café contemporâneo

Medidas de vida em colheres de café

Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

O cinema alegórico de Darren Aronofsky: algumas metáforas e símbolos no filme "A Fonte da Vida"

Roteirizado e dirigido com admirável coesão e sensibilidade por Darren Aronofsky (Réquiem para um sonho, Cisne Negro e o recente Mãe!), Fonte da Vida traz entre seus temas uma instigante reflexão alegórica sobre a condição humana e sobre a ancestral consciência da (in)finitude .


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Fonte da Vida centra-se no drama de Tommy (Hugh Jackman), um neurologista cuja esposa Izzy (Rachel Weisz) encontra-se próxima à morte, vitimada pelo desenvolvimento de um tumor cancerígeno em uma região do cérebro. O homem, atormentado pela iminente perda da amada, vê então nas pesquisas científicas a chance de salvá-la. Tal narrativa desenvolve-se paralelamente a outras duas, que, justapostas, passam a refletir os estados e as ações do casal, ampliando seus dramas pessoais em potenciais metáforas existenciais, e que perpassam reflexões psicológicas, filosóficas e também históricas.

Em uma das narrativas paralelas, ambientada num passado histórico que remonta o século XVI, a Espanha encontra-se dominada pelo catolicismo inquisitorial e voltada para a conquista do Novo Mundo. Construída como uma estória mítica permeada por elementos pagãos, essa narrativa traz o relato da incursão de um conquistador espanhol (Hugh Jackman) pelas matas selvagens e sombrias da América, em busca da árvore da vida, que dará, a ele e à sua rainha (Rachel Weisz), a eternidade.

Na segunda narrativa justaposta, projetada em um momento futuro indecifrável, século XXVI (talvez), apresenta uma bolha gigante de plasma que se movimenta verticalmente em direção a uma estrela prestes a desaparecer (a estrela Shibalba, segundo os Maias). Em seu interior encontram-se uma árvore, prestes a morrer, e um humano (Hugh Jackman), que alimentando-se das cascas da árvore espera o momento da morte ou explosão da estrela, meditando suas lembranças.

Na construção do enredo, os elementos figurativos da imagem realizam-se em perfeito equilíbrio e correspondência com a complexa estrutura narrativa do filme. A fotografia é primorosa em seus aspectos cromáticos e de intensidade. A luz dourada transfere grandiosidade e sacralidade aos elementos que se apresentam na tela, evidenciando o caráter mítico e heroico da história narrada. Pela fotografia se combinam, visualmente, os três espaços narrativos, fazendo com que, por exemplo, a espetacular nebulosa do espaço futuro se delineie no espaço presente pelas refrações da luz sobre as vidraças ou pela visão microscópica de um tecido vivo, contaminando, também, o passado histórico-mítico, culminando no belíssimo símile originado na copa da árvore da vida, iluminada pela luz dourada de um sol crepuscular.

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As estrelas que revestem o espaço futuro são reiteradas pelas velas no espaço passado, como no grande salão onde o conquistador encontra-se com sua rainha, circundado por velas suspensas, mantendo, desta forma, uma fonte de luz primária no espaço. Com um início quase totalmente mergulhado na escuridão, Fonte da Vida desenvolve sua narrativa utilizando focos circulares de luz branca em vários momentos de belíssimos contrastes, apresentando, em seu desfecho, uma explosão luminosa, cuja intensidade praticamente inunda a tela de um branco absoluto. A intensidade da luz branca estabelece, para a construção narrativa, dicotomias temáticas fundamentais, como escuridão x luz; mistério x revelação; imanência x transcendência; amparo x desamparo; medo x paz; ausência x presença; entre outros pares; compondo, pelo tratamento da imagem, uma metaforização visual do movimento existencial de cada ser humano, que parte da ignorância e imanência do mundo físico em direção à revelação e à transcendência vivenciada pela morte, consciência última de sua própria finitude.

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O tratamento visual dado às imagens é realçado pela segura e inventiva condução dos planos e sequências. Planos construídos em plongée (filmagem de cima para baixo) viabilizam a correspondência ou a duplicação de motivos narrativos, amarrando as narrativas paralelas à trama central através de símiles visuais e temáticos (como em cenas em que Tomás e Tommy passam, a cavalo e de carro, respectivamente, por uma estrada, e é mantido o mesmo enquadramento; ou a correspondência entre o movimento de giro da esfera de plasma e o movimento circular praticado por Tommy sob o desenho esférico do piso do saguão do hospital – dado importante para pensarmos na narrativa metafísica como introjeção psíquica dos fatos externos ao sujeito). Em interessante contraponto visual com a extensão dos cenários, os planos detalhes ou primeiríssimos planos também constroem belíssimos símiles visuais. Tal fato justifica-se pelo processo de equivalência simbólica dos elementos de cada sequência narrativa.

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Em Fonte da Vida, a montagem privilegia tais construções metafóricas, combinando os elementos constituintes de planos narrativos diferentes. Encontramos outros belos exemplos desta transição significativa dos planos nas correspondências entre uma árvore e o corpo feminino, em que a extensão rígida e áspera do tronco se transforma na pele macia e lisa da mulher, ou os minúsculos cílios da casca arbórea são substituídos pelos pêlos da nuca feminina.

Bem aplicada ao longo de todo o filme, a bela trilha sonora composta por Clint Mansell (Réquiem for a dream) desempenha, também, o papel de costurar as narrativas, não apenas harmonizando sonoramente as rimas visuais construídas pela transição dos planos, mas construindo interessantes variações do tema musical aplicado à narrativa central, auxiliando na distensão do momento presente em dois momentos tematicamente distintos: no passado mítico-histórico, o arranjo musical incorpora o som de tambores que, além de criar uma atmosfera de suspense e urgência, envolve o espectador em um ambiente tribal ritualístico; no “futuro” metafísico, os tambores são substituídos por instrumentos de corda (violoncelo e violino), que, permeados por momentos de silêncio, constroem uma atmosfera mais calma e plena de espiritualidade.

