café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

Segure seu cérebro

A velha história de que os neurônios não se desenvolvem e seguem em linha reta para a morte neuronal apenas caiu por terra. Os seus neurônios são capazes de responder e se moldar a estímulos que você gera, por uma alteração bioquímica. Você é capaz de modular sua capacidade através de uma mudança de comportamento e de crenças. Se você repetir para você mesmo que quer ser bem sucedido, seu cérebro recebe um estímulo que é convertido em um sinal químico de modo que progressivamente, quando associado a um comportamento coerente, gera um remodelamento. Isso significa que (não milagrosamente) você passa a desenvolver uma mente de sucesso.


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Cinco anos de idade. Minha professora de piano costumava dizer que eu era talentosa. Algum tipo de prodígio no piano. Eu decorava todas as notas, tocava em casamentos e restaurantes, era uma pequena exibicionista. Lembro que ela dizia que eu tinha uma boa memória musical. Aos seis, eu ensinava os alunos mais novos algumas notas enquanto esperávamos pela nossa vez, nossa aula. Aos sete, eu assistia todas minhas colegas na aula de ballet e decidi que o piano não era o que eu queria. Meus pais me persuadiram a continuar, e acredito que, por um momento, cheguei a ser uma grande decepção para as previsões tão acertadas da professora, mas eu desisti (como fiz muitas vezes depois). E aos dezessete, me arrependi (como fiz muitas vezes depois). O curioso foi chegar ao auge de tantos arrependimentos aos dezessete e pensar que uma parte de mim era mais sábia aos cinco. Mais dedicada, mais comprometida, eu realmente sabia o que eu queria? Porque eu me sentia tão mais esperta quando tinha cinco? Aos vinte e cinco, uma faculdade de medicina engrenada em psiquiatria depois, eu vejo que, ao fundo, alguma verdade existia nesse raciocínio, que só hoje consigo explicar (ou acho que consigo).

Todos nós temos o hábito de olhar para trás e acreditar que já fomos melhores, que já estivemos melhores, ou que estamos em franco momento de derrota. Uma escolha errada, aposta errada, mal momento, inferno astral, podemos chamar do que quisermos. Mas o fato nitidamente comprovado nisso tudo é que ao repetir tudo isso a você mesmo, com essas palavras e suas variações, você definitivamente está enfraquecendo, e meu objetivo ao escrever isso é tentar te provar o porquê.

Vamos aos fatos. Quando você recebe um elogio, isso mesmo que minimamente e por falso que soe, faz com que momentaneamente você se sinta mais confiante. O elogio ecoa na sua mente, percorre seus neurônios, ativa algumas vias e alguns neurotransmissores e muda sua postura. Você pode ficar mais ereto, fixar seu olhar em uma reunião, elevar sua auto-estima, se tornar mais articulado em sua fala diante de uma plateia, e porquê raios um elogio tem tanto poder? De algum modo, esse elogio repercutiu no seu cérebro. Como? Através da sua memória de curto prazo. Acontece que os mecanismos do seu cérebro para aprendizado a curto prazo podem ser bem diferentes daqueles que geram seu aprendizado a longo prazo. Na hora seguinte, esse elogio já vai ter se apagado, e provavelmente aquele efeito viciante descrito anteriormente vai ter se esvaído, mesmo que você não queira. Na realidade, a maioria das pessoas queria ficar sob efeito de elogios a maior parte do dia. É como quando um viciado em café ingere uma xícara: ele busca o efeito da cafeína em tempo integral, consumindo cada vez mais em intervalos menores de tempo. Esse consumo, teoricamente, aumenta sua performance. Acontece que mesmo notando o efeito comportamental positivo de um elogio em sua performance, o indivíduo não pode ficar dependente de elogios pelo simples fato de que ninguém é constantemente elogiado, o dia inteiro.

