Aline Cabral

Libriana que não consegue decidir se prefere palavras escritas ou conversas de botequim. E por isso pede os dois. E com uma xícara de café quentinho, faz favor

Tal mãe, tal filha, tal mulheres

Gilmore Girls carrega uma geração de fãs que riram e choraram com os diálogos rápidos nos anos 2000. Com o revival, vemos um universo mais maduro, profundo e despedaçadamente real.


gilmore girls.jpg

“Eu vivo em dois mundos. Um é o mundo dos livros (...). É um mundo recompensador, mas o meu segundo é muito superior. O segundo mundo têm personagens menos incomuns, mas, sobretudo, reais, feitos de carne e osso, cheios de amor, que são minha principal inspiração para tudo”.

O discurso de formatura de Rory, ao final da terceira de temporada nos idos anos de Gilmore Girls, não poderia ser mais metadescritivo. O universo da série que conquistou os fãs com suas conversas rápidas e situações cotidianas é justamente a mesclagem exata entre os mundos da ficção e da realidade que a jovem protagonista proclama em seu discurso.

Que o mundo seria mais fácil se todos vivessem em uma cidade lúdica, com cheiro de neve e bons cafés, ninguém duvida. A ficção está em cada canção do trovador da cidade, nos musicais inapropriados e nos personagens nonsense de Stars Hollow. Mas isso não acontece com as protagonistas. A série sobre as três garotas Gilmore remanescentes traz situações que poderiam muito bem ter acontecido com qualquer uma de nós – ou com nossas amigas, ou nossas mães, ou nossas avós.

Se o que surpreendia nos primeiros episódios era a relação liberal de Lorelai e sua filha adolescente, logo vemos que o enredo vai muito além disso. No revival, pudemos ouvir Lorelai sobre coisas que nunca vieram à tona nos anos adolescentes de Rory: a quantidade de regras que a maternidade impôs, a necessidade de desenvolver mais empatia para lidar com a filha. “Eu sempre entendo tudo. Pelos últimos 32 anos, eu fui a rainha do entendimento”. A mãe descolada parece perfeita, mas também tem suas crises. A imagem de companheirismo entre as duas permanece sempre como já esperávamos, mas vemos que a vida colorida que Lorelai criou para sua pequena família pode não ter sido tão fácil e automática quanto parecia à primeira vista.

Todos passam pela vida cometendo erros. Com os personagens da série, não é diferente. Ao longo de praticamente oito temporadas – incluindo o lançamento do revival – vimos os nossos mais queridos personagens tomarem decisões erradas, atitudes questionáveis e terem ideias absurdas. Assim como cada um de nós já viu acontecer em sua própria vida e na vida de quem nos cerca. Vimos dor, alegria, tédio, angústia. Sentimos tudo isso com os personagens da mesma forma que já sentimos isso quando fizemos a mesma coisa.

No começo da série, víamos Rory como a garota certinha que tinha um futuro brilhante pela frente. No revival, ela tem a mesma idade que a mãe tinha quando a série começou - a mãe que engravidou aos 16, largou a escola e não teve o destino glamouroso que seus pais queriam. No entanto, Lorelai aos 32 estava em uma situação muito melhor que a Rory na mesma idade. Ela tinha uma casa, um emprego do qual gostava, boas perspectivas. A sequência lançada agora é uma dolorosa lembrança de que nem sempre as coisas acontecem como esperamos – para o bem ou para o mal.

Se a geração Y deixa um legado no mundo, é o que de grandes oportunidades e muito potencial nem sempre geram os bons resultados esperados. É preciso ter jogo de cintura para lidar com o mundo real e saber que boas habilidades e um bom background não são suficientes para o sucesso. E é isso que vemos em Rory: a menina cheia de potencial que se transformou em uma adulta que é arrogante em entrevistas de trabalho, esquece de seu namorado e briga com a mãe que não aceita a publicação da história de sua própria vida.

tumblr_static_tumblr_static_ayvoux6nijkg4woccw808kk8s_640.gif

Rory é a menina com quem grande parte dos fãs cresceram junto. Passamos com ela a angústia de entrar na faculdade, de tomar o primeiro fora, de sofrer no mercado de trabalho. Por isso é tão despedaçador e concreto ver agora o que sua vida se tornou. Da mesma forma como é triste ver Emily ficar viúva após um casamento de anos. Ou Lorelai ver sua sócia e melhor amiga ir embora enquanto repensa seus relacionamentos. Qualquer uma dessas coisas poderia acontecer – ou já aconteceram – com qualquer uma de nós. Porque as personagens de Gilmore Girls são a vida real de todos de nós: carne e osso, amor e erros.


Aline Cabral

Libriana que não consegue decidir se prefere palavras escritas ou conversas de botequim. E por isso pede os dois. E com uma xícara de café quentinho, faz favor.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Aline Cabral