Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas.

Tudo o que eu vou fazer hoje é nada

Às vezes temos que ficar de fora. Às vezes é preciso não fazer nada mesmo. Fazer nada é mais difícil do que se pensa. Mesmo quando o nosso corpo sucumbe à preguiça, a nossa cabeça viaja por um milhão de lugares. Se sabemos descansar o nosso corpo, também conseguimos descansar a nossa mente.


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Sempre ouvi dizer que às vezes precisamos de dar um passo atrás para poder dar dois para a frente. Na vida, vamos aprendendo que tudo é cíclico, e que quando um ciclo se fecha, é preciso recuar, e se resguardar, para poder abrir um novo ciclo. Isto pode ser o fim de uma relação, o fim de um projecto pessoal, o desemprego ou qualquer outra grande mudança nas nossas vidas. E é nesses períodos em que sentimos um grande vazio e uma confusão de ideias que precisamos deixar que o nada aconteça. Porque enquanto esse nada durar, estamos a preparar a próxima viragem. E todos os ciclos da vida precisam dessa preparação, de estar a ferver em lume brando. Atravessar este pequeno atalho que liga uma estrada à outra parece por vezes o caminho mais longo que percorremos. Deixamos que as preocupações e a ansiedade tomem conta dos nossos pensamentos, na altura em que não deveríamos de facto preocuparmo-nos com nada.

Às vezes temos que ficar de fora. Às vezes é preciso não fazer nada mesmo. Fazer nada é mais difícil do que se pensa. Mesmo quando o nosso corpo sucumbe à preguiça, a nossa cabeça viaja por um milhão de lugares. Se sabemos descansar o nosso corpo, também conseguimos descansar a nossa mente.

Simples. Teimosia contra teimosia. No fim, o mais teimoso ganha. A nossa cabeça vai teimar em nos complicar a vida, em nos encher a lista de prioridades e de coisas para fazer, mas nós podemos teimar mais ainda, apenas deixando cair as armas. E dizer "agora, eu sou a prioridade".

Já que é para recomeçar, que tal fazer um "reset"? Que tal deixar-se ser e ir fazer aquelas coisas que até então não caberiam nessa listinha de prioridades? Todas as coisas que queremos fazer e que achamos um nada, são as coisas que mudam o nosso futuro e voltam a juntar as peças que nos faltam.

Que tal uma caminhada sem destino? Que tal ir visitar aquele sítio bonito pelo qual tantas vezes passámos e ignorámos na correria dos dias? Que tal fazer aquele bordado, pintar aquele quadro? Que tal passar mais tempo com aqueles familiares e amigos? Que tal, simplesmente, contemplar a vida, vibrante, a passar à nossa volta?

É como olhar para um carrossel, aliciante e cheio de cores, enquanto esperamos a nossa vez de entrar, sabendo que, quando entrarmos, estaremos tão distraídos com os seus altos e baixos, que lá de dentro não conseguiremos ver tão bem o quão bonito é, como conseguimos ver daqui.


Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas..
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