brincando com letras

Sobre ver o mundo com um pouco mais de poesia

Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir.

Vidas invisíveis

"[...] nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para ver os sonhos. O que acontece, meu filho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros? sim, esses que nos acenam da outra margem. E assim lhes causamos uma total tristeza. Eu levo-lhe lá nos pântanos para que você aprenda a ver. Não posso ser o último a ser visitado pelos panos."

Nas Águas do Tempo - Mia Couto


DSC_0736.jpgFoto: da autora

Gritos inaudíveis. Pedidos de socorro sem forma. Não vemos e não ouvimos. Muitos são aqueles que passam despercebidos no meio da multidão. Muitos são aqueles que tanto precisam de uma mão amiga e mal conseguem um olhar. Eles estão à margem da sociedade. Eles não se enquadram nas notícias vendáveis do jornalismo mercantil. Eles não se enquadram no que pode ser importante porque não é interessante conhecê-los. Eles são invisíveis. A dor deles não é relevante, é como se não fossem nem dignos de compaixão. É miséria o que eles vivem e ainda mais miséria é o que sentimos. É desumano simplesmente escolher não olhar para o que não convém.

Tragédias mundo afora ignoradas pelos holofotes, ignoradas por quem não quis saber mais profundamente uma notícia, por quem não se interessa pelo local e logo também não por todas as vidas que lá sofrem. Recentemente, vimos um ataque terrorista na Somália passar despercebido por muitos, uma tragédia com tantos mortos e tão pouca repercussão. E a maior tragédia ainda é esse coração frio instalado no centro da humanidade, coração que tem a capacidade de selecionar a quem se compadece. Alguns países não existem para o Ocidente, nações mergulhadas no esquecimento, invisíveis perante a uma egoísta e mesquinha parte da população.

Insensibilidade que sempre começa nas minorias. Insensibilidade que torna tão distante povos tão semelhantes. Insensibilidade das mais cruéis, de onde nasce o preconceito, a intolerância, onde nasce...a barbárie. Todo um universo o qual escolhemos não enxergar, não sentir, ignorar. Pessoas como nós, porém seu martírio não merece nossa atenção. Não mais os vemos e muito menos os ouvimos. Em meio a tanto despeito e esquecimento torna-se impossível ser visível.

Compaixão seletiva. Humanidade perdendo sua própria capacidade de olhar para o lado. Às vezes parece que nos perdemos na estrada da vida. Esquecemos de por um minuto se colocar ali no lugar do outro, vestir a pele que não é nossa, sentir do ao ver a dor do outro. É um lugar de menos crítica e mais coração aberto. Apenas precisamos ter vontade de olhar o outro de verdade, em totalidade.

Um olhar é tão poderoso quando contém amor. Um olhar atento por ter a dimensão de um abraço. Um olhar pode devolver a quem precisa a coragem que pensava não ter mais para lutar. Um olhar pode lembrar ao outro que a vida vale a pena por si só. Pense. Repense. Expanda. Com o que você realmente se importa?


Ellen Pederçane

Fotógrafa que largou o escritório para se encontrar. Amo o amor e tudo que ele me traz. Tenho um coração meio nômade, com espaço pro mundo inteiro. Sonho despretensiosamente que minha brincadeira com as letras alcance corações por aí. Respiro para não pirar, medito para melhor sorrir. .
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