Aline Cabral

Libriana que não consegue decidir se prefere palavras escritas ou conversas de botequim. E por isso pede os dois. E com uma xícara de café quentinho, faz favor

Todo o rio que corre por dentro

A mente de pessoas introvertidas se comporta de um jeito particular e cria um mundo particular com a realidade que se vê – e a que se pensa


Quem já assistiu O fabuloso destino de Amélie Poulain sabe grande parte das sensações, experiências e ideias se passam na mente da protagonista que vive em um mundo à parte da agitada Paris em que reside. Ela sofre, chora, ri e sonha com um emaranhado de sentimentos e ações que não são visíveis a não ser ao narrador onisciente. A ‘estranha’ Amélie pode parecer caracterizada aos olhos de pessoas extrovertidas, mas o comportamento da moça pode ser mais do que familiar a quem, assim como ela, possui uma mente introvertida.

No dia a dia, é muito comum ver uma pessoa conversar bastante e dizer que ela é extrovertida. E talvez o seja. O que não se sabe, no entanto, é a forma como a introversão realmente se manifesta em uma pessoa. E isso é bem mais complexo do que o simples de fato de ser falante ou animada. O termo encerra uma série de circunstâncias e características que foram um tipo psicológico repleto de sutilezas.

A tipologia surgiu na década de 1920, quando o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung apontou as duas formas de organização da mente e identificou que o comportamento na psique muda significativamente em cada um dos casos. Ou seja, a aplicação dos termos vai muito além da indicação de um traço da personalidade ou da forma como um indivíduo se comporta em ocasiões sociais.

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“E a estrada vai além do que se vê” Imagine que o mundo - e todas as informações que ele contém - seja uma mistura líquida que cai como chuva sobre diversos objetos. Cada um desses objetos, por sua vez, está cheio de conteúdos invisíveis e envolto uma por superfície de propriedades particulares, distintas das dos demais itens.

O objeto EN Um determinado objeto é permeável no sentido interior-exterior e elimina seu conteúdo, como a casca de uma laranja deixa passar seu sumo. É claro que nem tudo será externado, mas ainda assim é possível saber o que aquele objeto contém. Uma vez de fora, esse conteúdo é enviado ao mundo e mesclado à chuva de informações que cai sobre o objeto. Nesse momento, o objeto imaginário exibe a confluência do interno e do externo em sua superfície, tornando-se uma parte ativa do ambiente. Se fosse uma pessoa, esse objeto poderia ser classificado como extrovertido.

O objeto IN Já um segundo objeto tem um comportamento diferente. Ele absorve tudo o que o toca e o mistura com seu interior, como se fosse uma massa de bolo crua à qual são adicionados ingredientes variados. Seu interior torna-se, assim, mais denso e tempestuoso do que o dos demais. Por sua superfície, somente uma parte disso consegue emergir – uma parte bem menor do que a do objeto anterior. Nessa superfície peneirada de furos finos, somente o mais fluido e menos complexo irá escapar. Com isso, somente uma fração diferente do total pode ser vista – uma fração, portanto, confusa e pouco esclarecedora. A superfície estável e confusa recobre um interior que pode ser tempestuoso ou calmo, mas que permanece desconhecido à primeira vista. Assim funciona a mente de uma pessoa introvertida.

A pessoa introvertida não só se expressa de maneira diferente, mas ela também compreende o que a cerca de um modo individual. Ela capta informações, sentimentos, ações, e as processa dentro de si mesma. Assim como no oceano que abriga milhares de criaturas, perigos, medos, forças – e tantas coisas mais que nem se faz ideia – o exterior por vezes plácido de uma pessoa introvertida pode ser somente uma casca que não expressa muito de seu conteúdo. Mas isso não significa que uma verdadeira tempestade de emoções esteja acontecendo.

Nossa icônica Amélie é praticamente um retrato da introversão. Ela se apaixona intensa e irremediavelmente, mas sua aparência irradia a agonia de amar com a mesma placidez que expressa as emoções de um dia normal. Seu coração dispara quando ela o vê e ela se sabe caída de amores, mas nem mesmo o rapaz percebe. Entre estratagemas e devaneios, ela vive um romance unilateral que a faz sofrer – mas que, ainda assim, ela não consegue mudar. Como seu amigo de ossos de vidro bem descreve, ‘ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente do que criar laços com aqueles que estão presentes’.

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É claro que nem todas as pessoas introvertidas são assim – ou se comportariam assim nesse caso -, mas a essência permanece a mesma. Mas, para muitos, as emoções se mesclam e se juntam e se organizam com tanta intensidade no coração de tantos não conseguem sair de dentro de si mesmas e transbordar ao mundo que tanto fascina.


Aline Cabral

Libriana que não consegue decidir se prefere palavras escritas ou conversas de botequim. E por isso pede os dois. E com uma xícara de café quentinho, faz favor.
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