café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

A psicologia por trás de Picasso e Tim Burton

Desconstrua-se o quão for necessário para recompor sua mente e as partes de si. Elas são muitas e, a algum ponto, precisam se organizar dentro do que fica, do que vai e do que volta.


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O Brasil recebeu esse ano duas grandes mostras, as quais se encontram em um mesmo ponto: na desconstrução em busca da realidade artística e -porque não dizer- individual. Sabe-se que Burton e Picasso se aventuraram na arte de formas diferentes. Enquanto o primeiro trabalha dentro da estética dark, Picasso se perde dentro de suas formas desconstruídas e reconstruídas, incansavelmente. Um é pós moderno, o outro é cubista. A que ponto se aproximam tanto?

Tim Burton fez filmes excêntricos e na exposição trazida ao Brasil, nota-se toda sua ironia e imaginário trazidos em personagens típicos os quais são anti-heróis e tem sempre um lado negro. Burton se apega ao lado obscuro que todo ser humano tem, o traduzindo através do animado e de uma estética sinistra a qual, ao mesmo tempo, é leve. Por exemplo, ao ilustrar um casal jantando, pinta faces comuns a frente de monstros bizarros. Inevitavelmente, desconstrução da realidade e do ser humano apazigua possíveis ressentimentos quanto a própria auto estima. Tim Burton grita aos quatro ventos que todos, bem como ele, guardam um lado bem feio e que, na realidade, o bizarro é aquele incapaz de achar a monstruosidade dentro de si. A que altura essa estética, colocada com grandiosidade pelo museu da imagem e som de São Paulo (MIS), vai de encontro com o Cubismo do século passado de Picasso?

É sabido que Picasso teve suas fases e, em dado momento, recebeu influências das guerras européias do século dezoito. Entretanto, mais que isso, esteve documentada a seguinte frase do artista: "Mas todos os fetiches serviam para uma coisa só. Eram armas para ajudar as pessoas a não obedecerem mais a mente, para se tornarem independentes, Meras ferramentas. Ao darmos forma a mente, ficamos independentes. A mente, o inconsciente, a emoção, é tudo a mesma coisa. Então, entendi porque era pintor". Observa-se, pois, que na tentativa de domar as próprias ideias, pensamentos, dores e ressentimentos, Picasso se decompunha para, então, se recompor a sua própria maneira, de modo a encarar melhor sua realidade dura, muitas vezes de confusão e guerra. Isso nos leva a crer que seu cubismo, ousado e contemplante que foi, servia ao próprio pintor como uma espécie de psicoterapia auto regrada e mecanismo fundamental para entender a própria mente, as ideias regidas, bem como o doloroso cenário em que viveu.

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Picasso dizia que não retratou a guerra, embora a guerra estivesse presente nos quadros que retratou na época. Acredito, no entanto, que o que foi realmente retratado, além da guerra em si, foi a dor e sentimento que o pintor sentiu diante dos fatos e de todo sofrimento a que assistia.

Temos, portanto, o encontro dos dois artistas ao notar que são obras que provocam em seu leitor sentimento análogo aquele sentido e retratado pelo artista: a decepção Burtoniana com a sociedade pós moderna e a descontrução da guerra e de suas consequências por Pablo Picasso, na tentativa de um rearranjo eufêmico, embora não menos tocante. Ambos projetam na arte uma visão do mundo correspondentes às catástrofes interpretativas que suas duras realidades geravam dentro deles. Como dois bons artistas, permito-me traçar uma intertexualidade óbvia com Clarice Lispector, quando essa diz que foi ao oftalmologista certa vez reclamando ter problemas sempre em um mesmo olho. A resposta que teve do médico não lhe pode ser mais surpreendente: O olho que mais enxerga tende a adoecer com mais facilidade. Ela escreveu uma crônica do episódio, e hoje, muito tempo depois de a ler, vejo com clareza a alma adoecida dos que de fato enxergam o mundo e a vida em suas entranhas.

Em uma fase otimista, por muitas obras Picasso abandonou as formas cubistas e assumiu um realismo franco.Talvez em tempos de paz fosse mais fácil encarar as coisas como elas, de fato, eram, sem ter que traduzi-las em formas apaziguadas. O que se aprende com essa estética da desconstrução? Desconstrua-se o quão for necessário para recompor sua mente e as partes de si. Elas são muitas e, a algum ponto, precisam se organizar dentro do que fica, do que vai e do que volta. Pablo Picasso pregou que a obra que criamos é uma maneira de escrever um dário e não pode ser mais fiel a isso do que foi. Burton se descreve por sua estética. Ambos trabalham seus desarranjos interpessoais e decepções dentro da mais refinada forma de viver: a arte.


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
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