café em prosa

Para dias de caneca, sofá, livro, artes e muita prosa.

Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor

O melhor conselho que você vai ouvir hoje

Volto a me perguntar, em que momento perdemos a espontaneidade e quando a recuperamos?

Um dia, sequer chegamos a recuperá-la?


“O que você faria se tivesse uma pedra no seu sapato que te impedisse de andar?”.

Primeiro ano do colegial, a timidez bateu. Não sabia qual era a resposta certa, mas, sobretudo, não sabia qual era a resposta que a professora gostaria de ouvir.

Eu sempre pensava no sentido de não decepcionar as pessoas, nunca. Ingênua, né?

A resposta a seguir traduziu ainda mais minha ingenuidade: “Mancaria”.

Já ela, sábia e cheia de si, enquanto encenava o próprio discurso, dizia: “Eu sentaria, puxaria meu sapato e bateria até a pedra sair. Não tem cabimento andar com uma pedra no sapato.”

Lembro que à época pensei muito sobre isso. Não me lembro a matéria, tão pouco o contexto, mas ali aprendi que precisava sair da minha zona de conforto ou não conforto.

Não tinha cabimento mesmo andar com uma pedra no sapato. E então, eu mancaria. Eu ignoraria aquela coisinha me cutucando e incomodando todo o dia, e por qualquer inconveniência do destino, não tiraria a pedra do meu sapato.

Pensava em como respondi algo tão errado ao meu próprio olhar, tinha sim alguma coisa errada naquela resposta.

Uma criança, na mesma situação, sentaria e tiraria a pedra. E então, eu soube.

Em que momento perdemos a espontaneidade e quando a recuperamos?

Um dia, sequer chegamos a recuperá-la?

Passam-se alguns anos.

Começa 2019.

Acordo, trabalho, durmo, acordo, trabalho, vou à academia, vejo minha irmã, durmo, acordo, trabalho, encontro um amigo, apenas um, os outros estão trabalhando, durmo, acordo, trabalho, ligo para os meus pais e lembro que já não os vejo há dois meses, durmo. Acordo.

Acordo. E durante o dia sinto um medo que não sei bem do que, uma angústia em cumprir uma rotina que não tem bem um nexo causal, uma ordem, um porquê, e às vezes me pego fazendo nada quando tinha mil e outras coisas em mente. Mas não deu tempo, nunca dá.

Durmo, pensando em como vou ser melhor amanhã, mas que já poderia ter sido melhor hoje, se tivesse dado conta, se não tivesse tanto trânsito ou se não me sentisse tão cansada. Porque tanta saudade?

Acordo. Em 3 minutos vivi mentalmente um dia que não chegará a ser metade daquilo que imaginei. Não terei tempo de ir ao mercado, vou mandar um rappi. Vou acabar no sofá vendo série e sem disposição para ir ao cinema. Eu sei. Eu acordo, eu trabalho, eu durmo.

E então eu entendo: tem uma pedra no meu sapato.

A danada, e como pude esquecer dela. Volto para dentro, entendo a ansiedade basal de viver toda-aquela-rotina-de-novo, que sofrida, que acabe logo para quem sabe amanhã eu possa ir para África logo e-realizar-o-sonho-de-ser-médico-sem-fronteira, ou realizar qualquer sonho, mas amanhã ela ainda vai estar lá, me lembrando de que vai ser tudo igual.

Volto a me perguntar, em que momento perdemos a espontaneidade e quando a recuperamos?

Um dia, sequer chegamos a recuperá-la?

Me sinto feliz, comecei o ano lembrando da pedra. Por um momento, me culpei novamente, por um dia tê-la esquecido.

Precisei sentar, eu, que sempre relutei contra possíveis alienações. Precisei tirar o sapato, e sacudir, bem sacudido, para que qualquer vestígio de pedra lá dentro caísse por terra.

Dormi e acordei lembrando: vive um segundo por vez, a vida é isso aí que está acontecendo agora. Parece clichê, coisa de novela, mas é mesmo. A gente acorda torcendo para que, ao final do dia, esteja tudo certo de novo. E está tudo certo?

Há quanto tempo estava ali essa pedra? Quantas vezes ela ainda vai aparecer?

Em que momento ficamos fadados ao destino automático que pressupostamente representa nosso caminho mais seguro e o quanto estaríamos dispostos a romper com essa segurança tão fatídica e insegura?

Anotei em um bilhete na geladeira, para viver com sabedoria, virtude, sem pedra no sapato. Tire a pedra, não adianta a vida, sem adiantar ela já anda rápido.

Senta, sacode o sapato, andar já é difícil sem pedra alguma.

Faça a birra ou a espontaneidade dos seus 5 anos, sente no chão e não volte a andar enquanto não tirar a pedra do sapato.

Presta atenção, contrarie Drummond, não queremos pedra, queremos apreciar o caminho.


Malu De Falco

Sou de amor por livros, café de museu, poltrona do Tate Modern, passagens aéreas, chocolate quente, cheiro de chuva, reler velhas cartas e vinho. Sou de vida e de oxímoros, extremamente a favor do bom humor.
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