café contemporâneo

Medidas de vida em colheres de café

Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

Valente: a sexualidade feminina e seu empoderamento no cinema de animação

"Valente", premiada animação dos estúdios Disney/Pixar, surpreendeu ao nos apresentar, lá em 2012, uma princesa de cabelos vermelhos, volumosos e esvoaçantes, às voltas com sua sexualidade e sua identidade feminina, muito distante do estereótipo de donzela delicada com o qual tínhamos nos acostumado durante décadas de animações Disney.


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Quase sempre surpreendente em tudo que produz, a Disney/Pixar apresentou em 2012, com o filme Valente, pela primeira vez em sua história uma princesa de cabelos vermelhos, volumosos e esvoaçantes, muito longe do estereótipo de donzela delicada com o qual tínhamos nos acostumado durante décadas no cinema de animação americano, e que sempre marcou presença nos clássicos contos de fadas que muitos de nós, infelizmente, jamais ouviram antes de dormir.

Em Valente, conhecemos a destemida princesa Merida, do reino de DunBroch, que após descobrir ter que se casar com um dos três pretendentes de clãs vizinhos, decide reivindicar sua própria mão, desencadeando consequências potencialmente desastrosas para o reino, e principalmente para si mesma. Com uma estrutura narrativa alicerçada no conflito entre mãe e filha, o filme Valente põe em xeque as determinações de masculinidade e feminilidade instituídas em culturas do mundo todo, algumas envelhecidas e outras ainda muito atuais. Todavia todas sustentadas em tradições, lendas e mitos fundadores, aludidas no filme por meio da lenda do grande urso Mor’dul.

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Sob um pano de fundo medieval e escocês, Valente apresenta uma sociedade regida pelo patriarcado, em que o rei é escolhido entre os clãs de mesma origem ancestral. Nesta configuração social, o lugar da mulher é ambíguo. A sexualidade feminina, enquanto manifestação cultural, deve corresponder a uma exigência exogâmica necessária às filiações entre os clãs que compõe o reino, sendo seu desrespeito motivo iminente para um guerra entre os grupos. Vale a máxima, “casemo-nos ou nos matemos”, literalmente. A mulher, portanto, tem posição central nas relações intergrupais, contudo, seu valor é de um bem precioso, um objeto de troca, cuja circulação pelos clãs propiciada pelas uniões conjugais amenizam os conflitos fratricidas. Segundo o antropólogo Lévi-Strauss, a mulher emerge com uma espécie de “dupla cidadania”: natural, enquanto alimento para a fome sexual masculina, e cultural, por sua importância na economia de uma sociedade. Merida, ao recusar a imposição do casamento, não toma apenas uma decisão subjetiva e aparentemente egoísta, mas assume uma posição política, contestando a estrutura social patriarcal, legitimada pela tradição. Seu desafio coloca em cheque a integridade do reino e a paz entre os clãs, que ameaçam se lançarem em guerra. Do protesto político à contestação de uma tradição, Merida passa então a rivalizar com a mãe, representante desse ideal de feminilidade instituído.

Esse conflito mais amplo, que nasce do lugar sociocultural ocupado pela mulher, revela-se como desdobramento de uma rivalidade anterior, íntima e subjetiva, entre mãe e filha, na formação da própria sexualidade/identidade, o chamado complexo de Electra, ou o Édipo feminino. A mãe surge como cruel e hostil quando passa a negar à filha o que esta deseja. Contudo, tal desejo não pode expressar-se sem ameaçar a integridade do grupo.

A princesa reivindica o direito, como primogênita de seu clã, de disputar sua própria mão em casamento, e com tal atitude, institui uma posição narcísica que deve ser compreendida por ela e superada. Para Merida, a prática de disparos com arco e flecha configura-se num exercício de liberdade e de prazer. Aludindo à fase fálica do desenvolvimento da sexualidade infantil, podemos pensar na manipulação desse instrumento como algo que simula o prazer sexual encontrado por ela na estimulação de seu próprio corpo.

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Elinor, a rainha, representa a função arquetípica da maternidade e a posição doméstica atribuída à mulher no núcleo familiar. Merida rivaliza com a mãe ao privilegiar o exercício livre de seus desejos, insubmissa a uma posição passiva que se mostra incapaz de buscar o próprio prazer. Ao portar um arco e disparar flechas em um torneio em que ela mesma é o prêmio, Merida permite-se sair da posição passiva de alvo, objeto sexual e bem precioso almejado pelos homens, e assim impõe seu próprio desejo.

A valente princesa acaba por nutrir sentimentos negativos em relação à mãe: o ressentimento pelo impedimento da atividade sexual livre leva ao ódio e à hostilidade e, contudo, ao mesmo tempo coexiste a lembrança de um amor primeiro, afeto por quem foi outrora fonte de alimento, de conforto e de prazer, e que é, também, o exemplo de feminilidade e maternidade a ser seguido.

