café contemporâneo

Medidas de vida em colheres de café

Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

O cubismo e a repetição de formas como legado visual no mundo contemporâneo

As repetições das formas cubistas e seus sentidos enviesados formaram um legado para a contemporaneidade, representando artisticamente o horizonte vertiginoso e alienante que a massificação da informação e a extravagância visual impõem a nós, pessoas comuns, espectadores de remakes e de lucrativas séries de cinema, ouvintes das batidas eletrônicas da música techno, e caminhantes do calçamento aos pés dos grandes edifícios do consumismo moderno.


Considerado por muitos críticos de arte como movimento divisor de águas na história da Arte ocidental, o Cubismo foi uma estética vanguardista que, juntamente aos outros “ismos” do início de século XX, resistiu às influências estéticas da tradição acadêmica, de herança neoclássica, confrontando vigorosamente procedimentos de composição pautados em noções prescritivas, como a perspectiva, a simetria e a modelagem.

Para os artistas de vanguarda, a realização estética deveria se recusar à imitação da natureza, pois tal exercício de composição seria somente uma mera representação inexpressiva de meditados efeitos de ilusão. A realidade plástica devia ser determinada pela expressão criativa do artista. Como dizia Georges Braque, um dos grandes expoentes da estética cubista, “não se imita aquilo que se quer criar”.

Afirmação contundente desse pensamento, o Cubismo apresenta-se como uma criação artística completamente original e provocadora, uma “realidade construída em cubos”, como a compreendeu o crítico Louis Vauxcelles, em 1908. Cubos, volumes e planos geométricos entrecortados determinam formas que se desdobram simultaneamente em vários ângulos no espaço bidimensional da tela.

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Não há naturalismos nas composições, há, por outro lado, a rejeição da distinção clássica entre forma e fundo, desfazendo qualquer noção de profundidade visual realista. A ruptura em relação à tradição, empreendida pelo Cubismo, encontra suas primeiras referências na obra pós-impressionista de Paul Cézanne. Em muitos de seus quadros, Cézanne empreende uma construção de espaços por meio de volumes e decomposição de planos. Para a conquista de uma estruturação sistemática e sensorial dos componentes visuais da imagem, Cézanne opõe-se à agressividade invasiva das impressões da natureza, afirmando a potencialidade de suas escolhas composicionais.

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Cézanne é precursor de um procedimento de decomposição e recomposição da imagem plástica que não será apenas determinante para as duas grandes fases do movimento cubista (as chamadas fases analítica e sintética), mas revelador da evolução de certo “comportamento visual”, que nasce no início do século XX, na chamada “era do jazz”, e se incorpora às estruturas artísticas e urbanas do mundo contemporâneo.

Em artigo publicado na revista francesa Le Cahier Bleu, em 1933, René Guilleré, advogado, poeta e entusiasta das artes visuais, realizou uma interessante reflexão sobre a modernidade da “era do jazz”. Para Guilleré, “Outrora a ciência da estética encontrava conteúdo no princípio dos elementos fundidos (...). A estética moderna é construída tendo como base a desunião dos elementos, aumentando o contraste de cada um deles com a repetição de elementos idênticos, que serve para fortalecer a intensidade do contraste...”.

Guilleré chama a atenção para a noção de “repetição”, que se impõe na arte moderna como uma das formas estimulantes de criação, e algo que definitivamente parece ganhar mais força no espírito contemporâneo dos dias atuais. A repetição, enquanto desdobramento de um mesmo acontecimento no tempo, sublinha fortemente uma organização estrutural que dá a quadros, a filmes, a músicas, e a muitos temas literários publicados em séries de livros uma intensidade crescente, que rompe com a noção de unidade indivisível da obra artística imposta pela tradição clássica. No circuito comercial do cinema hollywoodiano, por exemplo, é comum acompanharmos uma série de filmes de super-heróis (pensemos nas lucrativas franquias da Marvel e da DC Comics), cujos filmes (com algumas boas exceções) parecem só ter razão de existir enquanto produções que vieram na esteira do sucesso de um filme anterior ou que darão continuidade a novos filmes que serão lançados, todos repetindo fórmulas visuais e praticamente idênticas estruturas narrativas.

