café contemporâneo

Medidas de vida em colheres de café

Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

“Hold the door! What door?”: a moral em Game of Thrones e Westworld

"Game of Thrones" e "Westworld" são narrativas tão violentas quanto sensuais. Talvez seja a combinação bem dosada desses dois aspectos que entretém de forma tão eficaz os fãs das séries. Contudo, elas também fazem pensar. E observar como o universo de uma série dialoga com o da outra pode ser um exercício no mínimo instigante para qualquer fã.


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A HBO, propositalmente ou não (prefiro acreditar que sim), estabeleceu em duas de suas maiores séries um paralelismo fascinante e de funcionamento excepcionalmente elaborado. É instigante observar como elementos da série Game of Thrones povoam com elegância e sutileza o universo da recém-chegada Westworld. Desde exemplos mais evidentes, como as cabeças humanas que aparecem às costas do Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins) em Westworld, numa alusão ao grande salão da famosa “House of Black and White” vista em GOT:

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Ou o broche no casaco do forasteiro Logan (Ben Barnes), que lembra, e muito, a fatídica “mão do rei” usada por alguns personagens da saga de George R. R. Martin:

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Até a reveladora frase “What door?”, pronunciada por Bernard Lowe (Jeffrey Wright) no episódio 07 (“Trompe L’Oeil”) da primeira temporada de Westworld, que nos faz voltar quase de imediato à emocionante sequência final de “The Door”, episódio 05 da 6ª temporada de Game of Thrones.

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Ambas as ficções são tão violentas quanto sensuais, e talvez seja a combinação bem dosada desses dois aspectos que entretém de forma tão eficaz os fãs das séries, forasteiros da TV por assinatura ou da internet pirata, e visitantes assíduos de mundos imaginários tão complexos como estes de Westeros e Westworld. Podemos dizer que a narrativa deste último vem até mesmo, dentre outras reflexões, iluminar questões importantes sobre a própria indústria do entretenimento, numa construção metalinguística muito eficiente.

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Hodor, ou sobre o espiritualismo sacrificial

Durante a 6ª temporada de Game of Thrones, testemunhamos, não sem grande pesar, a morte de Hodor, personagem interpretado pelo carismático Kristian Nairn. Assim como o “Cavaleiro inexistente” de Ítalo Calvino, que não era outra coisa senão sua própria aparência de cavaleiro, cuja armadura apenas recobria um corpo ausente, Hodor é personagem cuja fala e atitudes recobrem uma personalidade também aparentemente ausente. Descobrimos ao final do romance de Calvino que o “Cavaleiro” só poderia saber quem realmente é, afinal, no fim de sua trajetória, quando compreendesse o caminho percorrido e as escolhas e ações que lhe fizeram ser o que é.

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Hodor se reconhece apenas no final de sua trajetória. É à porta da morte, após percorrido um caminho de sofrimento e de sacrifícios, que o sentido da jornada do herói se revela a ele mesmo e ao espectador. Sua identidade pertence à escolha moral que fizera e a qual se manteve fiel o tempo todo, reafirmando-a em atitudes de sincero altruísmo para com seus companheiros. Não importa se guiado por Bran Stark (Isaac Hempstead-Wright) ou não, a escolha de Hodor foi doar-se e se deixar guiar por uma causa, interior e ao mesmo tempo exterior e maior que si mesmo. Sua ação final (“hold the door” – “segurar a porta”) dá ao caminho percorrido um sentido sacrificial, e este passa a constituir sua própria identidade. Hodor identifica-se com aquilo que acredita, e isso passa a determiná-lo. Não é heroico apenas porque se volta ao sofrimento e ao sacrifício quando tal atitude resultará na liberdade daqueles que ama, mas principalmente por se reconhecer pessoalmente responsável pela liberdade dos outros dentro do processo histórico do qual é participante. share-1500454187.jpg

O processo de tomada de consciência moral da personagem está ligado à formação de sua própria identidade, e o modo como tal processo é apresentado na série, não somente revela uma sofisticada coerência narrativa e visual, como também estabelece pertinentes implicações políticas e sociais, que vão muito além das fronteiras dos reinos ficcionais de Westeros.

Na sequência final de “The door” (S06E05), a supressão do tempo cronológico dá lugar aos desdobramentos e às revelações de um tempo subjetivo. Compondo-se de memórias e de delírio, uma justaposição de momentos vindos do passado, mas localizados no presente e afetados por ele, passam a formar no entrelaçamento das situações narrativas uma espécie de intuição do futuro. Hodor encontra-se envolvido por uma série de acontecimentos e ações maiores que sua existência plebeia e que serão responsáveis por determinar o futuro de todo um mundo.

