café contemporâneo

Medidas de vida em colheres de café

Giuliarde de Abreu

Com insondável intensidade, a vida se desvela sob todas as formas de arte.

O erotismo e a confusão dos sentidos em "Me chame pelo seu nome"

Poucos filmes representam tão bem o amor erótico (talvez único possível entre dois amantes) quanto "Call me by your name", fazendo-o com uma poeticidade à flor da pele, a estimular os olhares e ouvidos mais dispostos.


call-me-by-your-name.jpg Numa atualidade marcada pela diversidade e pelo choque de paradigmas, muitos filmes de grande público têm levado às telas uma encenação barata e pouco verossímil do amor e do erotismo, ora tratando-os de forma ingênua e sem volúpia, deveras adocicada pelas comédias românticas, ora confundindo-os com uma rasa abordagem do sadomasoquismo, que chega às beiras do cômico e do recato ao mesmo tempo que tenta se levar tão a sério. O outro lado dessa moeda, no entanto, revela uma face muito mais interessante e sedutora. Produções independentes ou à margem do mainstream, como La vie d’Adèle ("Azul é a cor mais quente"), de Abdellatif Kechiche, Habitación en Roma ("Um quarto em Roma"), de Julio Medem, ou o recente e poético Call me by your name ("Me chame pelo seu nome"), de Luca Guadagnino, surgem na contramão desse asséptico erotismo de massas, realizando cinematograficamente não apenas fantasias homoeróticas de jovens a viver um intenso amor de verão, mas indo além, a tocar o lado mais erótico e sensível de qualquer relação verdadeiramente amorosa entre dois humanos. call-me-by-your-name-villa-albergoni-italy-habituallychic-032.jpg Ambientado em um belíssimo “algum lugar no norte da Itália”, Call me by your name envolve seus amantes em uma paisagem bucólica, iluminada pelo calor úmido de verão, numa sinestesia natural propícia ao jogo de sedução que se estabelecerá entre ambos. Tais umidade e calidez mediterrâneas, a maturar frutos carnosos de intenso frescor e sabor, oferecem em vários momentos do longa uma sugestiva harmonia para os sentidos, algo que irá culminar no inevitável e voluptuoso prazer de degustar todas as camadas de um pêssego maduro, como se este representasse a própria boca do amante desejada. É, pois, nessa correspondência confusa dos sentidos que natureza e desejo se fundem, pavimentando o caminho para um envolvimento carregado de erotismo entre Elio (Timothée Chalamet) e Oliver (Armie Hammer), este um vigoroso acadêmico norte-americano que passa algumas semanas na residência de verão da família de Elio, um jovem de aguçada sensibilidade e inteligência.