(vejam abaixo os cartazes de cinema, como repetem formas visuais quase idênticas)

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Voltando ao campo das artes plásticas, a ideia de repetição dos elementos que formam uma única obra atinge seu auge com os desdobramentos da fase sintética do movimento cubista (aquela marcada pelas colagens de materiais e uso de recortes fotográficos), e pode ser observada com mais evidência nas realizações artísticas a partir dos anos 1960. Penso aqui em uma obra desse período, que faz parte de uma série de imagens plásticas realizadas por Andy Warhol, entre 1962 e 1967. Essa série se chama “Death and Disaster Series”, e o quadro Suicide (Fallen Body), de 1962.

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Andy Warhol, na realização desse projeto, tomou de empréstimo a famosa fotografia de Robert C. Willes, publicada na revista Life, que traz a trágica imagem da jovem Evelyn McHale, de 23 anos, após se atirar do deck de observação, situado no 86º andar do Empire State Building, em Nova Iorque, no ano de 1947.

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A imagem retratada pelo jovem fotógrafo choca pela beleza trágica que comunica, e que se evidencia com tamanha potência visual que parece nos fazer ver, no instante fatídico desse acontecimento jornalístico, a mesma paradoxal beleza mórbida e onírica da famosa pintura de Ofélia, de John Everett Millais.

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O corpo de Evelyn repousa sereno e intocado sobre a ferragem retorcida e afundada da limusine. Suas vestes, cuja textura aveludada e o fino corte aristocrático lhe conferem elegância, contrastam seus drapeados aos contornos frios e laminados da lataria destruída. Sob a beleza plácida e resoluta de seu rosto, contínua ao tranquilo gesto da mão esquerda que se aproxima do colar de pérolas, a jovem parece revelar um instante de profunda e melancólica beleza, somente possível porque acontecimento imortalizado numa fotografia face à passagem irreversível da destruição e da morte.

O trabalho que Warhol realiza recorta e repete exaustivamente o acontecimento visual retratado na fotografia de Willes. Warhol subtrai da imagem original seu aspecto trágico, à medida que impõe, no processo repetitivo de reimpressão da imagem original, o apagamento da individualidade do fato visual e de sua singularidade, criando, por meio da justaposição de suas duplicações, um novo efeito de sentido, que poderíamos interpretar como uma representação gráfica do processo contemporâneo de massificação da imagem até sua diluição completa dentro de um todo, cujas fronteiras passam a determinar formas esvaziadas que passam ter seu sentido construído na relação com as formas seguintes, contíguas e também formas anteriores, formando um emaranhado estrutural de acontecimentos, os quais não se distinguem autônomos senão como peças de uma engrenagem artística que põe em movimento, às vezes desenfreado, uma experiência visual descontínua e heterogênea.

O procedimento de repetição, que se consolida como uma das características da estética cubista, encontra por fim desdobramentos até na atual paisagem urbana dos grandes centros comerciais. Uma grande avenida vista à noite pode se tornar um claro equivalente, por exemplo, dos procedimentos plásticos adotados por Georges Braque, pois nela fica evidente a ausência de perspectiva e de singularidade das imagens visuais, que parecem fazer parte de um todo fragmentado e que não aparenta não ter início ou fim.

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As fachadas comerciais reluzem em neons multicoloridos, fragmentando os recortes arquitetônicos com uma justaposição de outdoors, logotipos luminosos e placas, compondo retângulos, quadrados, círculos que hiper estimulam nossa visão e compreensão do mundo, este recortado em tantos sentidos que se interpenetram e se dissolvem num todo descontínuo e incessante.

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Quando atravessamos as fronteiras dessa arte fragmentada, de repetições e sentidos enviesados, e a compreendemos, passamos a considerá-la como um novo acontecimento artístico, um legado do cubismo à contemporaneidade, que passa a representar crítica e artisticamente o processo vertiginoso e alienante que a massificação da informação em alto grau de expressividade e extravagância visual impõe a nós, homens e mulheres comuns, espectadores de remakes e séries de cinema, ouvintes das batidas eletrônicas da música techno, e observadores, caminhantes das calçadas aos pés dos grandes templos do imperialismo moderno.


Giuliarde de Abreu

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