Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas.

Pedro Almodóvar, o homem que ama as mulheres

Em tempos, fui uma adolescente perdida num mundo de heróis masculinos, até que Pedro Almodóvar me mostrou que eu também posso ser uma heroína. Ele é mais do que um dos mestres do cinema europeu. Ele tem uma peculiaridade que outros não conseguiram ter. Num mundo em que até nós mulheres vemos através dos olhos de um homem, ele é o homem que vê através dos olhos de uma mulher.


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Quando era criança, eu brincava de Homem-Aranha, tentando trepar a parede da sala, empoleirando-me na mobília e na minha imaginação. Sonhava ser a versão feminina deste herói dos quadradinhos. Nunca sonhei ser a sua amada Mary Jane. A bonita e popular Mary Jane. Eu identificava-me com Peter Parker, o esquisitóide que se transformou em herói.

No mundo da ficção, há mais referências masculinas do que femininas. Apesar de todos sentirmos o que estes heróis masculinos sentem: o sofrimento, a alienação, a insegurança, a raiva, a vontade de ser forte e melhor. As mulheres que vemos nas telas, são reduzidas, a maioria das vezes, a duas categorias: o objecto de luxúria ou o objecto de apoio. Como pode um espectador, independentemente do género, sentir qualquer tipo de empatia por tais personagens? É raro ver uma personagem feminina como o fio condutor de uma estória, com as suas próprias lutas, ideias, paixões e dores. É verdade que podemos explicar isto pelo facto de haver mais homens a fazer e a escrever para cinema. Mas se até as mulheres roteiristas e directrizes são capazes de contar formidáveis histórias sobre meninos e homens, como pode ser tão raro o contrário acontecer?

Sendo que tudo aquilo que é raro, é belo demais, e nos marca, foi assim que dei de caras com a obra de um tão aclamado realizador espanhol. Talvez até já um pouco tarde demais, eu descobri Pedro Almodóvar, quando assisti a “Tudo sobre a minha Mãe”, obra que arrecadou o óscar para melhor filme estrangeiro no ano 2000. Logo na primeira cena me apaixonei por Manuela, a protagonista do filme. Decidi aí que ela era a minha heroína cinematográfica. Não por ser mulher, mas por ser ela, a Manuela.Uma personagem genuína, de carne e osso, de alegrias e desgostos, pela qual é impossível não sentir uma profunda admiração, assim como sentir empatia pelas restantes mulheres que se cruzam com ela na trama. Mulheres a quem Almodóvar deu a alma que lhes é devida.

Não é redutor dizer que “Tudo sobre a minha Mãe” é uma história sobre mulheres, mas deixem que vos diga que antes de tudo, é uma história sobre gente. E uma história tão rica que se desfia em muitas outras histórias, que à primeira vista podem parecer suplementares, como estando lá apenas pelo estilo tão interventivo, indecoroso e irreverente de Almodóvar, mas não sejamos ingénuos. É uma mão cheia de propósitos e não um mero asserto, a mão que constrói um mundo feminino tão complexo, autêntico e inteiro. O filme expõe as relações amorosas, as relações familiares, a maternidade, as amizades femininas, a arte, a fama, a prostituição, o vício, o luto, a religião, as relações lésbicas e mais umas quantas questões que eu podia incluir aqui, mas receio que esta lista se torne extensa demais, e a revele mais do que o necessário para o leitor que ainda não tenha visto o filme.

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Apesar de ser uma das suas mais aclamadas obras, não é só sobre Manuela e companhia que se faz o universo feminino da filmografia de Almodóvar. Previamente, em 1988, lançou o filme “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”. Um filme que tem tanto de colorido e cómico, como tem de negro e ríspido. Almodóvar, deixando até já adivinhar o que podemos esperar pelo título do filme, coloca uma mulher apaixonada e traída, de seu nome Pepa, no centro de uma trama que se vai desenrolando num só espaço durante grande parte da película. Também este filme expõe a amizade feminina como a base de recuperação para os desgostos amorosos que estas mulheres sofrem com os homens. Oposto do qual mais habitualmente vemos no cinema. A estes títulos juntam-se outros como “Ata-me!” de 1990, “De Salto Alto” de 1991, “A Flor do Meu Segredo” de 1995, e o mais recente “Volver”, de 2006.

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Almodóvar tem as suas musas. As musas com as quais cresceu, e as musas com quem trabalha. A mãe e avó foram as primeiras figuras femininas pelas quais se deixou fascinar. O realizador personifica nas suas obras, a figura da mulher espanhola que sempre conheceu, recorrendo a um leque de actrizes que são conhecidas como as “mulheres de Almodóvar”, por tantas vezes trabalharem com ele. Os nomes de Cecília Roth, Carmen Maura, Rossy de Palma, Marisa Paredes, Penélope Cruz são impossíveis de ignorar quando se fala do seu trabalho. As suas personagens, para além de serem mulheres loucamente enamoradas ou mal amadas, têm também elas muitas vezes a profissão de actriz, devido ao fascínio que Pedro nutre por estes dois mundos: o mundo das mulheres e o mundo do teatro. O clássico filme “All About Eve” com Bette Davis, de 1950, é descrito pelo próprio como uma das suas maiores inspirações, e ao qual prestou homenagem em “Tudo sobre a minha Mãe”.

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Com o mais recente filme, “Julieta”, o realizador espanhol diz regressar ao mundo das mulheres – se é que alguma vez ele o abandonou – com a sua habitual narrativa. A forte personagem feminina como protagonista, aquela a que o errado acontece, e que tenta vigorosamente voltar a encaixar todas as peças soltas da sua vida. Este é afinal um dos seus mais importantes legados. Apesar de Almodóvar não poder ter feito tudo isto sem as suas musas, foi ele o cineasta que tirou as mulheres desse mesmo estatuto de musa, e lhes deu o estatuto de protagonista.


Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas..
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