Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas.

Há que começar de novo, outra vez

Quantas vezes posso começar de novo? As vezes que eu quiser.
Não fomos feitos para calar as decepções, para aguentar tristezas ou assumir compromissos com a eterna desilusão. Cada novo começo é um tiro no escuro, uma exposição a tudo o que pode dar errado, mas também a tudo o quanto pode dar certo.


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Conhece aquela pessoa que fica ali matutando na vida, presa a um emprego, a uma relação ou a uma cidade com que não se identifica? E que fica ali vendo os dias passando, iguais, uns a seguir aos outros, enquanto a paixão pela vida se vai diluindo lentamente? Eu conheço. Conheço várias. Eu compreendo essa pressão que colocamos em cima de nós. Sentimos essa pressão vinda da sociedade. Parece que vamos obedecendo a ordens mudas na nossa cabeça: Mantém a pose! Arranja marido! Fica no emprego que paga mais! Mas a verdade é que só vemos tudo isto numa direcção muito linear, pensamos dentro de uma caixinha. E pennsamos muito. Pensamos muito e agimos pouco, e a caixinha é tão pequena para tantos pensamentos, que acaba por tornar-se sufocante. Experimenta ver as coisas de fora da caixa, o mundo não vai acabar porque essa relação terminou, porque decidiu deixar o emprego, ou porque simplesmente decidiu parar.

Mais fácil pensar que se é para sofrer, mais vale ficarmos pelo sofrimento ao qual já estamos habituados. Prático, não é? Mas não entendemos que a bolha da frustração só vai encher e encher mais ainda. Nunca pode acabar bem. Dê uma oportunidade para essa bolha voltar ao ponto zero. A isso se chama viver. Desiste de tudo, mas nunca desistas de tentar. Confia nas palavras de Samuel Beckett: "Tenta. Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor." O dramaturgo irlandês não podia ter usado palavras mais concisas e acertadas. Nada é eterno, e embora não percamos o que adquirimos, sempre vamos precisar de adquirir algo novo. E não me refiro ao sentido material das coisas.

Quantas vezes posso começar de novo? As vezes que eu quiser. Não fomos feitos para calar as decepções, para aguentar tristezas ou assumir compromissos com a eterna desilusão. Cada novo começo é um tiro no escuro, uma exposição a tudo o que pode dar errado, mas também a tudo o quanto pode dar certo. Quando estamos num caminho que dá errado, o medo que todos os outros caminhos também nos conduzam à desilusão é compreensível, mas não pode ser desculpa para não "sair da casca".

É como aquele livro que vamos arrastando connosco para todo o lado ou que fica a ganhar pó na cabeceira da cama. O livro que insistimos mas nunca acabamos de ler. E enquanto isso, o tempo passa. Poderíamos ter experimentado ler um montão de outros livros, aprendido coisas diferentes, conhecido novas perspectivas, mas não. Insistimos em ficar agarrados àquele que já nem conseguimos ler mais.

Presos a tão semelhante calhamaço, já não basta virar a página, isso é o que tens tantado fazer todas as manhãs. É preciso mudar de estória. Deixa o desencanto bater e vai procurar um novo rumo para se encantar de novo. Larga essa relação tóxica. Deixa essa solidão confortável. Vai lá fazer aquele trabalho que te preenche mais. Vai procurar o teu lugar. Como o nosso saudoso António Variações escreveu e cantou: "Olha que a vida não é nem deve ser como uma castigo que tu terás que viver."

Segue o que te corre nas veias, vai dançar mesmo não sabendo os passos.


Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas..
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