Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas.

O feminismo controverso do FEMEN

Há quem concorde e quem discorde com os propósitos do grupo feminista FEMEN. Não são os ideais que estão em causa, mas a forma de protesto. Os seios descobertos como principal arma de combate contra o abuso e a discriminação sexual.


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A verdade é que o FEMEN é um grupo que pratica feminismo controverso. Se considerarmos que "feminismo" e "controvérsia" não são mais palavras redundantes nos dias de hoje. Quando o feminismo combate a sexualização e eleva as mulheres a assumir papéis relevantes na sociedade e a não ser tratadas como um pedaço de carne, aqui temos um grupo de mulheres, semi-nuas, mostrando corpos perfeitos. Há quem, independentemente de ser mulher ou homem, considere isto irónico. A generalidade das mulheres não se sente representada mas a premissa é fácil de compreender. O objectivo de expôr a nudez do corpo feminino é precisamente dessexualizá-lo, é não ter vergonha, é não temer consequências. O derradeiro estado de liberdade.

O FEMEN foi fundado por um pequeno grupo de mulheres ucranianas para protestar contra o tráfico e o abuso sexual de mulheres do leste europeu. Nos primeiros dois anos de actividade, as activistas protestavam vestidas, e nunca obtiveram a atenção dos meios de comunicação social. Mas elas sabiam que se queriam atrair atenção mediática, teriam que fazer, o que de resto, muitas mulheres do meio artístico têm que fazer também, tirar a roupa. Irónico e curioso.

Mais curioso é ainda ser for verdade o que nos é revelado no documentário de 2013, Ucrânia não é um Bordel. O documentário que conta a história do grupo activista revela que foi um homem que ajudou a fundar o grupo, e que inclusive, foi ele quem teve a ideia do protesto em topless. Assunto bom para fazer piada, pensará meio mundo. Um homem pede a um grupo de feministas para tirar a roupa. E elas assim o fazem. Mesmo que as circunstâncias assim o justificassem, duvido que esta situação espelhe a mensagem do poder feminino.

Há ainda quem vá mais longe e considere que estas mulheres estão apenas a se auto-promover. Claro que em todos os movimentos, existirão sempre indivíduos que se aproveitam da corrente para proveito próprio, e algumas mulheres do FEMEN não serão excepção. Mas por um outro lado, vejo mulheres que desafiam forças políticas e policiais, que participam de uma luta, e que, como vemos na comunicação social, enfrentam o preconceito.

Se queremos lutar contra o abuso (qualquer tipo de abuso, seja psicológico ou físico), contra as mulheres, deveríamos usar o corpo para isso? Sim e não. Sim – é preciso banalizar, salvo seja, a imagem do corpo feminino. Gritar um "Eu estou de pele descoberta e daí? Não estou a pedir nada. Um homem sem camisa também não está a pedir nada, pois não?". E, por outro lado, não – importa realmente é procurar soluções inteligentes, fazer com que as meninas e mulheres de todo o mundo sejam socialmente conscientes e participativas.

Terá este "sextremismo", como as activistas do FEMEN gostam de lhe chamar, algum valor objectivo para o feminismo? Não haja dúvidas que trouxe impacto e denunciou ao mundo o que se vive no leste Europeu, mas com um mundo de culturas tão distintas, como pode representar um ideal feminista prático e global? A maior luta é a que fazemos no dia-a-dia, seja qual for a nossa cultura, religião ou país. O melhor feminismo é continuar a insistir. Na escola. Naquela profissão. Na actividade de que tanto se gosta e da qual nos querem afastar. No direito a ir. No direito a dizer que não. No direito que o ser humano tem de viver os seus dias como bem entender.


Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas..
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