café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

Adaline e o abandono do anos

O medo de ser abandonado faz com que as pessoas se apeguem aos velhos hábitos, velhas pessoas, sentimentos pisados e ciclos que sempre levam ao mesmo lugar: onde elas não querem estar. Isso me leva a pensar que o padrão do filme se repete incansavelmente, o que faz dele uma metáfora fantástica da vida ao ilustrar que abandonamos as pessoas com medo de que elas nos deixem antes.


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Assisti ao filme "The age of Adaline" e tive a breve sensação de receita de bolo com ingrediente especial. Isso porque o âmago do filme lembra alguns de nossos conhecidos, como Benjamin Button. O roteiro é sobre Adaline, que sofreu um acidente e recebeu uma forte carga elétrica em contato com a água. Essa seria a explicação para o que sucede após, quando a protagonista deixa de envelhecer e tem seu fenótipo estacionado aos vinte e nove anos. Adaline não envelhece, não se apega e pouco se afeta. A personagem traz consigo a alma pesada por se envergonhar e temer algo que é intrínseco a ela. Interessante e chamativo é o fato de que em momento algum Adaline se preocupa com o presente, chega a ser paradoxal. Vive intensamente, mas sempre preocupada e certa de que vai perder seus momentos presentes e sua felicidade atual para um futuro breve. Se você também teve uma sensação de Deja vu ao ler isso, bem-vindo.

Li algumas críticas ao filme, as quais incessantemente destacavam a essência aparentemente comum aos expectadores: enquanto todos temem envelhecer, Adaline anseia por isso. Não exatamente por idade, já que ela viveu mais de cem anos, mas anseia sim por expectativas e tem para si que o presente implica a construção do futuro.Acredito, porém, que a essência do filme vá além do que é descrito pela crítica massiva. É um retrato social fidedigno, somos todos assim. As pessoas fazem do presente um reflexo construtivo de um futuro idealizado. Momentos de reflexão interna, aqueles em que você coloca uma playlist "Good vibes" para tocar e interrompe o fluxo de pensamentos e ansiedade, são permitidos raras vezes na semana. Já é conhecido o quanto a rotina ocupa todos os segundos fracionados de cada santo dia e que cada fração dessas tem um plano de carreira para os próximos dez anos.

Com Adaline, não foi diferente. A protagonista muda-se e inventa vida nova a cada década, a fim de despistar qualquer olhar hostil sobre seu não envelhecimento. Trabalha arduamente, estuda, investe, aprende e vive, dentro de relações intensas e breves. Ao fim de cada relação que estabelece, ela inevitavelmente se confronta com o abadono, deixa tudo e parte para uma nova, sem abanos de mão, embora certamente com muitos lenços.

Mas como toda boa história tem um bom clímax, Adaline se apaixona por Ellis. Ela tem carinha de vinte e poucos e ele também, ela sempre teve medo de se envolver por não conseguir envelhecer ao lado de ninguém, e ele quebrou o paradigma, uma espécie de Eduardo e Mônica mais elaborado. O filme é lindo porque mostra que nossos paradigmas só são quebrados quando permitimos que isso aconteça e quando abrimos olhares atentos ao que é novo.

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A vida nos apresenta momentos e pessoas incríveis sem estarmos precavidos, e quando isso acontece, não raramente despertamos nossa Adaline interna. O ser humano, desde os primórdios traçados na análise Freudiana, tem medo do abandono. Nós tememos o envolvimento e o apego prevendo um abandono completamente hipotético. Qual é? Quem foi que disse que todo mundo vai te abandonar na vida? O medo de ser abandonado faz com que as pessoas se apeguem aos velhos hábitos, velhas pessoas, sentimentos pisados e ciclos que sempre levam ao mesmo lugar: onde elas não querem estar. Isso me leva a pensar que o padrão do filme se repete incansavelmente, o que faz dele uma metáfora fantástica da vida ao ilustrar que abandonamos as pessoas com medo de que elas nos deixem antes. Criamos um jogo de adivinhe-quem-vai-abandonar-primeiro, no qual um teme mais que o outro.

Besteira, não entre nessa. Ao exemplo de Adaline, é necessário reconhecer os Ellis que aparecem no caminho. Pessoas maravilhosas aparecem sim, e não parta do pressuposto de que elas vão te abandonar. Você vai conhecer pessoas que te fazem sentir que são amigos de infância no primeiro minuto de conversa, bem como outras que te fazem subir em uma moto em alta velocidade gritando We are the champions para o mundo ouvir. Vai se admirar com alguém que despretenciosamente deixa um brigadeiro na sua mesa da cafeteria ao notar seu nervosismo por tentar decorar um logaritmo qualquer. Então, não vá embora, nem dê de costas ao que te provoca estranhamento para no momento seguinte voltar aos primórdios de uma vida sem graça e nada sua cara. Não se deixe levar pelo ímpeto de abraçar o travesseiro e chorar um rio por mágoas do passado. Suba na moto, invoque sua trilha sonora e coma esse brigadeiro.

A dica do filme está em encarar esses momentos com um sorriso grato. Se você se apegar a esse presente enquanto calcula os anos de amizade ou amor rebelde que viverá ao lado de uma pessoa qualquer, lamento informar que está perdendo a melhor parte. Abrace a oportunidade e se deixe levar pelo bom papo, bom café, filme, sofá ou qualquer outro bom pedaço de vida. Conheça estranhos, busque novas experiências, aprenda com o outro sobre você e esteja atento a esse aprendizado, que é sempre muito válido. Não tenha medo de deixar o passado para viver de novo, amar de novo, tentar de novo. Agregue, não abandone, abone seus erros e siga.Em certo ponto do filme Ellis citou oportunamente um ditado italiano, o qual certamente levarei para a vida. Fala-se que anos, taças de vinho e amores não devem ser contados. Parafraseando os italianos de uma forma realista, aconselho que todos percam as contas de suas vidas, para sempre.


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
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