café contemporâneo

Medidas de vida em colheres de café

Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

Erro de brasileiro ou a presença de uma perspectiva sem futuro

Sejam imagens midiáticas de alta definição ou pinturas a óleo de grandes artísticas do passado, todas capazes de recriar a realidade em um imaginário próprio, o interesse crítico que qualquer imagem provoca encontra-se habitualmente associado à adoção de uma determinada perspectiva. Deste modo, qual seria nossa perspectiva atual face à imagem de um grande “cruzeiro de americanos”, atracado junto às margens fluminenses, frente a um “grande painel de nativos”?


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Às vésperas dos jogos olímpicos do Rio 2016, aportou na baia de Guanabara um luxuoso cruzeiro vindo da Itália e destinado a servir de hotel flutuante para o “time dos sonhos” do basquete americano. “Os astros da LBA, a liga de basquete que movimenta 12 bilhões de dólares por ano, não podiam mesmo ficar na Vila Olímpica, por conta do assédio dos outros atletas e também por causa da segurança”, comentou Ernesto Paglia, em reportagem para o Jornal Nacional da TV Globo de 01/08/2016.

Ilustrando a fala do repórter, uma breve panorâmica aérea apresentava o grande navio atracado no píer Mauá, à espera da delegação americana. Essa imagem parece trazer consigo uma curiosa e reveladora visão: um contraponto pouco sutil entre uma fastuosa embarcação, inteiramente branca e vinda do mar, encorada em litoral brasileiro, enquanto sobre ela recaem os olhares atentos de nativos, cujas faces enormes e coloridas encontram-se perfiladas em um grande painel horizontal.

Um navio aportado em litoral brasileiro, observado por povos nativos de todos os continentes do mundo. Por um momento parecemos presenciar a reconstituição contemporânea de uma das imagens fundadoras de nossa história colonial, a famosa chegada da caravana portuguesa ao Brasil. Para este acontecimento histórico, no entanto, jamais existiu imagens fotográficas, documentos digitais, ou algo qualquer que o documentasse com algum lastro de veracidade. Tal imagem histórica nasceu, de fato, do imaginário artístico de grandes nomes da pintura brasileira, e entre eles, podemos pensar em Oscar Pereira da Silva e Cândido Portinari. Sejam registros digitais de alta resolução e realismo ou composições plásticas que recriam a realidade em um imaginário próprio, rico em cores e texturas, o interesse crítico que as imagens provocam encontra-se habitualmente associado à adoção de uma determinada perspectiva. Notemos a obra Desembarque de Cabral em Porto Seguro, por exemplo, composta em 1922 por Pereira da Silva, pintor carioca e aluno da Academia Imperial de Belas Artes.

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Encontramos uma iconográfica imagem da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, e que ainda hoje permanece como a mais popular representação desse episódio de nossa história. Produzida em ocasião das comemorações do centenário da independência, a obra de Pereira da Silva virá tão logo à nossa memória enquanto observamos o “cruzeiro de americanos” atracado no píer Mauá, frente ao “grande painel de nativos”. Isso se dá não apenas pela popularidade daquela obra plástica de 1922, mas em razão da atualidade política e social de seu tema e da perspectiva primeiro-mundista que o quadro histórico de Pereira da Silva privilegia. Penso, então por que deveríamos nos lembrar da obra magistral de Portinari, de 1956, também intitulada Descobrimento do Brasil? Pois devemos, principalmente por trazer uma outra, nova e necessária perspectiva crítica. É do lugar ocupado pelos índios, ou pelos nativos de todos os continentes, que se tem um diferente horizonte do evento celebrado.

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Em Portinari, vemos em primeiro plano mãos indígenas a apontar a nau lusitana, lanças em riste e a tristeza agônica de uma criança amedrontada, esta recoberta por uma opacidade azulada que parece anunciar, se dirigindo ao futuro, sob uma melancólica consciência voltada para frente, em direção ao lugar que ocupamos como observadores do quadro, a grande tragédia que se abaterá inviolavelmente sobre os povos nativos das Américas durante os séculos seguintes aos descobrimentos. Hoje, os conquistadores são os milionários jogadores norte-americanos, que verão, por sua vez, ao se deslocarem do porto fluminense em direção ao centro de treinamento do Clube do Flamengo, o fabuloso grafite “Etnias”, um imenso painel de 2,6 mil metros quadrados, idealizado pelo artista plástico brasileiro Eduardo Kobra.

