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Medidas de vida em colheres de café

Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

Uma sinfonia Star Wars: repetição e variação na nova trilogia de Guerras nas Estrelas

E se Star Wars fosse uma sinfonia de Ludwig van Beethoven executada por uma grande orquestra? Certamente a saga iniciada em 1977 por George Lucas tem muito mais de musical além da excepcional e memorável trilha sonora composta por John Williams.


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A grandiosa saga cinematográfica da família Skywalker poderia compor facilmente uma imponente sinfonia espacial. Se considerarmos a trilogia original de George Lucas, lançada entre 1977 e 1983, e a ela somarmos os dois novos e promissores exemplares da saga, Episódio VII – Force Awakens (2015), dirigido por J. J. Abrams, e o mais recente Episódio VIII – The Last Jedi (2017), sob o comando de Rian Jonhson (a mente por trás dos melhores episódios da série Breaking Bad), perceberemos uma forma narrativa bastante coesa, harmônica, e cheia de ritmo, intensidade e impacto.

Em uma sinfonia, a forma musical consiste na interconexão de vários instrumentos e suas sonoridades distintas, executando harmonicamente uma mesma melodia. A Quinta Sinfonia, por exemplo, composta por Ludwig van Beethoven, entre 1804 e 1808, traz nas repetição e variação de suas frases efeitos distintos e muito interessantes para o conjunto melódico. Em sua primeira parte ouvimos a chamada exposição, os elementos da narrativa, seus temas e motivos são apresentados. É aqui que surge o motivo do “destino bate à porta”, o famoso “tam-tam-tam-taaaam”, uma das sequências de notas mais icônicas da história da música. 15f2bc3e6e48d3352b2d77180d77a9e370467f86.png Nesta parte da sinfonia, dois temas contrastam entre si, um mais lírico e suave e o outro heroico e grandioso. Com a entrada de todos os instrumentos, a composição se desenvolve em um “embate”, com Beethoven jogando com todos os temas, colocando-os em tensão: um primeiro surge fortíssimo, em um tom de vingança, enquanto é confrontado por um piano, que também ganha força, mas não consegue sobrepô-lo. O movimento seguinte, e que antecipa o embate final, chama-se recapitulação, com os temas sendo retomados, mas sem conflito dessa vez. Na coda, o trecho da partitura que encerra o primeiro movimento, temos a batalha final entre os dois temas, cuja grandiosidade mobiliza todos os instrumentos da orquestra, concluindo com aquele famoso motivo inicial.

Agora, levando tais conceitos para o universo do cinema, teríamos, pois, uma analogia no mínimo irreverente e curiosa, um meio para destacar os “instrumentos”, os “motivos” e as “variações” que compõem uma verdadeira partitura narrativa e visual nos filmes de Star Wars. Um motivo, ou unidade narrativa, pode aparecer continuamente no curso de uma história: ele é repetido. Em Episódio VII – Force Awakens, por exemplo, encontramos todos os motivos narrativos presentes em Episódio IV – A New Hope: o dróide que foge para um planeta arenoso levando uma mensagem secreta, uma "camponesa" órfã que encontra seu destino na luta contra a tirania, uma arma bélica capaz de destruir planetas, um grande vilão sob uma máscara negra, etc. “A pura repetição, porém, engendra monotonia, e esta só pode ser evitada pela variação”, reconhece Arnold Schoenberg, o importante compositor austríaco. Ou seja, a variação significará mudança, mas mudar cada elemento produz algo estranho, incoerente e ilógico, destruindo a forma básica do motivo. Por isso é preciso que a variação efetue “a mudança de alguns fatores menos importantes e a conservação de outros mais importantes”. E é exatamente isso que vemos em Star Wars.

A abertura da Saga, em Episódio IV - A New Hope (1977), tem início com uma breve sequência de invasão. Imediatamente estabelece-se uma situação de urgência e de perigo frente à grande ameaça representada por um poder sombrio e opressor. Essas primeiras cenas (assim como aqueles primeiros acordes na sinfonia de Beethoven) são marcadas por uma sensação de urgência e agitação, causada por um instinto latente de sobrevivência. A paleta de cores é esfumada e sombria, estabelecendo um fundo contrastante com a luminosidade que envolve uma importante mensagem que deve ser levada para longe, protegida e encaminhada àquele que pode ser uma última esperança de vitória para os rebeldes.

Leia.JPG Episode VII – Force Awakens (2015) repete com eficiência esses mesmos motivos visuais e narrativos, mobilizando gradualmente o sentimento de nostalgia dos fãs, e que culmina na antológica caminhada de um frágil e simpático robozinho por um amplo e inóspito deserto.

Cenas do filmes para artigo Obvious.jpg A repetição dos motivos dá-se, todavia, com variações, principalmente na paleta de cores, que imediatamente estabelece um tom sombrio mais pungente e violento em relação ao filme original de 1977, gravidade esta fundamental para que voltemos a temer pelo destino dos personagens e passemos a nos engajar em uma renovada busca pela esperança.

Slide4.JPG Rey, uma órfã e simples coletora de sucata, assume o papel anteriormente vivido por Luke Skywalker. Apresentando-se como uma forte figura feminina, traz consigo os mesmos traços de personalidade antes vistos na destemida Princesa Leia, presentes desde os primeiros episódios da saga. Nesse novo contexto, Han Solo torna-se um significativo elo entre as duas personagens.