Há no filme de Luca Guadagnino uma emocional e sincera coreografia dos corpos e dos sentidos a compor o jogo da descoberta amorosa. Elio e Oliver estimulam-se mutuamente, numa sexualidade que aflora e se sacia não apenas pelo toque físico, mas em grande parte pelo imaginário que compartilham. É curioso observar que o primeiro contato entre ambos já estabelece um vínculo íntimo marcado pela surpresa e ao mesmo tempo pelo fascínio. Oliver adentra com desenvoltura o quarto de Elio e logo deixa-se tombar em sua cama. Em seguida, ouvimos o jovem anunciar: “meu quarto agora é seu quarto”, como a indicar, ainda sem saber, que de tal intromissão repentina, sob o sabor da surpresa, resultará um envolvimento erótico entre os dois. É no quarto que maturamos nossos sonhos e desejos, os quais projetam-se insistentemente na semiconsciência dos delírios ou das fantasias mais íntimas e impronunciáveis. call-me-by-your-name-hammer-chalamet.jpg O erotismo é, “antes de tudo e sobretudo, a sede de ser outro”, diria o poeta Octavio Paz. Essa ideia nasce, porém, de um discurso bem mais antigo. Segundo Aristófanes, em O Banquete, de Platão, antes do nascimento de Eros, existiam 3 sexos – o feminino, o masculino e o andrógino. Este último, por ser o mais poderoso, fora cortado e dividido em dois por Zeus, tornando as partes incompletas e infelizes. Desse modo, a vida humana transformou-se em uma permanente demanda da outra parte que falta, da outra metade ou alma gêmea. Quando dois seres divididos por fim se encontram, entrelaçam-se e fundem-se para tentar a perfeição unindo-se para sempre. Dessa união nasce Eros, que busca restaurar a completude perdida. Tal fusão, contudo, é momentânea e impossível de ser mantida, pois os dois jamais voltarão à condição primeira de ser um, restando a tais seres o inevitável sofrimento que virá com a ruptura e a separação. Nessa condição irremediável de existência na qual estão ambos os amantes, não se pode negligenciar o amor de Eros todavia, porque este é o único capaz de realizar o pouco provável e momentâneo estado de plenitude e felicidade, sempre sucedido por uma ausência que passa a demandar, com paixão e ansiedade, a presença do outro de volta. 31-call-me-by-your-name.w710.h473.jpg Poucos filmes representam tão bem esse amor genuinamente erótico (e talvez único possível entre dois amantes) quanto Call me by your name. Eros é a metáfora dessa demanda do outro ausente e realiza-se ao longo do filme compondo sequências fascinantes, cujas camadas de sentido revelam-se numa poeticidade à flor da pele, a estimular os olhares e ouvidos mais dispostos. Elio e Oliver se olham, se falam, se tocam e se comunicam intelectualmente. Tais pontos de contato, pelo simbolismo pungente que carregam, geram metáforas sensíveis a entrelaçar o eu ao outro, algo que vemos, por exemplo, quando ambos passam a dividir o mesmo quadro, sem se olharem, apenas conectados pelo pensamento que compartilham e pela presença sensível que sentem um do outro. me chame 4.JPG Ao tocar variações de uma cantata de Bach ao piano (num sofisticado jogo intelectual de sedução), Elio não apenas estimula a sensibilidade de Oliver, mas desperta nele um desejo afetivo-sexual que reclama as fantasias do belo, do prazer estético, criado por tal requinte artístico e gerador do enamoramento e da paixão entre os dois. me chame 1.JPG Este jogo íntimo e intelectual de sedução faz-se recíproco quando Elio também passa a se deleitar com a leitura dos escritos acadêmicos de Oliver. Sob este aspecto, todas as dimensões da linguagem, da música à palavra, tornam-se eróticas, porque se fazem desejo realizado intelectualmente. Talvez seja na composição cinematográfica desse imaginário erótico que se encontra um dos grandes êxitos de Call me by your name, pois com sutil sensibilidade o longa plasma nos enquadramentos, na textura dos fotogramas, nas cores quentes e sonoridades sugestivamente sensuais as fantasias e os desejos mais íntimos e latentes de ambos os amantes, que aos poucos evolui, principalmente para Elio, num quase desespero pela presença física do outro. me chame 3.JPG Elio e Oliver envolvem-se, portanto, na fantasia e no desejo do belo, a provocarem uma estesia sexual que transforma seus corpos e tudo que os envolve em formas plásticas de arte, como se fossem feitos para serem vistos e apreciados em um fluir intenso de fascínio e gozo. Não à toa, alguns planos conectam-se em um paralelismo sedutoramente revelador, a concretizarem na montagem visual o enlace amoroso que se desenvolve entre os dois jovens, como podemos ver na cena em que o corpo submerso de Oliver é visto por Elio, para em seguida, com o resgate de uma escultura greco-latina, o nu masculino emergir com sensualidade sob o olhar de ambos, fascinados pelo que a arte greco-latina ainda faz aos seres jovens, tornando-os paradigmas da beleza e da sensualidade. me chame 2.JPG O amor erótico entre Elio e Oliver realiza-se, portanto, na correspondência de um desejo intenso, porém antes sublimado, submerso pelas camadas de pudor e hesitação necessárias ao convívio social da época, algo que não se priva de se explicitar no discurso racional de Oliver: "Até agora nos comportamos. Fomos bons. Não fizemos nada que nos envergonhe. Vamos continuar assim. Eu quero ser bom”. Todavia, aceitando as condições dolorosas que o prazer amoroso pode impor, ambos permitem-se trazer à superfície dos sentidos, refratados na carne, os impulsos sexuais que os entrelaçam num envolvimento profuso de gozo e desejo.

