café contemporâneo

Medidas de vida em colheres de café

Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

A Bela e a Fera além dos estúdios Disney: as origens literárias de uma das mais cativantes histórias de amor do cinema

Antes de se tornar uma das animações mais celebradas dos estúdios Disney, com indicação ao Oscar de Melhor Filme em 1992, e um dos lançamentos cinematográficos mais aguardados de 2017, a história de uma bela jovem que se apaixona por uma temível fera já havia conquistado muitas gerações de crianças e adultos por todo o mundo.


Poucos clássicos da Disney tem uma história tão rica e envolvente quanto A Bela e a Fera. Uma narrativa que atravessou séculos e passou a fazer parte do imaginário de leitores e plateias do mundo todo, encantados com a história da jovem e bela camponesa que descobre em um gentil monstro um amor compassivo e verdadeiro. Um conto tocante e poderoso, que fala não apenas sobre casamentos arranjados, aqueles enfrentados por muitas jovens esposas há séculos, mas principalmente uma romântica aventura sobre o amor que precisa superar aparências terríveis para se realizar verdadeiramente.

Beauty and the Beast Mercer Meyer.jpg

Diferente de muitos outros contos de fadas, colhidos da tradição oral pelos irmãos Grimm ou por Charles Perrault, A Bela e a Fera se tornou um clássico em meados do século XVIII, por meio das sofisticadas versões de duas nobres damas francesas. E talvez esteja nisso um primeiro indicativo da grande força do protagonismo feminino nesse conto.

Em sua primeira e menos conhecida versão literária, escrita em 1740 por Madame de Villeneuve, Bela é uma jovem que, desde sua chegada ao castelo da fera, passa a sonhar constantemente com a figura de um príncipe, por quem se apaixona imediatamente, e cuja imagem passa a ver estampada em quadros espalhados pelos aposentos. Nesta versão, Bela acredita que o príncipe está aprisionado nas masmorras do castelo. Seu coração jamais pertencerá à fera, pois está preso às fantasias e aos sonhos que projetam um casamento perfeito com o noivo enclausurado.

800.f6.3.7.par.walter-crane.jpg

A versão mais celebrada, por sua vez, e que mais se aproxima das adaptações cinematográficas modernas do conto, foi escrita um pouco depois, em 1756, pelas mãos de Madame Jeanne-Marie Leprice de Beaumont. Nesta clássica e influente narrativa, Bela não tem qualquer ideia de que sob a pele de um monstro terrível está um bonito príncipe enfeitiçado. O que surpreende e fascina nessa versão é seu foco no convívio da jovem com a Fera, no qual vê nascer, com sutileza e encanto, um amor sincero e gentil sob os grossos pelos de um ser tão pouco atraente.

Ambas as versões francesas, vale lembrar, beberam de uma tradição de mitos e lendas cuja fonte remonta à antiga Roma do século II d.C., ano de publicação das Metamorfoses de Lúcio, ou O asno de ouro, escrita por Apuleio de Madaura. Nesta série de peripécias em latim, encontra-se a mais antiga versão conhecida de A Bela e a Fera, a famosa história de Eros e Psique.

eros-y-psique-escultura.jpg

Psique era a mais jovem das três filhas de um rei. Reconhecida por sua beleza incomparável dentre todas as mulheres, a heroína acaba por despertar a ira da deusa Vênus, que envia seu filho Eros (Cupido) a fim de se vingar da bela mortal. Sob influência da magia do deus do amor, o castigo da jovem seria apaixonar-se por um homem desprezível. Todavia, é o próprio Eros quem acaba apaixonado por Psique. Instruídos por um oráculo, os pais de Psique a levam para um rochedo onde será devorada por um monstro. No entanto, um vento suave (Zéfiro) conduz a princesa até o castelo de Eros. Lá, a donzela encontra-se com o deus, que a adverte que jamais poderá vê-lo, sob pena de perdê-lo para todo o sempre. Mesmo feliz, Psique deixa-se induzir pelas irmãs invejosas, que planejam destruir o monstro com quem a jovem dorme todas as noites. Ao espiar seu amante durante o sono, Psique percebe, entretanto, tratar-se de um belíssimo rapaz. Eros acorda e, sentindo-se traído, abandona a jovem princesa, vociferando repetidas vezes: “O amor não sobrevive sem confiança!”. Psique, então, a fim de reconquistar o amor perdido, se propõe a cumprir tarefas impossíveis, passando por uma longa jornada de privações e sofrimentos, até que, enfim, reconquista seu amado, prova seu valor e reconcilia-se com Vênus, que a transforma em uma deusa. Do casamento de Eros e Psique, nasce o Prazer.

06_nielson_eastrofthesun_sherode.jpg

Não podemos deixar de destacar neste panorama, entre outras tantas histórias ligadas ao universo de A Bela e a Fera, o belíssimo conto norueguês A Leste do Sol, a Oeste da Lua, escrito por Peter Christen Asbjornsen e Jorgen Moe, e publicado em Fairy Tales of All Nations, no ano de 1849. Inspirado em Eros e Psique, de Apuleio, o conto traz como fera a figura de um grande urso branco, que leva para seu castelo, carregada em suas costas, a filha mais jovem e mais bela de um pobre camponês, a quem promete muita riqueza em troca do casamento arranjado. Nesta versão, diferente da clássica versão francesa de Madame de Beaumont, encontramos uma heroína que sai numa jornada em busca de seu amado, enfrentando ao fim uma princesa rival, a qual só consegue vencer porque demonstra seus méritos domésticos. O conto é fascinante, porém se encontra nesse clímax um tanto maniqueísta, tão comum aos contos folclóricos, uma de suas poucas fraquezas, resultando um desfecho explicitamente machista e que parece desdenhar de todos os esforços emancipatórios da jovem consciente de seus desejos e direitos.

beast.jpg

A Bela e a Fera é uma das mais cativantes histórias de fadas justamente por se diferenciar de muitas delas, nas quais as personagens femininas são envolvidas pelo amor do príncipe somente ao final da narrativa, aceitando passivamente o amor cortês do herói que vem ao seu encontro, algo que ocorre com regularidade em versões de Cinderela, Branca de Neve ou nas versões mais conhecidas de A Bela Adormecida. Em A Bela e a Fera, há a afirmação do protagonismo feminino na relação amorosa. Um protagonismo que se equilibra entre ambos, Bela e Fera, que se deixam guiar pela melodia de carinho e cumplicidade que conduz seus primeiros passos no amor. Cabe à Fera, por sua vez, compreender e saber lidar com uma nova sensibilidade nessa relação, reconhecendo os interesses intelectuais de sua companheira, e seus desejos individuais, jamais assumindo uma condição embrutecida e retrógrada de um marido disposto ao casamento apenas para fazer da esposa uma fiel doméstica a seu serviço. É muito importante, portanto, que tais aspectos jamais sejam esquecidos em todas as adaptações deste antigo e sempre contemporâneo clássico, tanto na literatura de hoje, nos palcos da Broadway, ou nas grandes produções do cinema hollywoodiano.


Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Giuliarde de Abreu