café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

A vida após Haikais

Você pode adicionar a sua vida o quanto for, mas não deve. Na ânsia por ser o melhor aos olhos da sociedade, poucos olham para a qualidade do que é ser o melhor para si. O mais difícil, maior e mais caro talvez não seja, eventualmente, o que vai te fazer feliz e, cada vez mais, as pessoas perdem a sabedoria dessa seleção de prazeres e escaladas pessoais e internas a favor de paradigmas impostos por um mundo no qual a maioria é pisoteada pelo próprio ego.


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Haikai, ou Haiku, como é conhecido no Japão, é um tipo de poesia Japonesa a qual segue certos princípios e que cada vez mais se dissemina no mundo. Lembro-me da primeira vez que me falaram sobre Haikais, estava no Ensino Médio, e não me fazia sentido algum alguém dispor palavras desprovidas de profundidade (era como pensava na época) em três versos. Essa modalidade poética consiste em três versos que podem estar na vertical, horizontal, desenhados ou não. Segundo o pesquisador Harold Henderson, são pilares da boa prática do Haiku o uso de dezessete caracteres japoneses em três linhas de sete, cinco e sete sílabas, respectivamente. Muitos o consideram uma prática espiritual, outros a dizem infame, e é indiscutível o esforço necessário ao objetivo fadado de um bom Haikai. A conclusão? A falta de complexidade não costuma inspirar.

Pois esses dias me peguei lendo um pequeno livro da poesia Japonesa escrito por Alice Ruiz, que junto a Paulo Leminski, é uma das grandes entusiastas do movimento Haikai no Brasil. Em poucos minutos da leitura, já não via o mundo em volta passar, o vendedor da livraria reclamar do café frio ou até mesmo uma mulher que antes me incomodava por gritar avidamente do outro lado da rua. Nada disso se fazia valer, a simplicidade da poesia tinha me tomado por inteiro e, depois de tempos sem me sentir assim, estava entregue e totalmente submersa não só na leitura, mas adiante: na simplicidade que aquilo me devolvia. Foi um daqueles momentos que fazem jus aos velhos ditados que a beleza está nas coisas simples e os melhores perfumes vêm em pequenos frascos.

Enquanto lia Ruiz, sozinha e em silêncio interno, a felicidade me era fornecida como uma droga, e em doses homeopáticas. Mas acima de tudo, me surpreendi com o fato de um texto colocado de forma tão breve e seca, sem rodeios, pudesse ser tão profundo e causar reações tão escatológicas. Não tardei em falar do livro para todos quem encontrava, dos quais ouvia a mesma reação. Absurdo o quão breve e intenso. Toda essa experiência me levou a conclusão que nossa geração se desacostumou ao simples, fácil e aos não desafios. Quando dicotomiza-se um Haikai, geralmente depara-se com a realidade crua. Nele, a natureza é escarrada pura como é, em um tempo presente e limitado. Sim, tem-se um retrato sem análises, subentendimentos ficam por conta do leitor. E então, a dificuldade em escrever e até mesmo ler esse tipo de Poesia não mora simplesmente nos obstáculos da métrica pré estabelecida, mas vem daquele incômodo que temos quando algo nos parece fácil.

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Dia desses sofria antecipadamente pois já previa a dificuldade em encontrar uma vaga em pleno Domingo na frente do restaurante que iria. Me deparei com uma a poucos metros do destino, e então me assustei. Parei o carro, mas não sem antes me questionar um milhão de vezes do porquê não tinha alguém estacionado ali. Seria proibido? Iriam me multar? Será que era um lugar comum de assaltos? Por fim, me convenci de que eu estava vendo problema onde não tinha. Quem nunca dormiu com a sensação de que aquele problema da firma foi muito fácil de resolver, e que, portanto, esquecera de alguma coisa? Ou desistiu do desafio pela conquista breve? A verdade é que estamos viciados em um ciclo de conquistas valorizadas pelo tempo empregado e, principalmente, complexidade envolvida. Vem daí a surpresa de sermos confrontados com a beleza do que não guarda nada atrás de si. Aquela pessoa bonita pode ser só um rosto bonito mesmo, e não ter nada de traiçoeiro, bem como o fato de encontrar uma joaninha poder não representar sorte alguma, só um inseto escalando a parede do seu quarto. É necessário largar a tendência de sempre esperar o subentendido, a sombra e o que vem depois.

Experiência que remete a essa foi ouvir uma amiga reclamar dos eufemismos e rondas que as pessoas fazem para falar não. Durante uma dura sessão de análise, ouvi em minha terapia que talvez eu não soubesse falar "não" por não conseguir ouvir "não" .A verdade é que as pessoas se desacostumaram a ouvi-lo, puro e seco. Parece rude e cruel de modo que é preferível acompanhar a palavra desculpas. Não posso porque tenho ensaio, plantão, marquei um café, preciso plantar uma árvore, me desculpe, mas não. Pensei muito sobre isso, e pensei o quão mais aliviante é o processo quando se ouve do interlocutor um breve e indolor "não". É muito mais fácil do que escutar a palavra em doses homeopáticas dentro de desculpas vazias, embora todos insistam em tornar algo relativamente simples em uma festinação desnecessária e desgastante.

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O simples é encantador quando se respira fundo e se para o relógio para observar que o bonito não mora só no esforço extremo e as conquistas não se fazem valer apenas da ansiedade e da ambição de acoplar. Você pode adicionar a sua vida o quanto for, mas não deve. É a velha história em se pensar na qualidade do que se faz, e não só na quantidade. Quando nos apegamos aos números, há uma entrega aos vícios de competição. Na ânsia por ser o melhor aos olhos da sociedade, poucos olham para a qualidade do que é ser o melhor para si. O mais difícil, maior e mais caro talvez não seja, eventualmente, o que vai te fazer feliz e, cada vez mais, as pessoas perdem a sabedoria dessa seleção de prazeres e escaladas pessoais e internas a favor de paradigmas impostos por um mundo no qual a maioria é pisoteada pelo próprio ego.

Eu diria, keep calm, meu amigo. Não é para ser difícil. Seus melhores amigos, conquistas e amores vieram espontaneamente, eu aposto. O que é desafio se torna cansativo, e ninguém quer uma vida estafada, do contrário, virão muito mais rugas na estrada. Um dia, todos já fomos orientados a não falar com estranhos. Mas falando com estranhos você conheceu as melhores pessoas que já passaram por sua vida. Nada é absoluto, atente-se, lute, mas que seja espontâneo. No fim, o que se aprende com os Haikais é que o que se vê por trás ainda carrega consigo uma capa simples, embora real e intensa. Deixe a complexidade fora do seu olhar, analise e a empregue quando for necessário. Descomplique, facilite e veja as coisas como elas são na sua essência. Quando aprendemos o que é normal, reconhecemos o problema assim que ele esboça a menor presença. Aprendemos sobre o cor de rosa ao enxergarmos o vermelho e o branco. O sucesso é a forma mais espontânea de quem lida com a vida no âmago do simplesmente. Então, ao se deparar com a escolha entre o desafio e a próxima esquina, vá de simples e garanta uma poltrona, um chocolate e uma janela.


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
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