Paulo Cichelero

Eterno estudante de tudo, Paulo é especialista em coisas que não lhe dizem respeito.

50 Tons de Hamlet

Filósofo depressivo, suicida niilista, existencialista insano: o que podemos aprender sobre o ser humano, a vida e a morte com Hamlet, o eterno Príncipe da Dinamarca?


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Novos textos, vídeos e músicas são despejados em nosso colo a todo segundo em uma enxurrada interminável. Em pouco tempo, quase tudo acaba soterrado, condenado ao esquecimento, e muito do que envelhece se torna supérfluo. Daqueles que sobreviveram ao tempo, pense em Shakespeare: o senso comum o consagrou como um gênio de talento imortal – mas você saberia dizer por que ele ainda é relevante? Sua obra não parece acrescentar nada a questões atuais que são importantes para nós como a dicotomia política do Brasil, o aquecimento global, os transgênicos ou o movimento LGBT. Estaria Shakespeare gagá?

É claro que quatrocentos anos de história transformaram o mundo em um cenário bastante diferente daquele representado nas peças shakespearianas, mas a essência humana não mudou. Essa essência é o que mais interessa a Shakespeare: nossa experiência de vida, nossos anseios e temores – tudo o que nos torna tão semelhantes. Dentro desse espírito, Hamlet investiga uma das facetas mais perturbadoras da existência: a nossa relação com a morte, e as principais questões que ela evoca. Qual o valor da vida? Existe algum sentido em existir?

Ser ou não ser – eis a questão” é o dilema clássico da peça. É também a síntese do principal problema de Hamlet, Príncipe da Dinamarca: viver vale a pena? O personagem se pergunta: diante de uma vida de tormentos e infelicidade, existe alguma razão verdadeira para não se escolher o suicídio? Outras reflexões perturbadoras como essa passam a assombrar seus pensamentos, confundindo os limites entre a vida e a morte, a loucura e a sanidade, o corpo e o espírito, a paixão e a razão. Por sua profundidade filosófica, assim como por seu esmero estético e sua abrangência temática (explorando as diversas facetas de Hamlet e assuntos como loucura, traição, vingança, incesto e corrupção), Hamlet é um dos textos mais influentes da língua inglesa. Mas de que forma ele ainda nos toca?

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Filósofo depressivo

As desventuras de Hamlet começam quando seu pai, o Rei da Dinamarca, é envenenado por seu próprio irmão Cláudio. A morte, contudo, é tomada por todos como natural, e Cláudio acaba sendo coroado como novo Rei. Somente Hamlet, entre todos, tem conhecimento de que seu pai foi na verdade assassinado – mas vê-se incapaz de denunciar o tio. Torturado pelo ocorrido, mas paralisado por suas próprias reflexões, Hamlet mergulha em grande melancolia. Mesmo recebendo a visita do espírito do pai, que lhe suplica vingança, Hamlet hesita em tomar providências. Sua hesitação, que ele próprio encara como uma desonra ao dever filial, acaba agravando-lhe a depressão e os tormentos até o nível de uma quase-loucura.

É claro que a morte de seu pai o assombra (inclusive literalmente), mas o que mais o perturba é, na verdade, a generalização filosófica dessa tragédia particular: é a dedução de que, assim como em sua família, o mundo inteiro é vítima de uma sina arbitrária. Os atos bons e maus são recompensados pelo destino sem qualquer critério. Assim, não havendo qualquer sentido nas ações e mesmo na existência humana, a própria vida parece perder seu valor. “Minha vida não vale um alfinete”, afirma Hamlet. Mas e a vida dos outros? Valeria mais?

O contraste doloroso entre o florescer alegre da vida e a aridez corrosiva da morte também alimenta em Hamlet essa noção de inutilidade da existência humana. Em pleno cemitério, o Príncipe reflete – analisando covas e ossadas:

“Talvez [seja esse] o crânio de um advogado! Onde foram parar os seus sofismas...? Por que permite agora que um patife estúpido lhe arrebente a caveira com essa pá imunda e não o denuncia por lesões corporais?”

E logo após, ao deparar-se com a cova de um amigo falecido, outrora brincalhão:

“Onda andam agora as tuas piadas? Tuas cambalhotas? Tuas cantigas? ... Que falta de espírito!”

A finitude da vida é algo que Hamlet não consegue engolir – pelo menos sem engasgar. Ao próprio Rei Cláudio, assassino de seu pai, ele declara: “nós engordamos todos os outros seres para que nos engordem; e engordamos pra engordar as larvas. O rei obeso e o mendigo esquálido são apenas variações de um menu – dois pratos, mas na mesma mesa...”