Slide5.JPG Após um início agitado, como vemos também na “exposição” da sinfonia de Beethoven, a saga de Luke segue para um segundo momento. Este mais lento, em que se consolida a imagem do herói, o jovem camponês de origem “desconhecida” que se engaja em uma causa, indo ao encontro da vontade de partir e da consequente fuga do planeta natal, resultando na entrada para uma Aliança Rebelde. Tudo se passa, nos filmes originais, em um tom moderado, contemplativo e sentimental.

O mesmo acontece em Episódio VII – Force Awakens, no qual conhecemos a heroína Rey e a vemos partir de seu planeta para se juntar ao grupo de rebeldes, agora denominado “Resistência”. Assim como a jornada de Luke, a de Rey tem início com o encontro de uma figura que oscila entre mentor e pai, responsável por conduzi-la ao despertar para seu próprio destino.

As sequências da morte dessas personagens auxiliares parecem também construídas em paralelismo. Há um crescente desespero e suspensão da fé nesses momentos trágicos, variando com mais intensidade no Episódio VII, em que se evidencia com mais complexidade visual e narrativa os conflitos internos das personagens.

Slide11.JPG Talvez por trazer a repetição de um dos motivos mais icônicos de toda a saga (o duelo entre pai e filho), tal sequência tornou-se, também, um dos momentos mais celebrados desta nova trilogia.

ben e han.jpg Os motivos são muito próximos aos vistos no Episódio V – The Empire Strikes Back (1980), transferindo o conflito de Luke Skywalker para Kilo Ren, e evocando, não apenas narrativamente como visualmente, a tragédia familiar, algo fundamental à Saga e nostalgicamente revivido nesse Episódio VII.

Slide10.JPG Force Awakens apresenta em seu ato final o primeiro confronto entre Kilo Ren e Rey, e o despertar desta para a força. Fechando a retomada dos motivos presentes em Episódio IV, a protagonista, assim como Luke Skywalker naquele episódio, sente a presença da Força e desperta para seu destino. O conflito dessa vez se faz mais físico e intenso do que no filme de 1977, deixando muito clara a cisão entre os dois lados do embate, e novas perspectivas para o próximo episódio.

Slide7.JPG O que vemos são as variações dos mesmos temas, e é nisso que reside a qualidade da nova trilogia Star Wars, principalmente presente neste penúltimo capítulo, o Episódio VIII – The Last Jedi (2017). A emoção tornou-se a essência dos mais recentes capítulos da saga. Simpatia, indignação, júbilo, revolta. Os temas de Star Wars são matizados pela emoção. E tais matizes são construídos cinematograficamente. Não importa apenas a história contada, mas principalmente, a forma como é contada. Há uma sinfonia de acordes plásticos e sonoros neste último episódio que faz da nostalgia, do reconhecimento e da possibilidade de reviver uma experiência anterior, a fórmula motora para momentos de singularidade, surpresa e fascinação.

Slide12.JPG São elementos que vão aguçando a sensibilidade do espectador, inserindo-o naquele universo pelo afeto e pelas lembranças, com uma piscadela a cada nova referência, e daí então subvertendo-a, propondo um novo caminho, surpreendendo e trazendo o novo de uma forma autêntica e emocionalmente avassaladora.

É curioso como tal fórmula acontece em dois dos momentos de maior intensidade dramática neste último filme da saga. Em um deles vemos Rey adentrar uma caverna escura e se deparar consigo própria em um espelho opaco. Ao mesmo tempo que reencena uma sequência vista em Episódio V, quando Luke depara-se com a cabeça decepada de Darth Vader e que se revela a sua própria, The Last Jedi traz a “revelação” da própria condição órfã de Rey, que vê a si mesma (e sua trajetória) como essência de sua própria identidade (algo absolutamente central nas discussões sobre a subjetividade no mundo atual).

Rey e Luke.JPG E, por fim, uma das sequências mais memoráveis do filme dirigido por Rian Johnson, o embate decisivo entre Rey, Kilo Ren e a imponente figura do Supremo Líder Snoke, um "novo imperador" na Saga. Novamente um sabre de luz, que agora repousa ao lado de Snoke, protagoniza um desfecho completamente inesperado para todos os fãs, integrando ao mesmo tempo a nostalgia de uma cena anteriormente vista em Episódio VI – Return of the Jedi (1983) e a surpresa por ela acontecer nesse novo e inesperado contexto. Pois, mais uma vez o discípulo, ainda enredado pelo lado negro da força, tem seu momento de redenção (ou não?), destruindo seu mestre e algoz, compondo assim, ao mesmo tempo, um momento absolutamente singular e icônico para toda a Saga.

Cenas do filmes para artigo Obvious 2.jpg A repetição é, portanto, um dos elementos estruturais mais poderosos nessa nova Saga de Star Wars. Repetir fórmulas e estruturas narrativas com variações leva a um sentimento de nostalgia, uma experiência que permite revivenciar de um modo completamente novo uma história já contada. Por isso, com a presença antológica de tais motivos e muitos outros, esses novos filmes se afirmam não como meras cópias ou mesmo resultados de uma falta de criatividade e originalidade, pelo contrário, de modo coeso, criativo e autônomo, reencenam dinâmicas fundamentais ao estabelecimento dos arcos dramáticos das personagens, fazendo da relação entre eles um universo completamente novo e vigoroso.


Giuliarde de Abreu

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