café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

Sobre o suicídio na classe médica

Vivemos em um ambiente em que 90% dos colegas estão medicados por depressão e ansiedade, e nos perguntam o porquê de tantos suicídios. Todo e qualquer residente já se sentiu humilhado ou abusado durante a residência médica e mesmo durante sua graduação. A violência no meio médico precisa ser combatida.


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Estava ajoelhada na lama há, no mínimo, uma hora e meia. Meu veterano parava todos meus colegas do primeiro ano para perguntar se eu tinha estado na festa do dia anterior e todos eles respondiam que sim. Ele dizia que não tinha me visto e que, portanto, eu continuaria ali pagando pelo meu erro. Então ele pedia mais uma garrafa de cerveja gelada para jogar na minha cabeça, e eu me sentia aliviada. Todos falavam que o trote seria pior, que todos chorariam. Eu estava sentindo que me saía bem.

"Vai, bixete, abaixa a cabeça e abre bem o olho". "Vai logo, olha para baixo".

Ele deu pressão na garrafa da cerveja e não teve dúvidas. E então, pela primeira vez na medicina eu chorei. Por dor física. Cerveja dentro do olho dói bastante, sabia? Algum tempo depois, esse veterano virou oftalmologista.

Mas eu e meu colegas passamos por isso e por outros trotes. Ouvíamos dos veteranos e professores que ninguém morria de trote, e que isso nos faria melhor. Ouvíamos que era necessário baixar a bola de calouro, e que não seríamos nada se não fizessemos parte disso. Então acatamos, e muitos esperavam ansiosamente o próximo ano para que pudessem fazer o mesmo. Então, eu vi a violência sendo reproduzida.

Hoje, pela primeira vez na minha vida acadêmica uma docente me perguntou se eu estava bem.

Durante o trote, vi amigos se machucando. Outros, passando por abusos físicos e sexuais. Ninguém denunciou, ninguém denunciava. Quem acreditaria? Quem quer levar a fama de fresco? Acima de tudo, qual autoridade levaria isso adiante em um mundo em que, aparentemente, todos passaram por isso? A violência foi reproduzida.

Quando estava no cursinho para prestar medicina, Rgs e apostilas eram roubadas às vésperas do vestibular para minar a concorrência. A violência foi reproduzida.

Durante a graduação, ouvi de diversos lados que psiquiatras eram loucos e que para ser cirurgião tinha que aguentar a bronca. Vi residentes da Ginecologia e da cirurgia sofrendo todo tipo de humilhação e sendo duramente retaliados. Vi amigos aderindo a greve por não estarem recebendo salário e serem ameaçados. Vi mulheres que engravidaram durante a residência sendo persuadidas a abandonar a especialização. A violência foi reproduzida.

Na faculdade, ouvia muitas pessoas serem julgadas por não participarem de instituições acadêmicas ou irem em competição. Mas eu não estava no meio disso, então porque me preocuparia? Eu reproduzi violência.

Quando entrei em psiquiatria, mais uma vez, acreditei que seria diferente comigo. Que estaria isenta, já que psiquiatras são empáticos e incapazes de humilhar. Mais uma vez estava errada, entrando em um ambiente de egos como em qualquer outra residência médica. Para a residência existem leis. Elas são cumpridas? Nem sempre. Quase sempre? Não, na maioria dos lugares, não. Tenho amigos que passam mais de setenta horas no hospital direto, sendo que a carga horária prevista em treinamentos intensivos, pela lei, são de sessenta horas. Acontecem julgamentos. Acontece, diariamente, muito abuso. Muitas colegas já foram assediadas: Assédio moral e sexual. Isso chega aos órgãos responsáveis? Não. Porquê? Porque é quase certo que uma denúncia dessas fica entre os grandes, que não haverá apuração e, caso ocorra, retaliações vão acontecer, tanto entre chefes como entre colegas. Ninguém passa dez anos estudando para perder tudo para o que lutou de um dia para o outro, certo?

Certo?

Médicos precisam ser treinados para serem fortes. Para obedecerem, para serem hierárquicos. É isso que se ouve, sempre.

Vivemos em um ambiente em que 90% dos colegas estão medicados por depressão e ansiedade, e nos perguntam o porquê de tantos suicídios. Não é pela carga horária. Todo e qualquer residente já se sentiu humilhado ou abusado durante a residência médica e mesmo durante sua graduação. Não temos leis, não temos provas, nunca. Eticamente, neste ambiente, provas não podem existir.

A violência continua a ser reproduzida, diariamente. A violência no meio médico precisa acabar.

Não se trata de ser empático apenas ao paciente, enquanto se olha para o colega com uma disputa de ego constante, como sendo sempre uma ameaça a ser combatida ou discutida. Não se trata de ser bonzinho, e sim desempenhar corretamente e, principalmente, moralmente e eticamente a função que lhe foi atribuída, igualmente a todos. Não se trata de missão, e sim de dever. Não se trata de favor, e sim de respeito.

Muitos vão ler isso e vão pensar, mais uma vez, em fraqueza de quem não soube se calar. Muitos vão vir falar comigo e vão falar que vão acontecer retaliações e boatos. Que é causar demais.

A violência é reproduzida. Mas hoje, vi uma rosa furar o asfalto e então escrevi isso com um pingo de esperança e muita admiração.


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
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