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Niilista suicida

Diante dessa aparente inutilidade de tudo – já que as coisas boas e as coisas más acabam todas da mesma maneira, com um final igualmente inglório –, falar em niilismo parece inevitável. Os niilistas, séculos após Shakespeare, foram acusados de escapistas e alienados devido à sua fuga às ações práticas – já que as ações seriam inúteis –, mas já em Hamlet essa crítica está presente (na forma de uma autocrítica): “e assim a reflexão faz todos nós covardes.” Ou seja: a relativização de valores, ou mesmo o excesso de análise, pode nos congelar em um estado catatônico, na inação.

Além disso, parte da obsessão de Hamlet pela morte está ligada a uma sensação sua de merecer alguma punição, já que ele não atende ao dever filial de vingar a morte do pai. Por essa hesitação, Hamlet considera-se um covarde, e passa a detratar a si mesmo:

“Sou arrogante, vingativo, ambicioso; com mais crimes na consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para executá-los. Que fazem indivíduos como eu rastejando entre o céu e a terra?”

Quem não recomendaria a Hamlet uma boa sessão de terapia, ao escutar essas palavras? Não é surpresa que a ideia de suicídio brote em seus pensamentos. Sabemos que, na época de Shakespeare (e ainda hoje, entre muita gente), o desejo de suicídio é diretamente relacionado à loucura. Assim, não é à toa que Hamlet seja tachado de louco devido a seu azedume suicida. Diz ele: “que essa carne tão, tão maculada, derretesse, explodisse e se evaporasse em neblina! Ó, se o Todo-Poderoso não tivesse gravado um mandamento contra os que se suicidam.” Mas como classificar como louco alguém que sofre genuinamente?

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Existencialista insano

Tomado por louco, Hamlet é na verdade o personagem mais lúcido nessa tragédia shakespeariana. Muitas vezes, sua voz parece ser a do próprio Shakespeare. Afinal, como emitir opiniões vanguardistas (e que vão contra o senso comum) sem ser classificado como lunático pelo populacho de pensamento limitado? Assim, com a desculpa da loucura, Hamlet pôde ser um porta-voz de seu autor, sem incorrer em qualquer risco.

O estado de náusea existencial, por exemplo, só poderia ser aceito na época de Shakespeare se fosse relacionada à insanidade. E é curioso como ele nos remete à náusea de Sartre: “como são enfadonhas, azedas ou rançosas, todas as práticas do mundo!”, diz Hamlet. “O tédio, ó nojo! Isto é um jardim abandonado, cheio de ervas daninhas, invadido só pelo veneno e o espinho.”

Uma vez considerado louco, Hamlet passa mesmo a fingir sua loucura, ora ou outra dizendo impropérios sem nexo e reforçando a imagem que seus pares já haviam lhe atribuído. É ele, porém, que demonstra a melhor compreensão da complexidade humana ao longo dessa peça. Em dado momento, por exemplo, ele está diante de uma apresentação de atores itinerantes, e comenta:

“Não é monstruoso que esse ator aí, por uma fábula, uma paixão fingida, possa forçar a alma a sentir o que ele quer, de tal forma que seu rosto empalidece, tem lágrimas nos olhos... Que faria ele se tivesse o papel e a deixa da paixão que a mim me deram? Inundaria de lágrimas o palco e estouraria os tímpanos do público... Mas eu, idiota inerte, alma de lodo, vivo na lua, insensível à minha própria causa.”

Não apenas Hamlet compreende que o ser humano é mais complexo do que o personagem de uma peça, mas parece que escutamos a própria voz de Shakespeare refletindo sobre os limites da ficção ao representar o real. E Hamlet, como personagem, é essa figura que, quase viva, quase real, não obedece às pulsões mais convenientes para um enredo (no caso dele, vingar o próprio pai), mas hesita e se atormenta, como uma pessoa verdadeira.

Mais do que um personagem inerte, movido mecanicamente pela pena de um autor, Hamlet filosofa, questiona sua própria existência, e dá pitaco também na existência humana para além da própria peça: “que obra-prima é o homem! Contudo, para mim, é apenas a quintessência do pó. O homem não me satisfaz.” Ou será a voz de William Shakespeare?

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É claro que o Príncipe da Dinamarca não nos dá respostas claras nem satisfatórias. Como filósofo, ele só se responsabiliza pela formulação das perguntas, e pela identificação dos problemas. Dilemas, dúvidas e paradoxos existenciais que todos nós vivemos, e que Hamlet traduz tão bem. Para as diversas questões que ele levanta, para as provocações que faz, ele próprio não é capaz de dar solução. A vida vale a pena? Shakespeare não responde. A questão – ser ou não ser – permanece para todos nós, para que cada um invente sua resposta.


Paulo Cichelero

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