café contemporâneo

Medidas de vida em colheres de café

Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

Alias Grace e o martírio feminino

A Graça como serva à expiação dos pecados dos homens. Como "Alias Grace" resgata Cheherazade, Penélope e Susanna e encena o martírio feminino.


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“Decidido a matar todas as mulheres solteiras do reino, após ter descoberto a traição da sua mulher, o Sultão Chahriar casa-se a cada noite com uma jovem diferente que será morta ao amanhecer. Mas a filha do grão-vizir, a impetuosa Cheherazade, decide enfrentar o desafio e interromper este ciclo vingativo, oferecendo-se para a noite seguinte. Noite que se multiplica, assim como as histórias de Cheherazade, adiando sua morte indefinidamente. Até que, passadas mil e uma noites, o Sultão, apaixonado pela envolvente narradora, suspende a ordem cruel”.

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A sinopse acima refere-se a uma das mais famosas antologias da literatura mundial, o Livro das Mil e Uma Noites. Nessa coletânea de crônicas orientais, conhecemos a determinada, justa e inteligente Cheherazade, uma mulher que, mesmo condenada à morte, assume o protagonismo de seu próprio destino e enfrenta com sagacidade a condenação imposta por um rancoroso e cruel governante. Sua sobrevivência não se deve à piedade, mas à astúcia. Sua graça reside no poder encantatório de suas palavras, que pelo ato de tecer históricas seduz e conquista um impiedoso sultão.

Adaptada por Sarah Polley e dirigida por Mary Harron, Alias Grace, minissérie original da Netflix, desvela como protagonista uma enigmática e moderna Cheherazade. Inspirada em um caso real, Grace Marks é uma jovem criada condenada à prisão perpétua por ter sido cúmplice do assassinato de seu antigo patrão e da governanta da casa onde trabalhava, em Toronto, na primeira metade do século XIX.

Durante seis concisos e consistentes episódios, tornamo-nos ouvintes e testemunhas oculares de uma narrativa sempre conduzida pelas palavras de Grace. Envolvidos por sua riqueza de detalhes, por vezes até não nos damos conta de que mesmo flashbacks, fragmentos de passado que parecem atravessar o pensamento das personagens entre um silêncios e outro, nada mais são do que potenciais criações imaginárias. Longe de serem revelações factuais, são sensações de prazer e de angústia com que a própria experiência visual nos distrai. Somos também sultões buscando deleite e catarse na cinematografia luminosa e pungente dessa talentosa adaptação do romance homônimo de Margaret Atwood (também autora de The Handmaid's Tale).

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Aliás, todos os homens que passam pela vida de Grace representam, antes de tudo, a figura de um algoz (em maior ou menor grau de violência e de injúria). Todos são como o Sultão Chahriar de Cheherazade, movidos por um injustificado rancor em relação às mulheres, às submetendo ao seu desejo e à sua jurisdição. Contudo, assim como o sultão, encontram nas narrativas confabuladas por Grace um alento, um meio para expurgar seus anseios mais atrozes. Recalcadas as ânsias por violar, submeter e subjugar, os homens satisfazem em Grace não sua busca pela verdade, mas a busca íntima e primeira pelo prazer e pela afirmação.

Tecendo sua história, Grace lhes entrega o conhecimento de si mesmos; parece devolver a eles o próprio fruto do pecado original. E o faz utilizando os retalhos de seu próprio sofrimento, um martírio que ao mesmo tempo seduz e abranda as fantasias daqueles homens, preciosa catarse à culpa ressentida e um falso perdão que vem por meio de um hipócrita compadecimento.

alias-grace-miniseries-photo006-1495126955164_1280w.jpgEle gosta de imaginar o que eu sofri. Ele escuta tudo como uma criança ouvindo um conto de fadas. Confesso que isso me lembra você, Dr. Jordan. Você era tão ansioso quanto o Sr. Walsh para ouvir sobre os meus sofrimentos.”, diz Grace em determinado momento de seu relato.