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Rasgando a tapeçaria tecida por sua mãe, Merida marca uma ruptura na estrutura social vigente e que impõe determinações à mulher. A tapeçaria retrata o pai, enorme, envolvendo em sua extensão todos os filhos menores e segurando a mão de sua filha. Ao passo que a mãe aparece lateralmente, apenas vinculada à família pela mão da filha. Empunhando uma espada, Merida corta o tecido, separando definitivamente a mãe do núcleo familiar. A hostilidade e o ódio presentes na relação entre mãe e filha tornam-se evidentes com o afastamento simbólico da mãe, assim como se afirma, simbolicamente, o poder matrimonial do pai sobre a filha, abrindo a possibilidade do incesto.

Ao incluir o pai em sua fantasia como o outro desejado, que pode lhe oferecer os meios para a satisfação de seus desejos (arco, flechas e espadas), Merida estabelece uma ligação forte com o pai, contrapondo-se à lei do casamento exogâmico, imposta pela cultura, e assim desafiando a própria mãe, rainha e esposa de seu pai. Nota-se, no transcorrer da segunda parte do filme, como o pai, o rei Fergus, inconscientemente, reclama para si a mão da filha (“vocês todos não são dignos da mão de minha filha”) e investe, em desespero, sobre a própria mulher, desejando matá-la.

O conflito real é complexo: Merida não pode negligenciar o papel que o casamento exogâmico representa para a ordem social vigente, mas não pode deixar de questionar as determinações imposta à mulher nesta sociedade; precisa, ao mesmo tempo, resolver as tensões edípicas dentro do núcleo familiar, no qual o pai reclama sua mão e a mãe reprime seu prazer. Merida censura a imposição de um ideal de feminilidade que não corresponde às determinações de seu próprio desejo, reagindo, deste modo, ao feminino construído pela cultura. Entretanto, a princesa precisa, antes de se posicionar frente às questões da cultura, elaborar subjetivamente sua própria identidade perante a sociedade, e para isso se faz necessário a resolução do conflito edípico com a mãe.

Valente representa bem como desde crianças, e principalmente nessa fase, encontramos no imaginário da fantasia e suas imagens simbólicas um meio proficiente para organizar e compreender experiências tão complexas e os sentimentos contraditórios que podem se originar delas. Merida, ao embrenhar-se pelos bosques espinhosos do complexo edípico, encontra-se na casa de uma bruxa (explícita referência às narrativas feéricas). Com o auxílio mágico de uma poção, Merida e sua mãe adentram o espaço simbólico da fantasia, onde esta última metamorfoseia-se em ursa, cuja aparência animal passa a contrastar com sua essência feminina e materna, que ainda se conserva reminiscente. A forma de ursa é fundamental para a síntese do duplo aspecto assumido pela mãe no imaginário de Merida. Na cultura Celta, o urso é animal totêmico que simboliza a ressurreição, além da força e ferocidade. Não apenas símbolo de ferocidade e violência, o urso também se associa à proteção e carinho maternos.

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O aspecto feroz e violento, representado pelo temível urso Mor’dul e que, invariavelmente, eclode no comportamento da mãe metamorfoseada em ursa, caracteriza-se como projeção simbólica da hostilidade internalizada por Merida na sua relação com a mãe, por consequência das inúmeras restrições impostas pela rainha à princesa durante sua educação. Esta ferocidade hostil demarca pungentemente o temor da filha de ser devorada pela própria mãe.

Contudo, é o aspecto materno da mãe-ursa que é privilegiado pela história. Em Valente, Merida se propõe ao resgate da mãe transformada em ursa, rivalizando com o próprio pai pela manutenção de sua vida. Além do resgate de uma feminilidade hostilizada pela tradição, há uma procura mais íntima, um resgate do amor pela mãe benevolente e carinhosa, cuja essência se presentifica nas lembranças de um passado de aconchego e proteção. Esta busca afetiva pelo amor da mãe que ainda persiste e coexiste no mesmo corpo feroz do monstro caracteriza a angústia de perder o amor do ser amado, que, na teoria psicanalítica, sugere uma das possibilidades de desfecho do complexo de Édipo feminino.

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A transformação da mãe em ursa, pelos artifícios mágicos da fantasia, auxilia nesse processo porque diz tudo de forma implícita e simbólica. Merida deve decifrar o enigma da bruxa e assim (re)constituir os vínculos necessários à formação da sexualidade e à sua representação política na cultura. O arco e a flecha deixam de ser meios para o prazer solitário e são substituídos momentaneamente pela agulha e pela linha, apropriação simbólica da feminilidade materna em seu papel ativo, que funciona como metáfora máxima do tecer a própria história. Em seguida, de forma altruísta e não egoísta, volta-se ao arco, à flecha e à espada, que passam a ser instrumentos de contestação política, pois castram a força masculina que deseja sobrepujar o feminino – presente no próprio ato de coroar, ou de certo modo colocar uma aliança de compromisso – vejam que ao final de tudo, é a mãe que retira a coroa e solta os cabelos, assim como Merida nega o casamento arranjado.


Giuliarde de Abreu

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