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Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

De King Kong a Gato de Botas: 8 filmes “ilustrados” por Gustave Doré

Dos filmes mudos de Georges Méliès, passando por adaptações de célebres contos de fadas, e assim chegamos às grandes produções hollywoodianas do cinema de fantasia: 8 filmes para refletir sobre a grande inspiração que as ilustrações de Gustave Doré legaram à história do cinema mundial.


Paul Gustave Doré (1832-1883) é certamente um dos mais importantes artistas do século XIX e talvez o maior ilustrador da história da literatura mundial. Se seu talento incomparável e seu estilo inconfundível podem ser comprovados e aplaudidos em cada uma de suas obras, ricas em contrastes luminosos e formas fantásticas; sua presença no imaginário iconográfico dos leitores mais dedicados no mundo todo também é uma certeza. Seus desenhos possuem uma materialidade plástica inigualável, não apenas acompanhando, mas também ampliando decisivamente as metáforas e os símbolos presentes em grandes clássicos da literatura mundial, como em obras de Honoré de Balzac, François Rabelais, Miguel de Cervantes, La Fontaine, Charles Perrault, Edgar Allan Poe, Victor Hugo, Dante Alighieri, e até mesmo a Bíblia.

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Sendo uma referência iconográfica absoluta para leitores do cânone literário mundial, a obra de Doré também teve imensa importância para várias produções cinematográficas, mostrando que a dramaticidade de suas imagens, ao mesmo tempo deslumbrantes e aterradoras, feéricas e demoníacas, ultrapassa os limites da própria gravura, passando a interagir e a influenciar não apenas a palavra escrita, mas a moderna imagem-movimento do cinema de nosso tempo.

Neste artigo, listamos 8 filmes nos quais podemos encontrar uma porta de entrada para o que há de melhor na obra de Gustave Doré: seu imenso talento para a composição de sonhos ilustrados.

Viagem à Lua (Georges Méliès, 1902)

O primeiro encontro de Gustave Doré com o cinema deu-se graças às fantasias de outro gênio das imagens, o cineasta Georges Méliès. Um dos primeiros realizadores criativos do cinema, Méliès adaptou para o recente cinematógrafo alguns dos contos de fadas ilustrados por Doré, como Cinderela e Barba Ruiva. Mas foi em Viagem à Lua que Méliès compôs uma das imagens mais icônicas da história do cinema mundial: a lua de face humana com um foguete atolado em um dos olhos. Uma imagem que não existiria da forma que está se não fosse inspirada nos detalhes grotescos e também satíricos de uma ilustração feita por Doré para As aventuras do Barão de Münchhausen, o famoso “sol constipado”. lua meliés.png

King Kong (Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, 1933)

A genialidade de Gustave Doré na composição de cenários fantásticos e seu domínio da técnica expressiva do claro/escuro levaram-no a compor, numa plasticidade deslumbrante, desde os terríveis penhascos do Inferno descrito por Dante Alighieri, até a majestosa floresta de Atala, de Chateaubriand. planches d'Enfer Dante.jpg Cenários que serviram de inspiração para a selvagem, misteriosa e gótica “Ilha da Caveira” (“Skull Island”), da versão de 1933 de King Kong. king kong.png

Branca de Neve e os sete anões (Walt Disney, 1937)

Doré tinha apenas 23 anos quando se lançou à difícil tarefa de ilustrar o Inferno de Dante. Entre as 75 gravuras que ilustram o caminhar de Dante e Virgílio através dos círculos infernais, encontramos a imagem de uma floresta sombria, tenebrosa, habitada por almas e harpias. Essa certamente foi a principal referência utilizada por Walt Disney para compor as árvores tortuosas e amedrontadoramente antropomorfizadas da floresta do pesadelo de Branca de Neve. branca de neve.png

La Belle et la Bête (Jean Cocteau, 1945)