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A obra, também intitulada “A paz entre os povos” ou “Todos somos um”, encomendada para a Olimpíada do Rio, impõe-se como um gigantesco mural multiétnico, em que faces humanas, retratadas sobre uma superfície quadriculada de cores vibrantes, ganham destaque pelos exuberantes detalhes e traços de expressão. As cores fortes e em abundância parecem revelar uma vivacidade ancestral, que, durante a Olimpíada e enquanto o mural lá estiver, certamente fascinará os desacostumados olhares cariocas ou estrangeiros. Estes passantes habituados ao opaco e quase monótono cromatismo urbano, aos tons terrosos das periferias, ou mesmo aos neons ofuscantes das paisagens noturnas dos grandes centros, encontram-se tão mais distantes do que se imaginam de uma diversidade étnica e cultural, soterrada pelo progresso econômico e pelo sucesso alienante da indústria do consumo. A beleza desse impressionante painel não se faz pelos pequenos fragmentos multicoloridos que o constituem, e que parecem refletir a condição de tais sociedades tribais, fragmentadas e diminuídas em todos os continentes. Sua beleza está na tentativa artística de unir todos os continentes, étnica e culturalmente, sem discriminação ou distinção, fazendo de um grande espaço físico o lugar onde as faces marcantes de povos distantes possam se interligar e compartilhar de uma mesma e múltipla matéria humana, esta representada por uma paleta multicolorida de grafites, pelo encontro cromático de diversos tons e texturas, harmoniosamente vibrantes, e que resultam em uma totalidade que jamais anula as luminosidades próprias de cada componente visual.

Para Kobra, a intenção do painel é falar “da união das tradições, das culturas, dos costumes, dos povos”. Trata-se de um mural, como muitos outros do artista, que se propõe, sobre os muros de um mundo de tantos conflitos e intolerâncias, falar sobre a paz, fazendo de seu traço uma mensagem de tolerância e convivência. Esse painel teve como pano de fundo a representação do espírito olímpico, a união entre os povos de cada um dos cinco continentes simbolizada pelos anéis olímpicos. Todavia, o trabalho de Kobra torna-se mais eloquente quanto mais penetrante se torna o olhar dos nativos representados, cada um deles sob um efeito cuidadoso de luz e sombra, cujas faces parecem adentrar o espaço urbano, sob um interessante efeito de trompe l’oeil (“engana o olho”), em que o desenho parece adquirir tridimensionalidade e uma surpreendente ilusão de volume.

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Nada é tão vivo e impactante quanto os olhares escuros e vítreos desses nativos. Olhares que parecem se comunicar, refletindo, sob um sutil brilho lacrimejante, o mesmo ressentimento impresso nas faces dos nativos fotografados pela artista Claudia Andujar.

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Em Horizontais, Andujar apresentou uma sequência de retratos de índios de uma tribo ianomâmi, feitos no início da década de 1980. Em ocasião de um levantamento das condições de saúde e vacinação da tribo, Andujar fotografou-os usando pequenas plaquetas com números de identificação. Não possuíam nomes próprios naquela época. Por viverem em pequenas comunidades, apenas a identificação por grau de parentesco era suficiente entre eles. Esse trabalho se transformou numa série, intitulada “Marcados”.

É curioso observar que tanto o enorme grafite “Etnias”, de Kobra, quanto a série fotográfica de Claudia Andujar, nascem sob um forte e contrastante realismo em preto e branco, que parece melhor significar a condição sociocultural oprimida e cada vez mais desterrada desses povos. No entanto, diferente de Andujar, Kobra recobre este primeiro esboço de desalento com cores vibrantes, que parecem assumir o sentido de celebração, uma celebração por um lado hipócrita e primeiro-mundista, satisfeita com festejar uma ideia historicamente impossível de união entre raças e culturas, e se fazendo, por fim, tão falsa quanto uma máscara a recobrir as marcas de um tempo imperioso que há séculos repousa sob as faces desses nativos, sinais indeléveis da passagem de cinco séculos de descaso, preconceito, exploração e etnocídios, componentes fundamentais dos grandes empreendimentos coloniais que abalaram profundamente o terceiro mundo. imagem 7.jpg


Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte..
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