café contemporâneo

Medidas de vida em colheres de café

Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

Imersão e incerteza viva: uma reflexão sobre a arte digital a partir da Bienal de São Paulo em Portugal

Incerteza viva é o conceito que une mais uma vez, agora sob os signos da arte digital contemporânea, Brasil e Portugal. Não só dois países, mas representantes de dois continentes, cujas histórias tão distintas e hábitos muito próprios não deixam, entretanto, de revelar conexões humanas e culturais muito profundas.


Neste segundo semestre de 2017, parte da exposição vista na 32º edição da Bienal de São Paulo chegou à cidade do Porto, em Portugal, e fez morada no espaço museológico da Fundação Serralves. Esse reencontro entre povos e linguagens não poderia ser mais simbiótico, natureza e arte integram-se, nutrem-se, e se questionam mutuamente sob a proposta de uma atenta curadoria, que fez transformar, por meio da ocupação artística digital, o espaço físico e habitável do museu e do seu entorno.

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Uma das expressões artísticas mais instigantes desta interação entre dois mundos, a provocar de diferentes maneiras os visitantes do Parque de Serralves, certamente encontra-se nos pavilhões espalhados pelo entorno do museu. Tais construções foram especialmente concebidas com o talento de jovens arquitetos portugueses com a função de abrigarem algumas das mais interessantes mídias e videoinstalações que passariam pela mostra. Ao todo, cinco obras foram expostas em diferentes pontos do parque, podendo ser acessadas por diferentes caminhos, deslocando assim os visitantes, da condição de espectadores de arte para desbravadores de um novo mundo encontrado quase ao acaso, em meio à paisagem natural, nos entremeios da vegetação preservada.

Próximo ao prédio central do museu, a obra de Gabriel Abrantes, Os humores artificiais (2016), uma videoinstalação envolvida por uma câmara e uma antecâmara circulares concebidas por Diogo Aguiar (Diogo Aguiar Studio).

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Nesse pavilhão, assim como nos demais, a proposta central de conexão entre o espaço museológico e o espaço natural encontra-se plenamente realizada pelo dispositivo digital e arquitetônico mediador, cujo interior se abre ao exterior e se funde a ele, a misturar-se com a relva do entorno, que se faz piso do espaço interno e adentra os grandes vãos circulares.

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Mais adiante, repousado sobre uma superfície de águas calmas, o insólito poliedro espelhado de Carlos Azevedo (DepA) parece resistir à sua própria localização incomum. Abrigando a produção multimídia etnográfico de Jonathas de Andrade, O peixe (2016), o pavilhão deixa-se revelar pouco a pouco, como um peixe sob a superfície de um córrego, percebendo a dissemelhança aguda de sua matéria sólida e assim mesmo a buscar um modo de fundir-se à natureza fluida e horizontal da paisagem natural do lago.

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Seguindo em caminhada pelo Parque de Serralves, outros dois pavilhões, estes de fachadas imponentes, verticais e solidamente fincadas na terra, abrigam mais duas videoinstalações. Sob estruturas alongadas, pés-direitos elevados, colunas e um entablamento que parecem confirmar uma função de templo no ritual da apreciação artística, encontramos no interior da construção de Rute Peixoto (Fala) a projeção da obra audiovisual Gozolândia (2016), de Priscila Fernandes, que assim como seu entorno, também projeta na tela o espaço aberto de um parque natural.

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Entre caminhos centrais e veredas que se entrecruzam e unem os pavilhões exteriores da exposição, encontramos, por fim, entre as árvores do parque a caixa-ponte de Hugo Reis (Fahr 021.3). Metálica e isolada do entorno pelo tecido preto que a encobre, um pavilhão-travessia é criado pelo arquiteto, a oferecer ao espectador um curioso caminho de entrada sem saída, proposta de um exterior pelo qual se acessa um interior desconexo da realidade que o circunda, como se um espaço-tempo distinto nos lançasse a outro sítio, suspenso entre a natureza da qual emerge e o exotismo extravagante das imagens e sons projetados dentro da estrutura midiática, resultantes do trabalho audiovisual de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, Estás vendo coisas (2016).

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Esta obra, ao mesmo tempo intimista e estridente, apresenta acordes radiofônicos que podem ser ouvidos nos arredores do Parque, como um canto de sereia intranquilo a chamar os caminhantes que passeiam calmamente pelo sítio.

Imersão, do vocábulo latino immersio (onis), é sinônimo de mergulho, de submersão, e significa o deslocamento de um corpo para dentro de um meio fluido, de densidade distinta ao meio no qual o mesmo corpo se encontrava anteriormente. Pode, de modo figurado, também significar a entrada de um indivíduo em um ambiente diferente do conhecido mundo habitual, o deslocamento para um espaço estranho, onde se passa a habitar sob uma temporalidade concentrada e completamente singular.

Na exposição de Serralves, a Arte Contemporânea em seu meio digital torna-se um médium de imersão, para voltarmos a um conceito caro aos românticos alemães, ou seja, as obras passam a se realizar na condição de ambiente estético, espaço singular habitável no qual o espectador imerge e participa decisivamente da construção de sentidos.

Poroso aos referenciais externos da paisagem natural, o espaço digital permite sua filtragem, integrando esses referenciais ao interior da instalação e à própria obra exposta, lhes atribuindo novos significados, a tornar sua percepção altamente sugestiva. Tal aspecto pudemos perceber no sensorial e contemplativo Gozolândia (2016), já citado acima, em que o ambiente transcendente e idílico da projeção multimídia, que tem como locação o próprio Parque do Ibirapuera em São Paulo, mistura-se naturalmente ao espaço natural em Serralves.

É, pois, sob os signos da mudança, da passagem, do mover-se entre dois mundos, e da incerteza própria desses deslocamentos, que podemos pensar a presença do fenômeno da imersão, componente estético fulcral à simbiose que se realiza entre as cinco obras digitais, os pavilhões que a acolhem e acolhem seu entorno, e o espaço interior e subjetivo de cada espectador visitante, talvez este o fator mais decisivo na experiência imersiva que tal exposição propicia a todos. A imersão, de certa forma, mostra-se como um dos fenômenos que melhor caracteriza a proposta contemporânea desses artistas, representando, por esta razão, uma das mais importantes conquistas estéticas da revolução digital aplaudida e já muito celebrada nas mostras de arte pelo mundo, como a 32ª edição da Bienal de São Paulo aqui presente nos Parques de Serralves.

A obra de arte deixa de ser, portanto, uma matéria estática emoldurada sobre a parede ou iluminada em um pedestal, e passa a inserir-se em uma situação espaciotemporal única, de movimentos e incertezas, a qual passa a existir nesse estado em razão da permanência digital, que decisivamente tem influenciado as artes no mundo atual.


Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte..
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