“As coisas permanecem as mesmas por mudar”, afirma Oliver em um de seus escritos lidos por Elio. Tal frase antecipa uma das afirmações mais contundentes do amor erótico vivido entre os dois. Um amor que tenta a fusão, uma procura do novo e do diferente no fundir dos corpos que, no momento da entrega, chegam a perder a consciência de si, mesmo sem se perderem de si mesmos, pois se reconhecem momentaneamente “um” sem deixarem de ser inevitavelmente “dois”, algo que culminará na bela frase que dá título ao filme (em certo momento pronunciada por Oliver), e que também intitula o livro de André Aciman, que dá origem ao longa, e cujo trecho destacamos por trazer nas palavras de Elio tal experiência, a qual se confunde entre a lembrança e o desejo: 201712831_2.jpgPorque foi meu jeito de juntar o sonho e a fantasia, eu e ele, as palavras sonhadas da boca dele para a minha e da minha boca para a dele, trocando palavras boca a boca, e aí ele disse baixinho, me chame pelo seu nome e eu te chamo pelo meu, e assim que eu disse o meu nome como se fosse o dele, isso me levou a um reino que eu nunca tinha dividido com ninguém na minha vida, nem antes nem depois”.

Elio e Oliver envolvem-se intensamente, apaixonam-se e vivem um amor de verão sem pudor ou barreiras, experienciando de fato uma autêntica e inesquecível relação erótica, algo que Marzia, a namorada de Elio, antecipa em dado momento, ao dizer saber que o rapaz poderá machucá-la para logo em seguida entregar-se a ele, deixando o medo da desilusão em favor do desejo. Oliver se despede e volta aos Estados Unidos, e da dor da sua ausência resta a Elio a única e feliz presença sensível de tudo o que viveram.

Dessa conclusão prosaica, comum à maioria das relações amorosas realmente intensas, nasce um dos desfechos cinematográficos mais poéticos e arrebatadores dos últimos anos, e que se inicia com um belíssimo monólogo do pai de Elio, em que fala ao filho em dado momento: “Em seu lugar, eu diria: se há uma dor, cuide dela com carinho. E, se há uma chama, não a apague. Não seja brutal com ela”, revelando um misto de afetuosa sinceridade e de um inconfessável arrependimento, terminando por dizer: “Neste momento você está sentindo tristeza. Dor. Não mate isso, não mate junto com isso a alegria que você sentiu”.

Deste modo chegamos, por fim, à sequência final do longa. Elio fala com Oliver ao telefone, numa conversa carregada de nostalgia e lascívia. Ouvimos ao fundo o crepitar do fogo na lareira da sala, para onde Elio irá em seguida, compondo assim uma última, singela e inesquecível metáfora do amor. me-chame-pelo-seu-nome-800x421.jpg Em frente às chamas, assim como quando lemos um poema, o tempo se retrai para que as imagens da lembrança se misturem às coisas sensíveis do mundo ao redor. Elio parece ver através do fogo o corpo quente de Oliver, e no crepitar do lenho o eco do amado a dizer seu nome, algo que parece ultrapassar a dor que persiste, e se faz aos olhos e ouvidos um último abrigo temporário para o desejo. Como diriam tão bem os versos de Alexandre O’Neil: “Na nossa carne estamos/ sem destino, sem medo, sem pudor,/ e trocamos – somos um? Somos dois? – espírito e calor!”.


Giuliarde de Abreu

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