficamos.

Um bando de relacionamentos vazios, enquanto a gente precisa mergulhar cada vez mais fundo. Amor se confunde com posse, relações se constroem baseadas na carência dos indivíduos, laços que deveriam ser de amor se tornam rédeas no dia a dia. Jogos e artimanhas ocupam lugar da lealdade e companheirismo. Parece que a modernidade nos adoece, nos petrifica. Namoros que não podem acabar por uma das partes não aceitar a ida do outro, amizades possessivas abusando da boa vontade, pais que não sabem mais serem presentes na vida dos filhos, é a loucura da falta de tempo, da correria, tudo é efêmero e nada profundo.

Estamos todos com milhares de amigos em redes sociais e sozinhos quando mais precisamos. Já diz Bauman, são tempos de amor líquido, são tempos de sentimentos rasos. Talvez seja uma forma de encontrar o caminho da alma. Talvez seja preciso chegar no limite do desencontro para se encontrar. Enquanto alguns vivem quebrando a cabeça nos mergulhos rasos, alguns já acordaram para a necessidade de águas mais profundas. Parece que a modernidade tem cura ou ao menos não contaminou a todos com essa solidão assistida. Essa solidão que nos ausenta de nós, que nos ausenta da verdade, do amor puro, de relações saudáveis. Que nos tira do controle da própria vida, onde nada que desejamos pode ser feito. Ficamos refém das obrigações, refém dos medos, refém das curtidas nas fotos, reféns da cyber vida, refém das máscaras, refém de falta de coragem. A mediocridade moderna nos engole (ou tenta) a cada oportunidade que tem, a cada sonho que desistimos, a cada rumo que tomamos sabendo que não é a melhor estrada. Além de assistida, a solidão é acompanhada. Estamos num mesmo barco sem poder contar com o ombro ao lado.

Temos tempo. E esse tempo é agora, é onde a mágica acontece. É só largar os vícios que o “bem estar” global nos impôs. Somos indivíduos únicos e queremos/devemos dividir essa beleza de ser o que se é. De mergulhar fundo e saber que voltaremos melhor à superfície. Podemos estar juntos sem estar sós. Podemos ter companhia e atenção de verdade. Podemos permanecer ao lado de quem admiramos fora das redes. Podemos contar e compartilhar com pessoas mais de carne osso e menos virtuais. Podemos flertar no bar, na praia, no ônibus. Não precisamos desse pouco que nos dizem ser permitido. Sejamos olho no olho. Sejamos pele e coração. Sejamos inteiros. Sejamos profundos. Que a tecnologia seja nossa aliada e não quem nos faz refém. Que ela facilite os encontros e dê espaço ao AGORA bem vivido. Que a solidão não nos pegue nem nos momentos a sós.


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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