Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas.

A música dos Vampire Weekend, muito mais que palavras soltas

Há quem considere que a banda nova-iorquina é pretensiosa, e há quem reconheça que as suas canções estão cheias de mensagens subliminares.


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A banda Vampire Weekend é conhecida pela sua sonoridade jovem, upbeat, e instrumentalmente ecléctica. Mas, o que mais caracteriza a banda são as letras das suas músicas, cheias de pequenos apontamentos, nomes, palavras soltas, que à primeira vista não têm relação. Letras confusas e difíceis de descortinar. A música dos Vampire Weekend é um verdadeiramente genial para os apreciadores de letras abstractas. Há quem considere que a banda nova-iorquina é pretensiosa, e há quem reconheça que as suas canções estão cheias de mensagens subliminares.

Ezra Koenig, Chris Baio, Rostam Batmanglij, e Chris Tomson formaram a banda em 2006, quando estavam a terminar os seus estudos na Columbia University, uma instituição de ensino universitário com muito prestígio nos Estados Unidos da América. O nome da banda surgiu de um filme que Koenig fez durante o seu ano de caloiro. Foi precisamente nos círculos literários da Universidade que a banda começou a actuar e a mostrar as suas canções, antes de conseguir a atenção da indústria musical e do público no ano de 2007.

Há espaço para vários conceitos na música de Vampire Weekend, desde a política, à diplomacia, passando pela religião e a literatura. O tema mais conhecido da banda é “Oxford Comma”. O título desta canção traduz-se para português como "a vírgula de Oxford". A vírgula que é usada para separar várias ideias na mesma frase e que é o sinal de gramática menos consensual da língua inglesa, sendo imprescindível para alguns e desnecessária para outros. Na letra, o cantor fala para uma provável namorada ou interesse amoroso, perguntando-lhe “Quem quer saber do Ocford Comma?” de uma forma mais rude, claro, no original “Who gives a fuck about an oxford comma?”

Mas e então, a música é sobre gramática? Semântica? O processo da escrita? Não. Como já foi explicado pelo vocalista da banda e autor da letra, “torna-se muito óbvio que é uma canção sobre elitismo, e sobre lidar com alguém que se acha superior aos outros, e que tenta criticar-te de formas ridículas”.

De onde vem então o criticismo contra a banda? O mesmo, Ezra Koenig, explica que o feitiço se virou contra o feiticeiro. Eles quiseram criticar o elitismo, mas ao chamar uma canção de “Oxford Comma”, acabaram sendo eles os acusados de elitismo. E isto porque, aparentemente, só pessoas com estudos mais avançados sabem o que é uma vírgula de Oxford. “A história da minha família mostra que não é preciso ser rico para ser formado, para se interessar por livros, para saber palavras obscuras”, contrapôs Koenig, defendendo o seu trabalho.

Com vírgulas ou sem vírgulas, os Vampire Weekend continuaram a saga de canções abstractas e “elitistas”. Os temas “Unbelievers” e “Ya Hey”, diz-se por aí, são sobre religião e ateísmo. Mas serão mesmo?

“Unbelievers” que quer dizer “Descrentes” (ou “Infiéis” numa linguagem mais religiosa), diz nos primeiros versos: “Tenho um pouquinho de alma, O mundo é um lugar frio para estar, Quero um pouco de calor mas quem vai guardar um pouco de calor para mim? Sabemos que o fogo espera pelos descrentes, Todos os pecadores, é o mesmo Mulher, tu e eu vamos morrer descrentes Condenados às linhas do comboio”

Ou seja, numa primeira análise, temos nesta canção um casal de ateus sem fé alguma em Deus, no mundo e na humanidade, e bastante bem resolvidos com o seu fim, ou o fim que a religião diz que eles irão ter, o inferno. Talvez para evitar todo um tumulto à volta da canção, o vocalista da banda referiu que esta é uma música que fala sobre jovens tentando encontrar o seu lugar no mundo. "É sobre tentar entender aquilo em que você acredita e como as suas crenças afectam as suas relações com outras pessoas”, explicou então numa entrevista à revista NME. Koenig insiste que a música é um pouco em tom de brincadeira e não para ser levada muito a sério. Está bem Ezra, nós acreditamos.

Mas se o tema é religião, a melhor canção dos Vampire Weekend para esta discussão é “Ya Hey”, com os versos: “Ó coisa querida, Sião não te ama, E Babilónia não te ama, Mas tu amas tudo, Ó tu santo, a América não te ama, Então eu nunca poderia amar-te, apesar de tudo”.

Já esta canção, Ezra Koenig nunca negou ser escrita sobre Deus. A letra não deixa dúvidas, nem o título “Ya Hey”, uma referência a Yahweh, um dos nomes que se refere a Deus na bíblia, no português Javé, ou Jeová, o Deus que libertou Israel do Egipto, e o nome que não deve ser pronunciado. O que nos leva ao refrão, deveras viciante, da canção de Vampire Weekend “pelo meio do fogo, pelo meio das chamas, tu nem vais dizer o teu nome, tu dizes 'eu sou o que sou'”. E voltamos à Bíblia, mais concretamente ao Êxodo 3:13,14 “Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU.” Nesta canção, Koenig questiona Deus no porquê de ele amar tudo, até todo o mal do mundo, e segue o verso “E eu não consigo senão pensar que tu viste o erro, mas deixaste passar”.

Esta é sem dúvida uma das produções mais marcantes da banda, pelo tema em causa, e pela forma como ele está camuflado na letra, ao ponto que um ouvinte desatento ou alguém que não saiba o mínimo sobre religião, não vai entender nada do que está a ouvir. Uma boa forma de fugir ao criticismo barato e ter a música a tocar nas rádios.

Com estas e outras canções, os Vampire Weekend, conquistaram o seu espaço no mundo das letras geniais, ou pelo menos, das letras com conteúdo, para quem aprecia a música mas também quer ouvir a mensagem.


Elsa Afonso

Formada em Jornalismo. Entusiasta das palavras, das ideias e das escolhas. Consegue ver em tudo uma pontinha de comédia, e gosta de (escrever) coisas descabidas..
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