Paulo Cichelero

Eterno estudante de tudo, Paulo é especialista em coisas que não lhe dizem respeito.

Ockham e a Navalha Cega da Simplicidade

Será que a explicação mais simples é sempre a melhor? Quando mal utilizada, essa lógica medieval desenvolvida por Ockham pode nos conduzir a conclusões ilusórias, e a um pensamento reducionista capaz de nos cegar para o mundo real.


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Mesmo os mais desinteressados por ciência já devem ter ouvido falar da Navalha de Ockham, o famoso Princípio da Parcimônia desenvolvido pelo frade franciscano Guilherme de Ockham ainda durante a Idade Média. Segundo esse princípio, a explicação mais simples para um determinado fenômeno é sempre a melhor. Será? É inegável que, ao longo de vários séculos, essa lógica demonstrou-se muito eficiente para a resolução de problemas científicos, assim como para eliminar dúvidas em contextos os mais variados – desde diagnósticos médicos até investigações criminais. No entanto, trata-se de um raciocínio reducionista, cuja eficiência depende inteiramente das chances estatísticas: ao apostar sempre na regra, o princípio de Ockham ignora as exceções. E as consequências de se estar cego àquilo que é raro, contingente ou único só podem ser danosas – não apenas para a ciência, mas também para a sociedade como um todo.

Recentemente, li um artigo sobre esse tema assinado pelo professor Elliott Sober, da Universidade de Madison, Wisconsin. Nele, Sober se questiona se o princípio de Ockham não seria uma maneira ilusória de apaziguar problemas científicas. Para ele, assumir que nosso universo opera necessariamente pela maneira mais simples é uma premissa gratuita, que não se baseia em qualquer indício real. Esse argumento é muito importante: o que nos garante que a regra da simplicidade é universal? Há ainda um outro problema com a navalha de Ockham, contudo: ela ignora a influência da perspectiva.

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Questão de Perspectiva

Talvez a falha principal de Ockham seja desconsiderar o ponto de vista e suas implicações sobre a formulação de uma hipótese ou teoria. O fator da perspectiva é frequentemente ignorado, e para muitos a simples ideia de que uma teoria possa depender de um ponto de vista causaria risos. Você talvez concorde: em matemática, por exemplo, sabemos que o ponto de vista não é capaz de alterar um cálculo. Vou demonstrar com números (mas não se assuste): temos uma equação A (3x + 2 = x + 10) e uma equação B (X = 4); qual é a mais complexa? Claramente, trata-se da A. Entretanto, o fato é que ambas as equações são equivalentes, e para ambas o valor de x é o mesmo. São duas abstrações, duas representações aplicáveis a uma realidade no mundo, e seu nível de complexidade é diferente, mas a realidade que representam é a mesma. É aí que a navalha de Ockham derrapa feio: ao julgar uma realidade pela maneira como ela é representada, as características da representação são confundidas com as características do objeto representado (seja em palavras, seja em números). E isso é grave.

Duvida? Vamos a um exemplo prático. Imaginemos que uma pessoa foi encontrada morta em um campo aberto, apresentando sinais de queimadura, e que testemunhas relataram a ocorrência de um forte clarão e de um ruído alto nas proximidades, algumas horas antes. Para determinar o que teria provocado a morte do indivíduo, poderíamos formular duas hipóteses:

A) Um grupo de trilhões de partículas invisíveis, as quais encontram-se presentes em todos os corpos constituídos de matéria, deslocou-se em um fluxo súbito de carga através de um canal formado por plasma (gases atmosféricos ionizados), movimentando-se violentamente entre duas áreas carregadas – quais sejam, a superfície sólida do planeta Terra e as massas de vapor de sua troposfera, e tal movimentação provocou um superaquecimento de cerca de trinta mil graus Célsius no interior do canal condutivo, levando à liberação de outro grupo de partículas (estas não-invisíveis), além de induzir à transformação de parte de sua carga em energia mecânica (som), e, ao entrar em contato com o organismo do ser humano em questão, demonstrou ultrapassar a capacidade de estabilização térmica e mecânica de suas células (ou uma parte significativa delas), ao que esse organismo mostrou-se incapaz de manter um metabolismo ativo, acarretando no desligamento das funções vitais de todo o grupo de suas células diretamente interdependentes.

B) A pessoa foi atingida por um raio.

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Sem dúvida, a navalha de Ockham excluiria de imediato a hipótese A, visto a simplicidade de B. Curta e grossa, B descreve um fenômeno comum e bem conhecido pelas pessoas, usando palavras simples, de fácil compreensão. A hipótese A, ao contrário, evoca conceitos dos quais a maior parte das pessoas não tem qualquer noção, esmiuçando a ocorrência em termos mais precisos e que, para muitos, pareceriam até fantásticos (canal de plasma?!). Como as hipóteses A e B relatam o mesmíssimo fenômeno, não faria diferença optar por uma ou por outra: ambas estariam corretas. Mas e se a explicação mais simples, evocando um lugar-comum, estivesse errada, e a mais complexa, para muitos incompreensível, trouxesse a verdade? O princípio de Ockham conduziria a uma armadilha.

Uma derrapada de lógica semelhante é narrada em Contato, filme de 1997 baseado em um romance de Carl Sagan. Quando a protagonista, uma cientista americana, é cotada para embarcar em uma provável viagem de contato com vida extraterrestre, um tribunal decide avaliá-la para concluir se ela seria a pessoa certa para representar a humanidade. A personagem é rejeitada para a missão devido à sua descrença em Deus: por não compartilhar a fé da maioria, ela não poderia representar a espécie humana. O interessante é que, ao final da sessão, o presidente do tribunal a questiona em seu ateísmo evocando o princípio de Ockham: para ele, a teoria do Big Bang seria mais complexa e, portanto, mais improvável do que a hipótese de que o universo havia sido criado por Deus.

