Aline Cabral

Libriana que não consegue decidir se prefere palavras escritas ou conversas de botequim. E por isso pede os dois. E com uma xícara de café quentinho, faz favor

Crônica de um dia qualquer

A história daquilo que todo mundo olhou, mas ninguém viu.


São 6h da manhã e meu celular grita no criado-mudo. É hora de acordar.

A manhã de outubro está quente, as cortinas abertas para um céu azul e sol quentinho. Vou até o guarda-roupas e pego uma calça jeans. Olho com desejo para meus vestidos, mas me lembro vividamente da reprimenda da última vez com fui trabalhar com um deles, que foi considerado inapropriado mesmo batendo nos joelhos. Mas tudo bem - é política da empresa ou coisa assim.

Tomo café, escovo os dentes, vou para o metrô. Atravesso a rua logo que saio de casa, evitando a banca cheio de velhinhos de olhar ávido e comentários desagradáveis sobre minha “saúde”. Prefiro evitar passar por ali do que confrontar, eles são de outra geração e é preciso relevar.

No metrô, fico em paz de pé do corredor, ouvindo música e sem realmente pensar em nada. Olho em volta e vejo outra mulher da minha idade, com seios fartos e que parecem ser magnéticos para o homem que está a sua frente. Ela mexe no celular sem perceber a cena e parece acreditar piamente que se tratou de uma queda genuína quando o homem passa por ela e, ao se desequilibrar, esbarra convenientemente em seu busto. Mas quem sabe, talvez tenha sido acidental mesmo.

Desço do metrô, caminho até o trabalho. Tenho um dia cheio pela frente. Talvez eu seja uma pessoa naturalmente otimista, mas tudo parece promissor.

Respondo e-mails, faço ligações, resolvo problemas. Um dia normal no escritório.

Tenho uma reunião no meio da manhã, que corre muito bem. Consigo resolver muitas coisas com o fornecedor parceiro, me sinto satisfeita por ter conduzido tudo sem problemas. No final, preciso validar o uso do estacionamento e, quando vou ao departamento financeiro pedir o selinho de autorização, sou respondida com uma risada coletiva. O responsável recebe dois tapinhas nas costas. “É que você pediu um selinho para ele”, é a justificativa oferecida pelo gerente que, apesar das rugas que indicam mais de 50 anos, me lembra intensamente dos colegas que tive na 6ª série. Homens são assim mesmo, comenta uma colega que estava próxima, me oferecendo um sorriso condescendente.

O dia corrido finalmente tem uma pausa para o almoço. Sento ao lado de uma simpática mulher, um pouco mais velha que eu, com quem troco algumas palavras, quando ela diz: “Você come bastante, pelo visto não tem medo de engordar”. Dou um sorriso simpático e completamente falso enquanto me lembro de dietas malucas, crises de choro e o desespero de ser uma adolescente gordinha. Mas é melhor não pensar nisso. A mulher que ainda está sentada à minha frente não sabe de nada disso e apenas quis dar uma dica amigável, é só isso.

Converso com ela mais um tempo, respondo a algumas mensagens pelo whatsapp. O soninho depois do almoço bate, vou para a área de descanso e me deito em uma das esteiras, ao lado de mais quarenta pessoas, com fones de ouvido tocando The Cranberries. Está meio frio, me inclino um pouco de lado para esquentar. Está tudo ótimo.

Uns 20 minutos depois, uma colega de outro setor me acorda, dizendo que minha calça está um pouco justa e que eu deveria sair dali. Vou com ela e vejo um grupo de "meninos" dispersando. Aparentemente, um deles achou maravilhosa a visão da minha calça justa. Chamou os amigos para ver também. Da janela, fizeram uma rodinha e muitas piadas. Tiraram fotos.

Agradeço a atenção e engulo o choro. Não falo nada com ninguém. Minha colega de equipe não dá abertura para conversas desde o problema com o uso do vestido e que me taxou de “piriguete” aos olhos dela. Um menino da minha equipe mexe no celular e dá risada. Será que ele recebeu a foto?

Tomo uma bronca da minha chefe porque reduzi minha produtividade. Preciso me focar. Vou ao banheiro, lavo o rosto. Converso com uma moça que está lá, encostada na parede, porque está com cólicas e precisa ficar um pouco encolhida para suportar a dor até o remédio fazer efeito. Está calor, mas até seu rosto está arrepiado. É cólica, né, faz isso, mas logo passa.

Volto para a mesa, foco no trabalho. O dia termina, pego o metrô. Já está de noite, então faço o caminho mais longo e que é mais movimentado. O porteiro do prédio me pergunta se já roubaram meu celular por ali e essa é honestamente a primeira vez que penso que ser roubada ali é uma possibilidade. Meu medo do caminho deserto e escuro não tem nada a ver com um assalto.

Chego em casa cansada. Um pouco triste. Penso que meu dia foi bem ruim.

Mas não foi.

Foi melhor do que das doze brasileiras que provavelmente foram assassinadas hoje - talvez mais, considerando que o feminicídio só cresce. Foi melhor do que o dia de 65% das mulheres do país, que sofrem violência doméstica. Não passei um minuto sossegada, mas nenhum de nós passou - pelo menos não mais do 11 minutos, que é o tempo médio em que acontece um estupro.

Não reclamo do dia. Não posso reclamar. Vou reclamar com minha amiga que está sendo chamada de louca pelo namorado porque descobriu uma traição dele ou com a que está em tratamento porque teve trombose pelo uso de anticoncepcionais? Sou uma mulher branca, escolarizada, vivendo em um prédio seguro São Paulo. Vivo em uma bolha de privilégios.

ESSE é um dia bom na vida de uma mulher privilegiada. O dia ruim de uma mulher em situação de desvantagem é um tormento inimaginável para mim. Tenho consciência disso. Mas não consigo abstrair minha própria luta quando meu crush me manda mensagem dizendo que teve um dia péssimo porque passou calor no escritório (as mulheres reclamam, mas não sabem o quanto os homens sofrem com o dress code) e porque está muito dolorido depois do crossfit.

É melhor ir dormir. Quase pegando no sono, levanto assustada para fechar as cortinas. Os vizinhos devem me ver dormindo, como nunca pensei nisso antes?

O dia foi longo.

Amanhã tem outro. shutterstock_1264181554_MwDvuqx.jpg


Aline Cabral

Libriana que não consegue decidir se prefere palavras escritas ou conversas de botequim. E por isso pede os dois. E com uma xícara de café quentinho, faz favor.
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