café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

A vida por Mia Couto

A vida te ensina que as pessoas tentam escolher por você o tempo todo, te tomba e faz chorar quando você percebe que colocou tudo no piloto automático e deixou mesmo que os outros escolhessem. De repente, você não reconhece o ponto em que você se abandonou em nome do que as pessoas achavam. Algumas decisões parecem simplesmente impossíveis de serem tomadas, porque elas necessariamente envolvem grandes perdas e ganhos incertos, e mesmo assim, algo te cobra a decisão. É quando a vida te ensina que você vai arriscar e perder, mas que vai ganhar quando menos esperar.


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Mia Couto escreveu um conto em "Estórias Abensonhadas" em que a pequena Novidade Castigo, linda e contradizente aos ditos populares, surpreende ao mundo indo, com a certeza dos velhos e a ousadia de uma criança, de encontro à morte na tentativa de salvar o pai, na explosão de uma mina na qual ele trabalhava. A criança desceu do camboio de resgate em que estava e foi colher flores silvestres, na frente da mina. Louca. Controle a criança, volte, deixe que morra. Falaram, olharam, e lá ela ficou, sozinha. De todos os contos do livro, Novidade foi a personagem que mais me surpreendeu e, de certo, molhou meus olhos.

Acredito que, não coincidentemente, ela era incompreendida pelos que a rodeavam, desde seu nascimento. Era vista como diferente e aberração, o contra padrão do inconsciente coletivo. Mas, no fim das contas, a pequena seguiu seus sentidos, não? Foi condenada e vista como louca. Quem, entretanto, pode questionar o sentido que aquilo fazia para ela, ou a realização interna que suas ações surtiam? Novidade provava ao mundo que não precisava fazer sentido para todos, desde que ela se apossasse da própria vida e vivesse a favor dela. Antes de seus cinco anos, Novidade Castigo tinha em mente e em mãos o que muitas pessoas demoram uma vida inteira a aprender.

Dia desses um amigo meu me ajudava a tirar coisas da geladeira. Iria passar um longo tempo fora, e decidi levar algumas coisas, porém não os ovos. Definitivamente, os ovos não. Ele me pediu um recepiente e papel toalha, e eu neguei balançando a cabeça avidamente, com um discurso imenso de como os ovos iriam quebrar na primeira brecada da viagem. Ele insistiu e eu cedi, enfatizando que se a sujeira fosse feita, ele limparia. Pois assisti pacientemente a colocação do papel toalha no recepiente em movimentos rápidos de modo a formar um suporte macio e seguro para os seis ovos. Ainda, ao ver minha cara de quem foi surpreendida, tive a resposta: quem não sabia fazer aquilo? Eu respondo, coisas que se aprende vivendo.

É só vivendo que se aprende para onde se quer ir, e muitas vezes não sabemos para onde, até irmos. É desse jeito que aprendemos o macete do ovo, e também que certas pimentas queimam mas algumas são boas, que o medo de mudança é contornável ao aprendermos que somos adaptáveis. Você não consegue dar Google em como controlar seus sentimentos depois de terminar um namoro de sete anos, você só aprende isso depois de deitar em uma cama e chorar por um, dois, três ou dezessete meses. E aí você entende que não é igual para todo mundo, e não tem porque querer seguir os conselhos de todos com quem você resolveu desabafar nesse meio tempo.

A vida te ensina que as pessoas tentam escolher por você o tempo todo, te tomba e faz chorar quando você percebe que colocou tudo no piloto automático e deixou mesmo que os outros escolhessem. De repente, você não reconhece o ponto em que você se abandonou em nome do que as pessoas achavam. Você aprende que é necessário saber seu prato de comida favorito, e saber escolher um prato de comida, seja ele seu favorito ou não. Você precisa escolher muitas outras coisas, e algumas decisões parecem simplesmente impossíveis de serem tomadas, porque elas necessariamente envolvem grandes perdas e ganhos incertos, e mesmo assim, algo te cobra a decisão. É quando a vida te ensina que você vai arriscar e perder, mas que vai ganhar quando menos esperar.

Vão quebrar suas partes de vidro, e você vai recolher e colar. Vão te humilhar, e uma hora você começa a ter discernimento de quando é inútil reagir. Você vai escolher não se envolver com algumas pessoas as quais antes você admirava. Vai julgar desnecessárias várias coisas que antes eram fundamentais. Você vai abandonar qualquer necessidade de consumo compulsório, porque vai ser necessário, e vai sofrer muito menos ao perder as pessoas. Vai conhecer alguém incrível, e no minuto seguinte vai se afastar, simplesmente porque isso aconteceu. Você será decepcionado, e também decepcionará.

A vida te torna uma Novidade, maior e melhorada. Ela te inspira, mas faz com que o aprendizado seja na marra, disso a gente já sabe. O que a pequena de Mia Couto nos ensina, no fim das contas, é assumir o controle remoto antes de partir, e entender que não precisamos consultar a nada e a ninguém antes de dar pausa ou play, mesmo que isso implique dar as costas para o mundo e seguir cabisbaixo ou sozinho. Reconheça as fases, levante a cabeça, e guie sua vida com as mãos, tendo um amor ubíquo pelos seus feitos, decisões e apegos. Ande junto ou separado, aprende compulsóriamente, durma por dias, mas decida ser o que você é. Aprenda quem você é. Vá em direção às flores de Novidade, e não deixe de apreciar a paisagem, ou de guardar os ovos.


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
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