Não sei exatamente a que ponto a cultura oriental se afastou tanto da ocidental, talvez e muito provavelmente com o fim do império romano e pós disseminação ocidental do Cristianismo. Em dado momento, principalmente após a invasão de Roma pelo exército Alarico, a Igreja deixou de ser alheia a política e outras esferas sociais e passou a ser fonte de coesão que marcou a transição entre a antiguidade clássica e a Idade Média. De alguma forma, a partir disso, a virtude de ficar sozinho e entrar em contato consigo mesmo para perceber e modular disfunções psíquicas e orgânicas, bem como a projeção da mente para o corpo, passa a serem considerados pela sociedade um comportamento desviado e não aceito. A projeção dos problemas passa ocorrer em um ser maior, capaz de resolvê-los enquanto seus fieis esperavam por sua volta e pelo apocalipse. O ocidente não meditava, ficar sozinho e refletir sobre seu estado e o estado do seu corpo era considerado doentio, e ainda vivemos com o resquício disso. As pessoas não param para pensar em que estado se encontram, e como modular esse estado dominando suas funções cerebrais. Mas isso é possível?

A psicóloga Marisa Peer costuma pregar sobre a importância do efeito comportamental que somos capazes de modular através de nossas crenças. Em sua palestra, ela costuma enfatizar o fato de que nossas crenças modulam nossas reações cerebrais, fazendo com que a mente responda exatamente ao que você quer. Para tanto, você precisa saber o que você quer, e, segundo ela, tornar habituais suas atitudes comumente não usuais. A pesquisadora Canadense Lara Boyd faz trabalhos voltados para neurociência e recuperação de pacientes vítimas de derrames. Ela nota que dentro dessa recuperação, a neuroplasticidade tem um papel decisivo e o exercício do poder de crenças e comportamentos no aprendizado são primordiais para a recuperação. Sem isso, não há recuperação, e perceba como é sério: a velha história de que os neurônios não se desenvolvem e seguem em linha reta para a morte neuronal apenas caiu por terra. Os seus neurônios são capazes de responder e se moldar a estímulos que você gera, por uma alteração bioquímica. Você é capaz de modular sua capacidade através de uma mudança de comportamento e de crenças.

Por exemplo, em dado momento você pensa que se sente derrotado e que gostaria de ser bem sucedido, ter reconhecimento e um rendimento melhor. Peer te diria para decidir se é isso mesmo que você quer, e que a partir dessa decisão, se for exatamente isso o desejado, você nunca mais deve repetir a si mesmo que se sente derrotado, fracassado ou fraco. Nunca mais repita para si que sente que não é capaz, por mais que no fundo da sua alma, neste momento, você sinta isso: absolutamente tudo o que você pensa e repete para você, seu cérebro ouve e reage quimicamente de acordo, em uma reação adaptativa e cientificamente embasada chamada de neuroplasticidade, ou seja, o pensamento positivo não é balela, e vai além.

Se você repetir para você mesmo que quer ser bem sucedido, que vai ser bem sucedido, seu cérebro recebe um estímulo que é convertido em um sinal químico de modo que progressivamente, quando associado a um comportamento coerente, gera um remodelamento. Isso significa que (não milagrosamente) você passa a desenvolver uma mente de sucesso. Para tanto, Lara Boyd diria para que você se apegue a sua melhor forma de aprender. Todos temos uma programação genética e para registrarmos nossas crenças positivas em nossa memória de longo prazo, precisamos nos reter a melhor forma de aprendermos. No meu caso, aos cinco anos eu já sabia que retia informações e sentimentos bons a longo prazo quando em contato com manifestações artísticas, como o piano. Eu só esqueci de como era mais fácil aprender coisas associando meu poder de desenvolvimento a uma aptidão natural a qual gerava em mim sentimentos bons. É necessário identificar essa aptidão natural e associá-la ao que desperta seu melhor lado, ou seja, aquele no qual você inevitavelmente acredita em você. E isso faz, literalmente, o seu cérebro crescer.

Não tema, portanto, sua própria expansão. A verdade que isso nos mostra é que -diferente do que foi disseminado por anos a fio na cultura ocidental, de que não temos controle de nosso próprio corpo e somos reféns do medo e do ocasional - temos o poder de modular nossas reações e quem nós somos, bem como nossa capacidade psíquica e mental. Em resumo, podemos guiar nosso cérebro com as mãos, e, portanto, livrando-nos de qualquer clichê, você realmente e comprovadamente pode ser exatamente aquilo que você quiser. Use essa liberdade a seu favor.


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
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