Utilizando-se das similaridades visuais e sonoras, Fonte da Vida estabelece uma estrutura de narrativas paralelas ligadas ao tema central da busca pela superação da morte. Se considerarmos que o presente narrativo centra-se no drama de um neurologista à procura da cura do câncer, teríamos, portanto, certo princípio de equivalência mantido na elaboração temática das demais narrativas paralelas: o câncer, signo da degeneração da carne e destruição da vida, é reiterado na figura autoflageladora e desumana do inquisidor, quando o vemos embeber com sangue uma vasta extensão do mapa espanhol, em uma clara alusão ao tumor maligno que toma o corpo jovem da escritora, na narrativa principal.

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A correspondência entre Isabel, a rainha da Espanha, e Izzy, a jovem esposa, se revela fundamental para pensarmos na ampliação de significados que recebe esta personagem feminina. Fonte da Vida tem início com uma citação do Livro do Gênese, em que a figura feminina de Eva e a figura masculina de Adão, por terem provado da árvore da sabedoria, são apresentadas como exilados do paraíso, exílio este que lhes impede o acesso à árvore da vida.

No filme, a figura feminina é apresentada como aquela que revela a condição finita da existência humana, mas que guarda em si, também, a possibilidade de superação desta consciência de finitude. A mulher gesta a vida em seu ventre, oferece a oportunidade para o ser humano renascer em uma vida posterior, da mesma forma que nasceu de uma vida pregressa. O motivo da circularidade não apenas representa esta continuidade infinita, mas relaciona-se intimamente à figura feminina: a coroa da rainha e seu vestido, o anel dourado, o centro do ostensório, objeto de adoração religioso do conquistador. O que se mostra fundamental observar é que as protagonistas femininas, todas interpretadas por Rachel Weisz, compreendem a doença cancerígena (em sua face patológica como tumor maligno e em sua face histórica como instituição religiosa) não como uma presentificação angustiante da morte, mas como motivo para se buscar a vida, ou melhor, a consciência de vida, busca esta que se mostra central na trajetória da personagem masculina, que passará do repúdio à morte (“a morte é uma doença, e vou encontrar a cura”) à aceitação da mesma (“eu vou morrer”).

E é neste ponto quando observamos a posição protagonista dada às personagens interpretadas por Hugh Jackman que encontramos o fio central que une fundamentalmente as três narrativas. As estórias paralelas não aparecem datadas e, como vimos, mostram-se impregnadas de projeções e reflexões temáticas originadas da trama central (a narrativa histórico-mítica existe porque foi escrita no presente, incorporando elementos deste tempo; fatos do presente narrativo irrompem na permanência solitária do homem na bolha de plasma). Podemos concluir que Fonte da Vida trata da trajetória de uma única personagem distendida espaço-temporalmente. Tal distensão espaciotemporal permite, portanto, uma leitura alegórica para as narrativas paralelas, revelando-as como desdobramentos filosóficos, psicológicos e históricos de uma personagem que se faz arquétipo da própria condição humana, condensando em si os principais elementos que compõe um pensamento moderno sobre a própria humanidade. Na narrativa lida e, pessoalmente, concluída pelo protagonista, a jornada do conquistador ao novo mundo em busca da árvore da vida, ganha significado de uma busca horizontal (imanente) pela fonte da vida. Esta busca é regida pela compreensão e aceitação dos princípios de feminilidade (o pedido de uma Rainha é o que motiva o conquistador; os exploradores são guiados por círculos; e, não à toa, tal narrativa é, inicialmente, escrita por uma mulher).

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O elemento natural e pagão representa esta feminilidade horizontal, a valorização da Terra como origem da vida que, voltada a uma perspectiva animista de existência, faz renascer o corpo-semente plantado na terra. A raiz horizontal representa uma sustentação imanente, eterna e natural do corpo, cuja alma se quer transcendente. Nos últimos planos do filme algumas dicotomias temáticas são “parcialmente” resolvidas: a Natureza mostra ao Homem que a vida eterna não está fora do corpo ou na sua superação, mas no movimento cíclico de reincorporação dos elementos constituintes do corpo à fonte orgânica natural (belissimamente representado na cena em que florescem os botões de flores no corpo “ferido” do conquistador); o conflito entre a crença pagã na imortalidade mediada pela natureza e a crença cristã na imortalidade mediada pela espiritualidade divina se resolvem apresentando certa crítica aos dogmas concebidos pela institucionalização das crenças em ambas as culturas: assim como o padre é morto antes de alcançar a árvore da vida, também o sacerdote maia se oferece em sacrifício, buscando a morte como forma de culto à divindade.

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Fonte da vida conclui-se com a união do masculino e do feminino, do corpo e da alma, do espiritual e do natural, a comunhão entre a cruz (síntese da trajetória horizontal e vertical do homem) e a coroa (símbolo da completude cíclica, natural e feminina), muito bem representada pelo ostensório religioso. O infinito como existência completa e eterna dá-se no caráter cíclico da representação da vida: o tempo torna-se uma projeção íntima do próprio ser, e que se distende em lembrança e esperança, ou seja, o passado e o futuro não estão em nenhum momento fora de nós, mas constituem definitivamente nossa fonte de vida e existência infinita.

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Giuliarde de Abreu

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