É uma pegadinha boba. Ninguém precisa ser ateu para perceber que a explicação que inclui Deus é inevitavelmente mais complexa. Basta reparar no óbvio: com a teoria puramente científica, e com tudo o que já foi descoberto/medido/concluído pela ciência, já temos um quadro bastante complicado de informações (atestadas por experimentos) e também uma infinidade de questões não respondidas. Já com a explicação divina, continuamos com as mesmas dúvidas enfrentadas pela ciência, mas agora somadas aos paradoxos relativos à figura de Deus, que além de não explicar nada ainda trás outra infinidade de problemas lógicos, como: de onde veio Deus? Ele sempre existiu? Ele criou a si mesmo? Com qual objetivo ele criou o universo? Explicar o mundo utilizando Deus é, de fato, não explicar nada: embora o argumento pareça mais simples, já que contém menos palavras, e somente palavras simples, ele não dá qualquer resposta, e transfere às dúvidas para uma área onde a discussão é geralmente velada.

É claro, no âmbito da ciência, nem Deus nem outras entidades inverificáveis são utilizadas como argumento. No entanto, a confusão entre as explicações e a maneira como as explicações são postuladas não é incomum.

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Um Raciocínio Medieval

Não sejamos tão críticos com Guilherme de Ockham, no entanto. Na verdade, no contexto em que viveu, sua técnica de raciocínio era sem dúvida a mais confiável: em plena Idade Média, em um mundo sem ciência e sem métodos confiáveis para se chegar a conclusões, a tendência a confiar na teoria mais simples era de fato a atitude mais inteligente, por questão estatística. A navalha de Ockham é um método tacanho, porém de extrema eficiência quando você está cego, em meio à incerteza, e não tem tempo ou meios de investigar.

Utilizar a navalha de Ockham, portanto, só faz sentido na falta de um recurso melhor. Em especial, a partir do século XX e dos desdobramentos da teoria da relatividade, percebemos mais e mais que nossos sentidos nos enganam (para nossa própria sobrevivência) e que o tecido do universo é muito menos óbvio do que nos parece por instinto. Já se sabia disso há muito mais tempo, é claro: o exemplo mais comum é o próprio fato de que a Terra é redonda, e não chata como nos parece – ou que o sol não gira em torno do nosso planeta, como nos induz a crer nossa percepção. Contudo, a física contemporânea tem sugerido uma complexidade muito maior, e quanto mais se tem descoberto, mais distante as teorias que explicam o universo vão ficando do que nós poderíamos deduzir a partir do bom senso ou de nossos sentidos. A simplicidade, assim, vai ficando para trás.

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Não existe, afinal, qualquer razão empírica para se pensar que as explicações científicas devam ser as mais simples possíveis. O argumento de que o universo é matematicamente elegante, e que não desperdiça nada, é desprovido de embasamento; soa bem, é verdade; mas há algo que o comprove? Tanto cientistas quanto filósofos têm defendido esse postulado ao longo dos séculos. Para muitos pensadores, a natureza é necessariamente simples, e não se dá o luxo de possui causas supérfluas. Uma conclusão bonita a se chegar; mas baseada em quê?

“A verdade sempre será encontrada na simplicidade,” escreveu Isaac Newton, “e não na multiplicidade e confusão das coisas. É a perfeição das obras de Deus que são todas feitas com a maior simplicidade. Ele é o Deus da ordem e não da confusão.”

Mergulhado no pensamento religioso de sua época, Isaac Newton não estava isento de certa tendência ilógica e determinista ao postular suas duas regras sobre a simplicidade da leis da física, as quais parecem derivar diretamente da lógica de Ockham: “Não devemos admitir mais causas para as coisas naturais do que aquelas que forem verdadeiras e suficientes para explicar as suas aparências”, e “portanto, aos mesmos efeitos naturais devemos, na medida do possível, atribuir as mesmas causas”. O que Newton faz é usar outra vez o raciocínio generalizante do tiro no escuro – pois, estatisticamente, é de fato mais provável que os mesmos efeitos derivem das mesmas causas. O problema é que esse mesmo tipo de raciocínio já levou centenas de inocentes para a cadeia – porque aposta sempre na regra e ignora as exceções. E a verdade, às vezes, está nas exceções.

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Hora de Jogar Fora?

Apesar de tudo, ainda hoje é aconselhável – em muitos casos – usar a lógica de Ockham. Médicos, por exemplo, têm muito mais chance de fazer um diagnóstico correto se apostarem primeiro nas causas mais prováveis. Se um certo sintoma pode ser resultante de uma doença comum, mas também de uma doença rara, apostar no mais provável é obviamente o melhor a se fazer. Afinal, em muitos casos a análise detalhada do caso de um paciente é inviável. Mas quando o assunto é ciência – e a compreensão do mundo onde vivemos –, ou mesmo as minorias sociais e suas características particulares, chegamos em um ponto em que apostar no mais óbvio, ou no que nos parece mais provável, não é mais um método confiável ou justo. É preciso abrir os olhos para as exceções, para o que é particular: o “bom senso” não é mais do que uma grande armadilha para o pensamento humano.


Paulo Cichelero

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