café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

Carta aos meus filhos

O medo nunca nos deixa para sempre, ele costuma ficar ao lado. Acontece que, assim como a gente aprendeu a dar os primeiros passos, vamos ficando mais seguros para enfrentar a dor, caso ela venha. E aí passamos a nos sentir seguros sabendo que a dor não vai vir. Ela não precisa estar aí sempre, e nem vai estar.


Thumbnail image for IMG_3844.JPG

O prazo era de duas semanas, no máximo. Um galho de árvore, raíz de árvore, brinquedo no chão, bola de futebol, calçada furada. Não havia comemorativos específicos e lá estava eu no chão, corte novo, sangue, quase nunca muito choro. Do que eu mais tinha medo? Da dor. Não importava a cicatriz, o tamanho dela, tudo isso se tratava de prêmio de guerra. Mas da dor dava um medo danado, e quando o choro vinha e eu tentava engolir, em vão, relutante a todo mundo em volta: eu sabia que era medo.

Certa vez uma amiga me disse, vá lá, chora tudo, não importa a ninguém porquê o choro é seu. Desde então convivo com a dúvida se o choro viria da dor ou do medo. E não é que o tempo passa, a gente fica adulto e continua não sabendo o que é dor e o que é medo? Li dia desses uma reportagem falando que o Brasil tem o maior índice de ansiedade do mundo. Adultos chamam essa sensação da qual estive falando de ansiedade. Se trata de sofrer pelo medo da dor que ainda não veio e que a gente não sabe se vai vir.

Sabe que, às vezes, a vida vem com tudo e a gente tem que escolher entre o medo ou viver. O medo nunca nos deixa para sempre, ele costuma ficar ao lado. Acontece que, assim como aprendemos a dar os primeiros passos, vamos ficando mais seguros para enfrentar a dor, caso ela venha. E então passamos a acreditar que a dor não vai vir. Sabe o medo de cair em terreno acidentado? Então...Nem por isso a gente deixa de subir machu picchu. A gente coloca o tênis e vai lá, morrendo de medo de cair.

Eventualmente você vai cair. Eventualmente e, na verdade, com certeza, você vai sentir dor. Vai abrir o corte, vai sangrar, ficar triste, frustrado, vai magoar bastante. Então, pense que essas coisas acontecem. Pare de se culpar por ter assumido os riscos. Pare de lembrar dos traumas e cortes que já foram, que já aconteceram. Não olhe agora para essas cicatrizes, por mais difícil que seja, é para frente que se vai. Coragem, tá? Pensa que o sangue vai embora rápido. Não arranca a casquinha, não remói passado que a dor piora e sangra de novo. Se precisar chorar, chore. Choro na vida é idiossincrático e ninguém pode te julgar por isso.

Espera, lava ali numa boa. E depois da casquinha vem a cicatriz. Se orgulhe dela e lembre: ela vai estar ali para te lembrar de como ser mais forte da próxima vez. É sempre sua superação. Eu não devo estar longe. Porque se estiver,

Não sou eu,

Não é você,

Não seríamos nós.


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Malu De Falco