Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas.

As redes sociais e os semideuses de Pessoa

Se já há um século atrás, Fernando Pessoa através de Álvaro de Campos escrevia sobre não haver gente no mundo, o que teria o poeta a dizer agora, se usasse as redes sociais? Hipoteticamente.
Será o exibicionismo da proeza e a supressão da falha, uma condição eterna do ser humano e que as novas tecnologias vieram amplificar?


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"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?"

Todos estamos bastantes familiarizados com o poema que aprendemos na escola, ou naquele grupo de teatro amador. Todos nós entendemos o poema, e mesmo assim, não conseguimos descer da condição de semideuses. Se há algo em que o ser humano não é bom é em dar parte de fraco. E cada vez mais nos afastamos dessa já rara característica e sacamos do orgulho próprio como topo das prioridades.

O marketing invadiu de tal maneira as nossas vidas, que começamos a investir no nosso próprio marketing pessoal, como se cada um de nós fosse uma marca registada a passear-se por aí. A pergunta que se impõe é: quem nos vai querer comprar, se todos andamos apenas a vender?

Os nossos telefones e computadores tornaram-se em janelas abertas para o mundo, pelas quais podemos espreitar o que quisermos a qualquer hora do dia. O que fariam os grandes génios de outros tempos se tivessem tido acesso a tanta informação como nós temos? Passariam o seu tempo a postar selfies? Isso seria sim difícil de explicar a quem teve um conhecimento limitado do mundo mas uma curiosidade sobre ele avassaladora.

Hoje não somos curiosos. Fechámos as janelas para o mundo e abrimo-las para a casa do vizinho ou da prima ou daquele colega de trabalho que nem gostamos assim muito. Chamamos a essas janelas “redes sociais”, um termo discutível. Investimos na imagem que transmitimos a toda a hora do dia. Já não se trata só de aparecer bem vestido naquele evento, apresentar um marido ou uma esposa bem parecidos, ir à Igreja para ser visto todos os domingos. Agora temos nas nossas mãos um instrumento que nos pode fazer ficar bem com menos esforço. E melhor ainda, se essas nossas realidades não existem, então podemos mesmo inventar essas realidades. Nenhum dos nossos “amigos” de rede social entra fisicamente nas nossas casas para saber se é verdade ou não.

Agora sim podemos viver o sonho. Nunca foi tão fácil como agora ser tudo isso: bonitos, bem sucedidos, requisitados, viajados, atléticos, bons cozinheiros, amantes amados. Expliquem-me então, porque é que tantos de nós sofrem de depressão, ansiedade, e solidão?

Será possível que quem sorri para a objectiva do telefone um par de vezes por dia, sorria apenas um par de vezes por dia? A vida é vivida mesmo, e principalmente, quando não é registada. Somos felizes quando a vida é sentida, mais do que (re)criada.

Este tempo em que vivemos, é em muitos sentidos, fascinante. Temos ao nosso dispor tantos instrumentos e informação para sermos pessoas melhores e mais completas, mas sofremos o choque de não viver mais na ignorância. Essa ignorância que é tantas vezes uma dádiva.

Álvaro de Campos, aqui eu humana me confesso, nunca fui campeã em nada nesta vida. Mas vil já fui muitas vezes.


Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas..
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