café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

Poesia, samba e benção

A vida e obra de Vinícius de Moraes vão além: aprende-se que quando se vive, não há opção, nem existe intensidade, ou se entrega, ou deixe os dois pés atrás. A diferença disso para um blasé qualquer é que Vinicius nos ensina a assumir que o fim chega para todas as coisas, e que não é pecado algum reconhecer o findável em qualquer que seja o assunto.


psp2.jpg

Para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza. Será? Era o que pregava Marcus Vinícius de Moraes, o poeta, lá pela década de 60. Sei de Vinícius porque, tratando-se dele, se fala com intimidade e apesar de ainda ser um projeto de gente naquela época, afirmo que de Vinícius não se gosta: se sabe e, principalmente, se vive.

Vinícius de Moraes nasceu, viveu, morreu, virou monumento e objeto. Como diria Saramago, praticamente um objecto quase. Quando se pensa nele, já sabemos de contrapartida que foi tudo, do Itamaraty a Bossa Nova, tem para todos os gostos. Vinicius foi Diplomata, escritor, músico, crítico, poeta, dramaturgo, jornalista, boêmio. Quando o descobri, pensava logo naquele que era de tudo um pouco. Ainda que me faltam preposições a colocar depois desse sujeito, devo acrescentar que Vinícius era também de Rio, Barcelona e Estados Unidos, de Toquinho, Nara Leão, Baden, João Gilberto, Carlos Lyra e Chico, era de pensar demais, viver demais e amar demais. Amou nove esposas e muitas mulheres.

Soube disso ao assistir o documentário "Vinícius", de Miguel Faria Jr., escrito em parceria com Rubem Braga. Foi quando meu amor à segunda vista foi despertado. Mas antes até do amor, Vinícius de Moraes me ensinou algo sobre viver. O que todos sabem sobre ele é que era um eterno apaixonado, amava além de quem era a da vez, amava o sentimento. Era apaixonado por se apaixonar, e, portanto, reconhecia em tudo a vivência extrema antes do fim inevitável. Pensando assim, indiscutivelmente deixou rastros de lágrimas e uma Vinicius Way of Life.

Compartilhava tarefas diplomáticas com as cores de Copacabana e garotas de Ipanema, sua família com a Lapa e os cabarés, a poesia com o boteco e o copo americano da cerveja. Colocou, em suas quatrocentas poesias, versos, métrica, som, e já disse Antônio Cândido, com toda sua propriedade, incluíu nelas o modernismo do cotidiano. Vinícius passava seus dias questionando os dramas sociais da época, o militarismo e, depois disso, se resguardava em um canto de praia, se questionando quem pagariam as flores se ele morresse de seus (tantos) amores.

Porém, sua vida e sua obra vão além. Aprende-se que quando se vive, não há opção, nem existe intensidade: ou se entrega, ou deixe os dois pés atrás. Não se move quando agarrado ao passado, não se anda com destreza com vincos no caminho. Tem-se então, paradigmas de uma vida, vive-se agora, o hoje e o amanhã, e até onde for, porque vai chegar ao fim. A diferença disso para um blasé qualquer é que, diferente da maioria, Vinicius nos ensina a assumir que o fim chega para todas as coisas, e que não é pecado algum reconhecer o findável em qualquer que seja o assunto.

Vinícius ensina, nas entrelinhas, que um dia você vai sair do seu emprego, e se achará mais feliz ganhando metade do salário anterior, seu casamento pode acabar, e então você vai fazer aquele mochilão que sempre quis, o aluguel da casa vai aumentar e você vai ter que procurar outra. Precisará se mudar de cidade, de país, trocar a visão, o restaurante favorito e o tipo de flores que gosta de ganhar. Vai acordar amanhã para descobrir que não vendem mais coca-cola no bar da esquina, acabou, troque de bebida, a banca de jornais fechou, ache outra, o leite terminou, vá buscar mais um litro e emende uma boa conversa com o leiteiro. As coisas acabam, mas há como tirar o melhor proveito disso, a vida é modificável e modelável dentro de suas próprias circunstâncias.

psp1.jpg

Ele coloca em cheque o amor eterno, grita aos sete ventos que seja eterno enquanto dure, ele ama sim, mas prevendo olhares cheios de adeus, assume, divulga e descomplica, as coisas acabam, meu caro. É isso que Vinícius sopra com seus sonetos em nossos ouvidos, o fim chega para o amor, para a dor, para seus valores, gostos, ideias, pensamentos, ciclos e para nós mesmos. Cheguei a acreditar que essa forma de antecipar o final das coisas era medo de perdê-las, mas hoje vejo que não era medo, era anseio. Ansiava por vida nova, ideia nova, página em branco, pessoas novas. O poeta era apaixonado por sentir de novo, repetidamente, e literalmente enxergava recomeços, sem se culpar por desistir, deixar de lado, e fazer algo novo. Por fugir da realidade a que somos habituados, foi tachado de irresponsável, cruel e destruidor de lares. Abandonar nove famílias, deixar empregos, se mudar, começar projetos já pensando nos próximos, isso o fez perder bastante credibilidade. Indo mais a fundo, porém, e observando como o balanço geral foi positivo, sabemos que não houve o abandono que tanto se pregou.

Apesar de se confortar com tudo que acabava, o sentimento dentro dele nunca teve fim. Era o amor eterno, que de paixão virava carinho, amizade ou ainda preocupação peculiar e cativante. Acima disso, dentro do turbilhão sentimental que se estabelecia e se tem explícito em sua obra, tudo nele se transformava. Tônia Carreiro diz que o poeta foi um camarada que viveu de paixões, e de fato viveu, reconhecendo que, a cada tentativa, se encontrava como uma pessoa melhor.

Vinicius se descompôs para se refletir em múltiplas formas de felicidade, se permitindo brechas, erros, consertos e, sobretudo, assumindo que felicidade começa e acaba, mas volta. Por isso, hoje, quando penso no poeta, desconstruo o prévio. Já não o vejo como o que fez de tudo um pouco e sim como aquele que foi de tudo todo. Foi grande em tudo que fez, marcou uma geração inteira, e sua vida, tão gostosa que foi, virou samba e benção.


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/musica// @obvious, @obvioushp //Malu De Falco