Sua atitude não é direcionada a uma ação exterior a ele mesmo, determinada por uma ideologia política e cultural dominante que, naquele processo histórico, poderia sugerir que para garantir a “bondade”, a “justiça” e a “salvação” da humanidade, seria preciso ser rei ou um cavaleiro de espada flamejante. Tal atitude resultaria um conflito irresolúvel entre o indivíduo comum e a sociedade, dissimulando a responsabilidade que cada indivíduo tem perante a liberdade e a bondade no mundo. Hodor vê-se responsável por uma pequena ação, “hold the door” (“segurar a porta”), que passa a compor não apenas sua fala e sua identidade, mas todas as suas atitudes morais frente à sociedade e aos acontecimentos históricos.

Bernad Lowe, ou o materialismo alienante

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Por outro lado, na sociedade artificial de Westworld, androides tornam-se o simulacro do ser humano guiado e moldado por um poder supremo, um criador de ideologias e de mundos, cujas narrativas envolvem e alienam os sujeitos inseridos e determinados por elas. O programador Bernard Lowe revela-se, em certa altura da série, como pertencente a esse grupo de indivíduos, os chamados “anfitriões”. Sua consciência mostra-se submetida às intenções e determinações de uma outra consciência. Suas memórias e experiências lhe foram atribuídas, dadas a ele em forma de narrativas com as quais se identifica completamente. Bernard encontra-se, portanto, impossibilitado de pensar por si próprio, levado a direcionar seus esforços a algo sempre exterior a si, e com o qual não possui qualquer possibilidade de identificação sincera e honesta.

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Na cena final de “Trompe L’oeil”, em que assassina sua colega de trabalho e amante, Bernard dirige uma ação destituída de responsabilidade pessoal, não há convicção moral em sua atitude, e nem seguirá a ela um sentimento de culpa ou de satisfação, pois não há consciência implicada em sua ação. A responsabilidade foi transferida para aquele que comanda seus atos. Não há liberdade, porque não há consciência da própria existência.

Ou seja,

O que aproxima Hodor e Bernard Lowe é a posição diametralmente oposta que ocupam enquanto símbolos de condutas morais que dizem respeito ao cidadão comum, ou seja, a todos nós, espectadores, que acompanhamos religiosamente e entusiasmados cada uma das séries.

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Bernard Lowe mostra-se uma imagem desoladora do ser humano moderno, que se percebe quase robótico, alienado e sem alma. Suas memórias artificiais, moldadas pela narrativa de um passado construído (inventado, jamais vivido), não é mais que uma engrenagem a manter em movimento a máquina histórica, o que o torna, por fim, um ser social útil. O sétimo episódio da primeira temporada de Westworld nos oferece, portanto, um bom exemplo de como as ligações entre o comportamento humano e seu destino podem ser destruídas pela razão e pela ciência, quando tais faculdades são instrumentalizadas por uma consciência materialista e egoísta que, dominante, nega ao ser humano a espiritualidade necessária ao exercício de humanidade; apaga, imperiosamente, qualquer resquício de alma e, por conseguinte, qualquer possibilidade de sofrimento. Em determinado momento, o próprio Dr. Ford esclarece essa condição “desumanizada” dos androides: “Eles não podem ver o que os ferem”, diz o engenheiro, “poupei-os disso. A vida deles é feliz. De certa forma, a existência deles é mais pura que a nossa. Livre do fardo, do autoquestionamento”.

Em contrapartida, na grandiosa gama de esforços de poderosos reis e guerreiros que habitam o universo de Game of Thrones, Hodor mantém-se fiel ao significado de sua própria espiritualidade. Na sequência final do episódio de sua morte, assistimos ao nascimento espiritual do personagem, momento em que lhe é revelada sua vocação pessoal, quando pela morte toma-se com clareza a consciência da finalidade da vida que lhe foi dada. Enquanto Daenerys Targaryen, Jon Snow, Cersei Lannister, entre outros, desempenham seu papel na construção de um futuro reinado, Hodor segura uma porta e impede que todo esse futuro deixe de existir sem esperança (do verbo “esperançar”).

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“Nosso mundo tem presenciado um tal rompimento de tudo que deveria ligar o indivíduo à sociedade, que se tornou da máxima importância restabelecer a participação do homem em seu próprio futuro. Isso exige que ele volte a acreditar em sua alma e no sofrimento dela, e estabeleça uma relação entre os seus atos e a sua consciência.”, escreveu o cineasta russo Andrei Tarkovski.

É necessário ao cidadão comum a consciência do sacrifício, a consciência da responsabilidade de segurar portas ao invés de ignorá-las ou esperar que alguém mais capaz as suporte. Se negligenciamos nossa espiritualidade, o sofrimento que nos exige admitir nossa responsabilidade e culpa, estamos deixamos para trás as coisas nas quais mais vale a pena acreditar.


Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte..
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