Grace, à semelhança de Cheherazade, vinga suas antecessoras, mulheres assassinadas pela injúria e pela violência masculinas, sobrevivendo pela astúcia à opressão de seus algozes. O perdão se faz como fábula, uma mentira dada aos homens para o consolo de sua própria culpa. A Graça, por sua vez, é verdadeira e sacrificial, doa-se em martírio para o deleite de homens cruéis. Tudo é tessitura, verdade e mentira são retalhos que compõe uma mesma história.

Assim como Penélope, a grande heroína de Homero, que para fugir daqueles que a desejavam desposar tece durante dias uma mortalha para o sogro morto, Grace constrói e descontrói, a cada novo ouvinte, os fatos mais escusos de seu relato, adaptando-os aos homens e entretendo-os enquanto sobrevive, protegendo-se com as narrativas tal como um tecido espesso que lhe acoberta não só o corpo, mas as lembranças condenáveis de sua própria alma.

Penelope.jpg Ao final, vemos Grace dar cabo ao próprio cobertor que teceu em suas memórias e que também se fez por meio delas. É nele que reúne os fragmentos do que viveu e sentiu, e com ele, por meio de simbolismos fundamentais, dá o sentido final à sua vida; esta, misteriosa e profunda, como o olhar que não hesita direcionar a nós, seus últimos e mais íntimos ouvintes. Estampada no cobertor, a árvore do Paraíso com bordas de serpente guarda em seu cerne, em retalhos, a lembrança das mulheres que de algum modo vestiram Grace, e que também nelas Grace se encontrou travestida. No vermelho da anágua de Mary Whitney encontra-se o flagelo da primeira menstruação (a sina de ser mulher em um mundo tão hostil), no amarelo desbotado da camisola usada na prisão está o exílio (a solidão incomunicável e o silêncio imposto), e por fim o rosa claro de Nancy Montgomery, a marca indelével da condenação.

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Em Alias Grace, a condenação de uma mulher à morte também é evitada junto à lei dos homens, e tal absolvição dá-se, primeiramente, por um astucioso advogado e, por fim, por um clarividente médico ilusionista. Essa talvez seja, porém, a moral de uma outra história, uma que está sob a perspectiva de um machismo despótico e egoísta, quando apenas um homem pode salvar uma mulher condenada. Uma moral também presente na história bíblica de Susanna, do livro apócrifo de Daniel, uma mulher cobiçada e condenada por homens poderosos, e que encontra sua absolvição junto à justeza de um profeta e de um Deus.

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Muitas pinturas retrataram a cena bíblica de Susanna banhando-se no jardim sob os olhos luxuriosos de dois velhos sábios. Contudo, assim como Grace, sua história fora apenas um motivo escusável para a representação da nudez pudica de uma bela jovem, tornando-se fonte de deleite à lascívia de muitos homens e mulheres ao longo dos séculos XV, XVI e XVII.

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Não por acaso, o olhar que Grace dirige à Susanna, da pintura de Guido Reni (séc. 1620-1625), parece deixar entrever que a surpresa maior não é pelo desconhecimento da história bíblica, mas pela cruel semelhança entre elas, a juventude e a beleza irrevogavelmente submetidas às leis dos homens, enredadas em um cínico processo de objetificação da mulher, exposta e desejada como propriedade.

Se The Handmaid’s Tale projeta num futuro ficcional a exploração e sujeição das mulheres frente a um mundo completamente dominado pelo poder patriarcal, Alias Grace volta a um passado histórico, tornando assim mais palpável, mas não mais palatável, a realidade na qual essas mulheres se encontram. Se no drama de Offred (Elisabeth Moss) poderíamos ainda ter a esperança de que tal realidade pode ser evitada, mesmo que tenhamos já indícios inequívocos de sua possibilidade, com Grace lamentamos o já feito e a história contada passa a nos ensinar mais do que entreter.

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A Graça é um presente, e é sobre o presente que falam essas tão necessárias quanto primorosas séries de TV. Sem dúvida somos as narrativas que construímos, que vivenciamos, que lemos e assistimos. Somos nossas lembranças, mas principalmente, somos o que esquecemos. Assim também é a história da humanidade. O que é lembrado, mas, ou principalmente, também o que é esquecido. Culpada ou inocente, antes de tudo Grace é um espelho, a refletir o que os homens preferem esconder de sua própria condição.


Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte..
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