brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Tempo de mudanças

As mudanças são passos naturais da estrada. Porém boa parte de nós passa mais tempo lutando contra nossa natureza inconstante do que se deleitando no que há de novo. E acabamos transformando tantos momentos importantes em pesadelos descabidos.Tudo muda. Por que lutamos contra o inevitável?


20170124_115027.jpg Foto: da autora

Tudo muda. A inconstância faz parte de nossa existência. A natureza muda a todo o tempo. Nós mudamos a todo o tempo. A vida é uma constante transformação. Em contraponto, vivemos em uma sociedade que busca a estabilidade. Seu trabalho/carreira deve ser estável. Sua vida afetiva deve ser estável. E essa loucura contraditória nos deixa mais perdidos do que “achados”: ser bem sucedido significa viver na constância da estabilidade. Como isso é possível?

Não há o que responder. A estabilidade é uma regra que nos é ditada desde muito cedo. Nossas buscas estão sempre pautadas na estabilidade. “Qual faculdade fazer? Como está o mercado?” E começam aí nossos brigas internas. A vida vira aquele “estudar, graduar, estar bem empregado, viver um bom relacionamento, comprar uma casa, casar, filhos”. Ufa! Tudo na perfeita estabilidade, claro! Afinal, a vida é igual pra todo mundo, certo? Somos tão distintos, mas nos dizem muito cedo os passos que devemos seguir. Que ironia! Criaram a receita do sucesso e ela não nos atende.

Somos muito mais versáteis do que acreditamos. Nos limitamos na crença da constância. Sofremos por esse desencaixe, por não cumprir essa regra. Não sabemos lidar com as mudanças pois criamos um muro. Nos perdemos dentro desse limite que nos foi imposto. Nos perdemos por não aceitar a realidade das mudanças. Nos culpamos por ser a metamorfose ambulante como já cantava Raul. Nos culpamos por não mais [necessariamente nessa ordem] sonharmos com a nossa casa, enquanto em muitos casos preferimos devorar o mundo, explorar, viver outras experiências. Nos culpamos quando aos 30, aos 40 ou aos 50, queremos mudar nosso rumo. A vida já deveria estar ali construída tijolo por tijolo, faltando tão pouco para a perfeição. Essa mesma culpa torna nossa instabilidade uma doença. E cada necessidade de transformação, se torna um desafio que não é vivido como aventura. Sofremos ao invés de aproveitar cada mudança.

Criamos obstáculos, nos sabotamos. Mudar vai de encontro com a nossa proclamada estabilidade. Em tudo na vida precisamos alcançar esse lugar que nos priva de nós mesmos. Precisamos de [muita] terapia para lidar com a nossa própria natureza humana. Nosso crescimento, nossa transformação, nosso florescer. Somos nossa maior barreira. Criamos outras mais que ditam regras. Essas com as quais não conseguimos viver felizes. Regras que por tantas vezes são cumpridas no automático. Regras que não concordamos, mas nos cobramos vivê-las.

Perante outros fatores, somos uma sociedade que adoece por não viver o que quer. Sofremos de culpa por não nos encaixarmos nessa vida programada. Bloqueamos nossas próprias transformações pelo caráter “instável” delas. A vida muda. A natureza muda. E nós criamos "leis" que condenam tais mudanças. E desaprendemos a passar por essas etapas, nos acomodamos na lama para não sair do lugar comum.

Que ainda haja tempo de aceitar a nossa natureza. Que ainda haja tempo de aprender a amar cada transformação. Que tenhamos saúde para viver de forma plena cada uma delas. Que nossa vida não seja apenas sombra, que seja sempre bem vivida. O poeta já diz: “prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Ellen Pederçane