Aline Cabral

Libriana que não consegue decidir se prefere palavras escritas ou conversas de botequim. E por isso pede os dois. E com uma xícara de café quentinho, faz favor

A realidade kafkiana de Orphan Black

A realidade fantástica da série, repleta de reviravoltas e acontecimentos surreais, se encaixa como uma luva na concepção kafkiana.


Desde que surgiu no cenário de entretenimento mundial, a Netflix tem levado aos seus usuários uma grande quantidade de produções independentes e de premissas um tanto quanto ousadas. Uma das séries de maior sucesso da Netflix é Orphan Black, na qual a protagonista Sarah Manning se descobre parte de uma confusa teia de clones, experiência científicas e espionagem.

A cada episódio, o público é apresentado a novos personagens e novas tramas, que se entrelaçam de forma tão tênue que nunca é possível ter certeza sobre o seu real significado. Ou se até mesmo realmente têm importância para o enredo principal ou se são somente percalços cotiadianos. Da mesma forma, todos os personagens têm suas intencionalidades mascaradas em atitudes dúbias e contraditórias. Quem, afinal de contas, é confiável ou honesto? Até mesmo memórias e percepções se mostram invalidadas ao decorrer da trama.

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Parece familiar? Para quem já leu O Processo ou A Metamorfose, ambos de Franz Kakfa, com certeza. Do ponto de vista narrativo, acordar pela manhã e se descobrir um clone não é tão diferente assim de se perceber inseto ou vítima de um processo burocrático de origens e motivos que nem mesmo o próprio réu conhece. Em todas as obras, uma única afirmação é sempre verdade: o que parece impossível só o é quando nos é desconhecido. A semelhança é tanta que a realidade fantástica da série, repleta de reviravoltas e acontecimentos surreais, se encaixa como uma luva na concepção kafkiana, que se origina justamente na obra do escritor tcheco.

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A realidade concreta e as formas de ficção mudaram muito desde que Kafka tornou Gregor Samsa o mais famoso inseto da literatura mundial. Mas a fascinação pela natureza da trama não. O enredo que seduz o público por relevar tudo ao mesmo tempo em que não explica nada continua atraindo fãs ao redor de todo o mundo. Se em folhetins ou em streaming, fica ao gosto do freguês.


Aline Cabral

Libriana que não consegue decidir se prefere palavras escritas ou conversas de botequim. E por isso pede os dois. E com uma xícara de café quentinho, faz favor.
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