Uma das mais belas adaptações cinematográficas da clássica história de Mme. de Beaumont, La Belle et la Bête, do cineasta, poeta e dramaturgo francês Jean Cocteau, é uma das recriações mais sublimes e magistrais do ambiente onírico e fabuloso que envolve a narrativa original, mas que também encontra grande inspiração nos contos de Perrault ilustrados por Gustave Doré. Em 11 de dezembro de 1945, Cocteau escreve em seu diário de filmagens: “Este quarto foi construído no ar, no vazio, no meio dos restos de minha floresta, e dos esboços do meu futuro cenário da fonte. Entre as paredes de velas, invadidas pelo matagal, divisamos uma paisagem incompreensível. O tapete é de relva, os objetos desse mal gosto magnífico de Gustave Doré.”. O filme de Cocteau abraça completamente o “pensamento plástico” de Doré. A luz, a sombra, as folhagens, o mobiliário... tudo nesse cenário incrível do quarto de Belle foi inspirado na gravura de A bela adormecida feita por Doré. belle et la bête.png

Star Wars (George Lucas, 1977)

Quem é o pai de Luke Skywalker, todo fã de Star Wars sabe. Mas quem é o possível pai de Chewbacca, o gentil e irritadiço companheiro inseparável de Han Solo? Uma criatura certamente saída do imaginário de Gustave Doré. Talvez George Lucas tenha mesmo se inspirado no gato de botas... sem botas; mas a aparência de Chew se familiariza muito mais com uma outra personagem, ilustrada por Doré, quase um século antes, para o romance Orlando Furioso, de Ariosto. Star Wars.png Parecidos, não?

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (Tim Burton, 1999)

Estética gótica, deslumbrante paisagem onírica e uma visão de pesadelo. O universo de Gustave Doré certamente dialoga com perfeição com o imaginário de Tim Burton. Desde o castelo de Edward, mãos de tesoura ao país das maravilhas de Alice, o imaginário fantasmagórico do cineasta deve muito aos “cenários” de Doré, sem nos esquecer das gravuras londrinas que serviram para a composição da diabólica barbearia da rua Fleet em Sweeney Todd. dorehoundsditch.jpg

As fantásticas ilustrações para o Inferno de Dante voltam aqui, e encontram eco na “árvore dos mortos”, último reduto do macabro cavaleiro sem cabeça de Sleepy Hollow. sleep hollow.png Do romantismo ao horror, das paisagens lúgubres e brumosas às expressões de horror das aparições, tudo está presente nesse filme, e na medida exata. Sleep Hollow talvez seja um dos grandes filmes de um Burton ainda criativo.

Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban (Alfonso Cuáron, 2004)

Não, Gustave Doré não ilustrou nenhum livro da série Harry Potter escrita por J. K. Rowling. Mas temos que dizer também que não foi J. K. Rowling quem inventou o hipogrifo, aquela criatura incrível, metade águia, metade cavalo. Esse animal fabuloso fora descrito pela primeira vez em Orlando Furioso de Ariosto, obra-prima da literatura cavalheiresca renascentista. E Doré, por sua vez, ao comprometer-se com a ilustração dessa obra, passou a dedicar ao animal legendário numerosas gravuras. Essas parecem ter influenciado definitivamente a concepção de Cuáron, em um dos melhores filmes que a saga Harry Potter legou ao cinema contemporâneo de fantasia. Harry Potter.png

Shrek 2 (Andrew Adamson, Kelly Asbury, Conrad Vernon, 2004)

Gustave Doré fez das ilustrações para a literatura infantil, e especialmente para os contos de Perrault, sua especialidade. Tais ilustrações tornaram sua obra imensamente conhecida do grande público, marcando, de certo modo, todo um imaginário feérico ocidental. Quem não tem na memória a imagem da pequena Chapeuzinho Vermelho descobrindo o lobo mau na cama da vovó? le-chaperon-rouge-2.jpg

Ou do gato de botas, usando um chapéu de plumas e uma capa? Nessas histórias, tantas vezes adaptadas para o cinema, videogames, entre outras mídias, as personagens são reconhecidas já no primeiro olhar.

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Como o matreiro gato de botas de Shrek 2, que reconhecemos mesmo antes de ser anunciado.

Obs: este artigo tem como principal referência a publicação intitulada “12 films qui s'inspirent de l'œuvre de Gustave Doré”, disponível no site da Cinemateca Francesa.


Giuliarde de Abreu

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